Precisamos de mais músicas gospel?

imagem: Facebook

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Marlos Ferreira, no Underdot

Alguns dias atrás eu fui almoçar em um shopping com dois amigos evangélicos, depois do almoço um deles quis passar em uma livraria evangélica que havia no local, pois ele estava procurando um livro. Ao chegarmos ao local, havia uma promoção de CDs: 3 CDs de artistas brasileiros por R$ 10,00 ou 3 CDs de artistas estrangeiros por R$ 15,00. Um dos meus amigos, que está justamente em processo de gravação do seu primeiro CD, comentou: olha, até tem algumas coisas legais aqui nessa promoção, mas vou trabalhar para que meu CD nunca venha parar em um balaio com esse.

Eu já ouvi a prévia do CD que este meu amigo está gravando, ele está se esforçando para atingir um nível de produção profissional, e o cara é um Cristão fiel e de testemunho exemplar, porém você confunde o resultado do trabalho com outras inúmeras gravações, as mesmas letras, os mesmos arranjos, a mesma sonoridade pop/rock/worship, tudo igual.  Pensei comigo mesmo “precisamos de mais este CD? Aliás, precisamos de mais música Gospel?”

Além da questão óbvia da crise do mercado fonográfico e das quedas constantes nas vendas de CDs, mesmo que a música Gospel tenha um comportamento um pouco diferente, com uma incidência menor de pirataria, qual é a validade de gravar mais um CD hoje em dia?

Não faço esta pergunta apenas pelo aspecto mercadológico, é claro que para muita gente vale a pena lançar um CD, pois as vendas são significativas para as estrelas do Gospel nacional, mas principalmente naquilo que deveria ser a função básica da música Cristã: adorar a Cristo, e levar sua mensagem através da arte. Quanto, dessa música Gospel toda que vem sido produzida, cumpre esse função? Fica a pergunta para os estatísticos de plantão.

Mas espere aí, antes que alguém mais atento venha lembrar que eu mesmo escrevi resenhas e indiquei CDs aqui neste site, e venha me chamar de incoerente, é preciso destacar alguns pontos. A principal crítica aqui fica por conta dos inúmeros artistas que apenas se enquadram no padrão vigente, já conversei com produtores musicais que contam que as pessoas chegam ao estúdio trazendo meia-dúzia de CDs de destaque no momento e pedem para que a gravação siga aquele padrão. Criar uma identidade?  Trabalhar em uma sonoridade própria? Pesquisar referências? Não, isso dá muito trabalho. Mas fácil apenas seguir fórmulas prontas.

É fato que a exigência deste mercado é baixa, eu mesmo fui educado para considerar bandas de rock meia-boca como sendo boas apenas por serem Gospel, afinal, já era rock, já era Gospel, exigir que ainda fosse boa? Seria pedir demais. Na mesma linha de raciocínio, já classifiquei como “legais” peças de teatro com textos cheios de clichês e atuações sofríveis. Esperar que o teatro evangelístico do culto de jovens fosse artisticamente relevante seria espera demais.

E assim vamos alimentando esta indústria. E quando digo “vamos”, é “vamos” mesmo, não posso me excluir da crítica com a justificativa de que os CDs que eu compro ou as músicas que eu indico são legais, e não fazem parte deste esquema repetitivo e pré-fabricado. Isso é muito relativo e o gosto pessoal não pode servir de critério.  A música Cristã que estou ouvindo e divulgando cumpre os requisitos básicos que já citei neste texto?

Bandas que não citam o nome de Cristo no decorrer de todo um álbum, talvez com medo de ficarem presas ao rótulo de Gospel, mas que buscam igrejas para tocar em início de carreira, estão cumprindo exatamente que função? Essa é uma pergunta sincera, e não uma crítica, já que eu mesmo ouço várias bandas assim, muitas vezes eu mostro o som para amigos e quando comento que a banda foi  formada em uma igreja e os integrantes são Cristãos os amigos me dizem “Nossa, nem parece gospel”, e eu tenho me perguntado se isso é bom ou ruim.

Por um lado a intenção era que realmente não parecesse Gospel, para não gerar um preconceito logo de cara, mas por outro, se esta música se confunde facilmente com tantas outras ditas seculares, qual seria o propósito? Ok, entendo que o dom de produzir arte foi dado por Deus de maneira ampla, não ficou restrito àqueles que creem em nEle, e que por isso a arte não precisa estar necessariamente voltada apenas para propósitos de adoração e/ou evangelização, mas então quando é que essas bandas conseguirão sair das sombras das igrejas?

Quando teremos representatividade artística ou cultural como Cristãos? Quando deixaremos de que a música de nossas liturgias seja apenas mais um mero mercado? Quando foi que reduzimos o significado de “adoração” a canções em Sol Maior feitas por crentes, para crentes, em um idioma que só os crentes entendem, tocadas apenas em igrejas? Precisa dizer que boa parte dessa produção sequer é bíblica? Precisa dizer que quando esta música sai das igrejas e vai para os programas de TV seculares, é apenas pelo fato destes veículos estarem de olho no Ibope dos evangélicos?

Precisamos de mais músicas Gospel?

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