Do espírito da ressurreição

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Will, no Ensaios do Afeto

Graças à minha família, sou cristão. Oportunidades não me faltaram para trocar de fé. Estudei com Testemunhas de Jeová e com Mórmons, conheci o espiritismo – li “O evangelho segundo o espiritismo” e alguns trechos do “Livro dos Espíritos” -, aproximei-me de outras expressões de fé como o Budismo, o Islã e a fé Baha’í, mas nunca me vi não cristão.

Quando criança, aprendi na catequese que os grandes problemas do humano são o mal e a morte. Convertido à faceta pentecostal do protestantismo, intensifiquei meu pavor a tais inimigos. Saí do movimento evangélico (ufa!) e aprendi, com a leitura de teólogos católicos e protestantes, filósofos existencialistas e materialistas, ateus e religiosos, que a morte pode não ser um inimigo, e que o mal, esse sim, deve ser combatido – embora seja um produto da finitude, ou seja, tudo que é finito produz mal e bem, bom e mau, inexoravelmente. Bendita ambiguidade.

Há muito, deixei de encarar a morte como a um inimigo, embora entenda quem o faça. Encabeçados por Darwin, teóricos convenceram-me, através da leitura de seus textos e da escuta de suas falas ou de seus estudiosos, de que pra que haja vida, a morte é indispensável. Sim, somos seres finitos condenados à morte. É o ciclo sem fim.

Li que o Rubem Alves, quando perguntado se tinha medo da morte, respondeu: medo não, tenho pena. Faço coro com o mestre. Mas devo confessar que a minha morte não me dá medo, o que me assusta é a morte dos meus queridos. Isso porque a morte é um memorial à saudade e, também, porque com a presença em vida da minha família, a quem mais amo, sinto-me seguro; confesso, tenho medo da saudade. A força, o carinho e a garra da minha mãe e de minhas avós são um alerta diário de que na vida é preciso ter coragem, a sabedoria e a serenidade do meu pai são lembretes pujantes de que a vida carece de calma sem resignação, de que ela passa rápido e é preciso agir. Pra não viver em vão, é preciso deixar um legado.

Não sei, nem quero, definir o que houve com Jesus de Nazaré depois de sua morte, o que nós, cristãos, chamamos de ressurreição. O que sei é que seu testemunho tem sido suficiente pra que ele seja lembrado até hoje e, não somente isto, adorado também. Há milhares de pessoas fazendo o bem, distribuindo amor pelo mundo e lutando, consciente ou inconscientemente, contra processos anti-vida em seu nome. A elas desejo sempre estar junto.

Meu pai disse-me algumas vezes que seu maior objetivo é dar a nós, a mim e à minha irmã, aquilo que meu avô, embora quisesse, não pode lhe dar. Ele não sabe, mas todos os dias lembro disso. Tem servido de fundamento às minhas relações, significado: minhas amizades, que sejam as melhores; namoros e um futuro casamento, que sejam os melhores; no relacionamento profissional, que eu contribua para que o ambiente onde eu estiver seja o melhor etc. A partir do testemunho de vida do meu pai, sou habitado por um desejo intenso de melhora, sede de vida – reconhecendo minhas limitações, buscando superá-las; é o espírito da ressurreição.

A morte foi ressignificada por Jesus. Morrer não é ir e levar, mas ficar e deixar. A vida sempre prevalece. Todos seremos lembrados por aquilo que fomos. Há uma força que promove o bem e a vida, que só pode ser o Espírito de Jesus, da sua ressurreição. Nele, portanto, oro como São Francisco de Assis:

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa , que eu leve o perdão,
Onde houver discórdia, que eu leve a união,
Onde houver dúvida, que eu leve a fé,
Onde houver erro, que eu leve a verdade,
Onde houver desespero, que eu leve a esperança,
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria,
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais
consolar que ser consolado;
compreender que ser compreendido,
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se nasce para a vida eterna…

Amém.

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