Chalita e os aloprados Tucanos

Bastidores das Denúncias contra Gabriel Chalita expõem uma ação desastrada da campanha do PSDB durante a eleição paulistana. Acusações atingem o governador Alckmin

OS ALOPRADOS O deputado Walter Feldman (à esq.) e o assessor político do PSDB Ivo Patarra (à dir.)incentivaram as denúncias contra Chalita para ajudar José Serra

OS ALOPRADOS
O deputado Walter Feldman (à esq.) e o assessor político do PSDB
Ivo Patarra (à dir.)incentivaram as denúncias contra Chalita para ajudar José Serra

Pedro Marcondes de Moura, na IstoÉ

Em outubro do ano passado, às vésperas do segundo turno da eleição à Prefeitura de São Paulo, o analista de sistemas Roberto Leandro Grobman procurou integrantes da campanha de José Serra (PSDB). Dizia ele estar munido de uma denúncia bombástica contra o deputado federal Gabriel Chalita (PMDB), um dos cabos eleitorais do então candidato do PT, Fernando Haddad, e crítico ferrenho da gestão de Serra. No comitê do PSDB, Grobman foi recebido com entusiasmo. A pedido do deputado federal e coordenador da campanha de Serra, Walter Feldman, o analista dirigiu-se ao Ministério Público acompanhado pelo jornalista Ivo Patarra, assessor político do PSDB. Em depoimento aos procuradores, Grobman revelou uma série de irregularidades cometidas de 2002 a 2006 por Chalita, então secretário estadual da Educação filiado ao PSDB, para favorecer o grupo educacional COC.

Em troca, segundo o delator, Chalita teria recebido benefícios financeiros, entre os quais o pagamento de US$ 600 mil para a reforma de sua cobertura no bairro de Higienópolis.

A desastrada operação de campanha, contudo, não produziu o efeito desejado. Se viessem à tona na época, aquelas acusações colocariam nas cordas um dos mais importantes aliados de Haddad e poderiam ter sido decisivas para alterar o resultado da eleição, desfavorável aos tucanos. A prudência dos promotores, porém, em aguardar o desfecho das eleições e só na semana passada dar publicidade ao caso acabou se transformando num tiro no pé do próprio PSDB. A denúncia expôs uma vulnerabilidade já conhecida do governo do tucano Geraldo Alckmin: a área da Educação. Além do governador ter sido o responsável por nomear Chalita, e as denúncias compreenderem o período em que ele era filiado ao PSDB e secretário da Educação de Alckmin, não é a primeira vez que o governador de São Paulo é alvejado por acusações nesse setor. Em agosto do ano passado, ISTOÉ revelou casos de superfaturamento e pagamento de propina na compra de uniformes pela Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE). Na ocasião, o governador preferiu calar-se sobre a denúncia. Agora, como tudo leva a crer que a corrupção no FDE é sistêmica, não restou alternativa a Alckmin senão a de se pronunciar. Na semana passada, o tucano saiu em defesa do antigo aliado. “Tenho absoluta confiança (em Chalita), é uma pessoa correta, séria, tem espírito público”, declarou Alckmin. “Acho estranho denúncia dez anos depois. Por que dez anos depois?”, complementou.]

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De acordo com as informações prestadas pelo delator, Chalita montou um esquema de arrecadação pessoal na secretaria da Educação. Exigia comissão em contratos e tinha contas pagas por fornecedores, como o grupo educacional COC. A companhia, vendida em 2010 pelo empresário Chaim Zaher ao conglomerado britânico Pearson, teria inclusive indicado funcionários a cargos para setores estratégicos do seu ramo de atividade. Por meio desse suposto esquema, a empresa Interactive, ligada ao grupo COC e que tinha como sócio o próprio denunciante, comercializou 2,5 milhões em softwares educativos com a Secretaria da Educação paulista. Em troca, o grupo de Zaher oferecia uma série de benefícios a Chalita. Pagou US$ 600 mil na reforma do seu apartamento de alto-padrão em Higienópolis, bairro nobre da capital paulista, custeou viagens internacionais e comprou 34 mil exemplares de um livro do deputado. Íntimo de Chalita, Grobman acusou-o de usar duas funcionárias durante o expediente da secretaria para escreverem best-sellers que depois publicaria em seu nome. Afirmou ainda ter visto malas de dinheiro na casa e no escritório do então secretário da Educação de Alckmin.

Antes de serem levadas ao MP, as acusações já eram de conhecimento do staff tucano. O deputado Walter Feldman, um dos coordenadores da campanha, admite que orientou Ivo Patarra a acompanhar Grobman. “Essa informação nos chegou na campanha. O Chalita candidato, nós na campanha do Serra… Nós colocamos que eram denúncias que nos pareciam que deveriam ser investigadas, então eu sugeri, juntamente com o Ivo, que fizesse o encaminhamento ao MP”, admitiu Feldman ao jornal “O Estado de S. Paulo”. O parlamentar se defendeu, no entanto, dizendo que as informações não foram repassadas para o comando da campanha e nem teria havido o intuito de usá-las durante a disputa municipal. “Não queríamos entrar nessa linha de fazer denúncias. Não cabe isso em campanha, como o PT fez contra nós, com os chamados aloprados”, declarou.

No entanto, a versão pretensamente antialoprada de Feldman de que o PSDB não se interessou em usar politicamente as denúncias contra Chalita, em meio à campanha eleitoral de 2012, acabou derrubada na quarta-feira 27. Ex-diretor da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE) de São Paulo no período em que Chalita era secretário estadual, o empresário Milton Leme disse ter recebido oferta de dinheiro para confirmar as acusações contra o deputado federal do PMDB e um dos principais apoiadores de Fernando Haddad. Em outubro, ele teria participado de um encontro, a convite de Grobman, num shopping na capital paulista. Lá, segundo Leme, estava presente também Walter Feldman. Durante a conversa, o empresário disse que foi surpreendido inclusive por um aceno a distância do então candidato à Prefeitura e ex-governador de São Paulo, José Serra. Milton Leme também relatou ter recebido dias depois um telefonema de Roberto Leandro Grobman com uma oferta de R$ 500 mil a serem pagos pela campanha tucana em troca da confirmação das denúncias contra Gabriel Chalita.

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O encontro ocorrido no shopping na capital paulista foi confirmado tanto por Grobman como pelo deputado Feldman. Mas o parlamentar insiste ter agido de acordo com princípios éticos. “Essa prática não corresponde nem à minha história pessoal nem à intransigente postura do PSDB de compromisso com a ética”, complementou refutando a acusação de ter ofertado dinheiro. Já o autor das denúncias contra Chalita diz que não recebeu nenhuma vantagem financeira e acusa o empresário Milton Leme de ter recebido valores do antigo proprietário do grupo COC para ficar em silêncio. Além de gerar um efeito bumerangue para o PSDB, as graves denúncias contra Chalita tiveram outra consequência política. Na semana passada, o governo federal descartou o nome do deputado para comandar um ministério na cota do PMDB. Chalita estava cotado para assumir a Ciência e Tecnologia. Agora, o peemedebista, isolado até por setores do seu próprio partido, terá de se preocupar com sua sobrevivência política.

Montagem sobre fotos de ALEX SILVA/AE; Zanone Fraissat/Folhapress; CLAUDIO GATTI/Ag. Istoé

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