Yvan Attal – E viveram felizes para sempre

Vinícius Siqueira, no Obvious

“E Viveram Felizes Para Sempre”, filme de Yvan Attal, retrata a vida comum de um casal comum em um relacionamento comum moderno. O problema é esse. Os relacionamentos comuns são esmiuçados a ponto de não se perceber o por quê de ter se tornado tão comum. Com esta pretensão, o longa é levado como uma guerra-fria entre um casal contemporâneo.

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A Guerra de Comida.

“E Viveram Felizes Para Sempre”, longa dirigido por Yvan Attal, não é um filme complicado, mas é um filme que, friamente, coloca a realidade em seu devido lugar: o mundo é uma mentira mal-contada. Por que eu digo isso? Veremos.

A vida, essa mentira

O longa trata da vida de três homens, amigos de trabalho, sendo dois casados e o terceiro um solteiro que aproveita a vida com várias mulheres. Vincent e Gabrielle formam um casal monótono, com um filho e sem muita atividade; Georges e Nathalie formam o casal que não consegue mais ter um relacionamento saudável, tendo a vida recheada de brigas por motivos fúteis. Enquanto isso, Fred, o solteiro, marca encontros duplos, causando a inveja de seus amigos.

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Ambos os casados sem reação ao ver a facilidade de Fred ao telefone.

A grande sacada do filme é mostrar uma relação extremamente instável, porém fiel, em um casal, e uma estabilidade maçante de outro, mas cheia de traição – Fred, por sua vez e para perplexidade geral, inveja a vida de casado.

Vincent trai Gabrielle (apesar de continuar a amando). Gabrielle descobre sua infidelidade e tenta até mesmo traí-lo, mas, sem coragem, não conclui seu plano. Eles não tocam no assunto, em nenhum momento nada disso fica explícito – há somente jogos de palavras, de olhares, desconfianças alheias, mas nunca há uma conversa franca e direta. Tudo se passa como se não houvesse traição, como se isso não fosse parte da decadência do casal. No fim do filme, vale dizer, eles acabam juntos – mas Gabrielle re-encontra um flerte que será mais explicado à frente.

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Um momento de Gabrielle e Vicent.

Georges e Nathalie, por sua vez, têm o relacionamento acalorado após a chegada de um novo casal no prédio onde moram. Um noite de sexo acalma a esposa irritada com o mundo machista e acalma a vida de um trabalhador médio tipicamente machista.

Fred tem um filho! Ele engravida uma de suas peguetes e aceita a vida de pai, aceita a vida de parceira fixa, aceita a vida cobiçada. Na verdade, creio que “aceitar” é um verbo errado. Ele consegue a vida em que termina.

O que o filme deixa claro é que a vida, como um todo, é uma grande mentira – melhor, uma ilusão no sentido que Freud dá em Futuro de uma ilusão: um desejo humano impulsionado em uma realidade não necessariamente existente ou provável, mas que quer ser satisfeito, seja como for.

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A linda Charlotte Gainsbourg como Gabrielle.

A vida é, então, uma mentira que precisa ser levada discretamente e que não pode ser descoberta, para manter-se como ilusão, para manter o castelo de cartas. Ela pode até ser deduzida, mas tudo precisa se passar como se nada estivesse acontecendo. Enquanto eu souber que você sabe, enquanto você souber que eu sei que você sabe, mas enquanto nós dois não tenhamos colocado isso em pauta, tudo está ok.

Mas e então?

É necessário fingir que não se sabe tudo o que se passa fora do padrão estabelecido da felicidade, por que a felicidade não é uma acepção subjetiva – ela é, na verdade, construída para parecer uma questão individual, mas é gravada nos sujeitos de maneira que determinadas coisas (como casar, ter filhos, ter um bom emprego, conhecer pessoas, conhecer lugares, ser independente e etc.) estão em posição privilegiada para todos.

A felicidade, de acordo com o filme, também é alcançada pelo desconhecimento daquilo que causa a infelicidade, mesmo sendo este desconhecimento algo falso. Isso é tão claro que as traições não são essencialmente ruins, mas são aparentemente ruins. Por isso são ignoradas/aceitas em última instância.

Esse cinismo é um fundamento da vida moderna pós-ideológica, de acordo com Safatle. Esse saber e não-saber, essa negação daquilo que é real, por não “poder” ser verdade, é um dos pilares da ideologia atual, como também defende Zizek.

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Cena capital onde o filme faz o coração feminista ser quebrado pelo carro novo do marido.

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O casal George e Nathalie.

A cena expoente

O fim do filme tenta coroar aquela que é, talvez, a cena mais arrebatadora de todo o longa: Gabrielle está escutando “Creep”, do Radiohead, dentro de uma loja de discos lotada É então que um personagem interpretado por Johnny Depp divide a música que está sendo tocada, pegando outro par de fones. Eles trocam olhares, flertam delicadamente e, seguindo a melancolia e desespero da música, Gabrielle, imersa em uma relação também desesperadora e em uma situação sem muitas saídas à vista, corre em direção do rapaz, após este retirar os fones e seguir seu caminho.

She’s running out the door
She’s running out
She run, run, run, run

Quando o encontra, fica sem reação – como se algo a parasse, como se tudo aquilo que passou por sua cabeça em um minuto e que a fez ficar louca, impulsiva, tivesse voltado para as profundezas de um inconsciente reprimido, que pode ser paralelo com a cena onde Georges entra, “sem querer”, no quarto da esposa de seu vizinho, em meio ao jogo de cartas, tentando ir ao banheiro.

Encontrar um outro é uma forma de tentar aproveitar uma parte de si que não mais é satisfeita na falência de uma relação mastigada pelos ratos da vida ocidental moralizada e presa.

A música é eliminada do fundo da cena e tudo volta ao normal. Foi só um instante, foi só uma fuga da pulsão. Foi aquilo. E só.

Talvez o reaparecimento do personagem de Depp no fim signifique uma salvação para Gabrielle, mas o cinismo ainda continua na vida cotidiana. Ainda há um fundo de mais-do-mesmo e a traição suposta só seria uma forma de completar sua relação com o marido. Mas o fato de o filme tentar trazer uma saída ainda é algo a se considerar como uma tentativa de quebrar esse modus operandi de ilusão nos relacionamentos modernos. Ainda há uma esperança, seja lá qual for, não é?

 

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