Bufões no palco da intransigência

foto: "A Noite dos Palhaços Mudos" [via Estadão]

foto: “A Noite dos Palhaços Mudos” [via Estadão]

Ricardo Gondim

Em diferentes ocasiões me vi provocado a entrar em polêmicas; alpinistas, ansiosos por alguma controvérsia que lhes rendesse fama, me desafiaram para a briga. Lamento admitir: caí na armadilha!

Como venho de um meio religioso, povoado de intolerantes que se enxergam separados para defender a ortodoxia, não tive trégua. Senti na pele como alguns se deliciam em ridicularizar os que não se conformam aos seus dogmas. Reconheço, entretanto, que em outros ambientes a realidade é igual.

Paulo aconselhou Timóteo a não entrar em debates infrutíferos. Por que não seguir o seu conselho e aprender a desdenhar de quem desafia para o ringue do bate boca?

Deve ser este o motivo porque me deliciei com o moçambicano Mia Couto em “Estórias Abensonhadas”. A parábola dos Palhaços expõe o ridículo de algumas discussões. Mia Couto, que sobreviveu a uma guerra civil, mostra-se bom conhecedor do fundamentalismo; ele sabe o custo da intolerância. Considero o texto pertinente:

Uma vez dois palhaços se puseram a discutir. As pessoas paravam, divertidas, a vê-los.

– É o que?, perguntavam.
– Ora, são apenas dois palhaços discutindo.

Quem os podia levar a sério? Ridículos, os dois cômicos ripostavam. Os argumentos eram simples disparates, o tema era uma ninharice. E passou-se um inteiro dia.

Na manhã seguinte, os dois permaneciam, excessivos e excedendo-se. Parecia que, entre eles, se azedava a mandioca.

Na via pública, no entanto, os presentes se alegravam com a mascarada. Os bobos foram agravando insultos, em afiadas e afinadas maldades. Acreditando tratar-se de um espetáculo, os transeuntes deixavam moedinhas no passeio.

No terceiro dia, porém, os palhaços chegavam a vias de fato. As chapadas se desajeitavam, os pontapés zumbiam mais no ar que nos corpos. A miudagem se divertia, imitando os golpes dos saltimbancos. E riam-se dos disparatados, os corpos em si mesmos se tropeçando. E os meninos queriam retribuir a gostosa bondade dos palhaços.

-Pai, me dê as moedinhas para eu deitar no passeio.

No quarto dia, os golpes e murros se agravavam. Por baixo das pinturas, o rosto dos bobos começava a sangrar. Alguns meninos se assustaram. Aquilo era verdadeiro sangue?

-Não é a sério, não se aflijam, sossegaram os pais.
Em falha de trajetória houve quem apanhasse um tabefe sem direção. Mas era coisa ligeira, só servindo para aumentar os risos. Mais e mais gente se ia juntando.

– O que se passa?
-Nada. Um ligeiro desajuste de contas. Nem vale a pena separá-los. Eles se cansarão, não passa o caso de uma palhaçada.

No quinto dia, contudo, um dos palhaços se muniu de um pau. E avançando sobre o adversário lhe desfechou um golpe que lhe arrancou a cabeleira postiça. O outro, furioso, se apetrechou de simétrica matraca e respondeu na mesma desmedida.

Os varapaus assobiaram no ar, em tonturas e volteios. Um dos espectadores, inadvertidamente, foi atingido. O homem caiu, esparramorto.

Levantou-se certa confusão. Os ânimos se dividiram. Aos poucos, dois campos de batalha se foram criando. Vários grupos cruzavam pancadarias. Mais uns tantos ficaram caídos.

Entrava-se na segunda semana e os bairros em redor ouviram dizer que uma tonta zaragata se instalara em redor dos dois palhaços. E que a coisa escaramuçara toda a praça. E a vizinhança achou graça.

Alguns foram visitar a praça para confirmar os ditos. Voltavam com contraditórias e acaloradas versões. A vizinhança se foi dividindo, em opostas opiniões. Em alguns bairros se iniciaram conflitos.

No vigésimo dia se começaram a escutar tiros. Ninguém sabia exatamente de onde provinham. Podia ser de qualquer ponto da cidade. Aterrorizados, os habitantes se armaram. Qualquer movimento lhes parecia suspeito. Os disparos se generalizaram.

Corpos de gente morta começaram a se acumular nas ruas. O terror dominava toda cidade. Em breve, começaram os massacres.

No princípio do mês, todos os habitantes da cidade haviam morrido. Todos exceto os dois palhaços. Nessa manhã os cômicos se sentaram cada um em seu canto e se livraram das vestes ridículas. Olharam-se, cansados.

Depois, se levantaram e se abraçaram, rindo-se a bandeiras despregadas. De braço dado, recolheram as moedas nas bermas do passeio. Juntos atravessaram a cidade destruída, cuidando não pisar os cadáveres. E foram à busca de uma outra cidade.

A moral da estória poderia ser: os que discutem para ganhar pelejas ou firmar dogmas acabam se transformando em palhaços?; ou: quando bufões pelejam, pessoas podem morrer?

Assim, reservo-me ao direito de só conversar, tecer sobre o que me inquieta, e até ser confrontado, com pessoas e em ambientes onde noto educação, elegância e respeito. Os demais, que procurem palhaços que saibam representar bem no palco da intransigência.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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