A faxina do papa Francisco

As tramas e os interesses materiais da Cúria são chinfrins. Superfaturaram até um presépio da praça de São Pedro. Estendem-se sobre obras, eventos, verbas hospitalares, orçamentos de escolas, viagens, mordomias e proteções. 

D. Cláudio (à dir.) durante apresentação do papa Francisco, no Vaticano foto: Valdrin Xhemaj/Efe

Foto: Valdrin Xhemaj/Efe

Escrito por Elio Gaspari na Folha de São Paulo.

O papa Francisco assumiu três reinados. Um, espiritual, alcança 1,2 bilhão de pessoas. Outro relaciona-se com a estrutura mundial da Igreja, com cerca de 3.000 bispos e um milhão de padres e religiosas. Finalmente, vem o Vaticano, com a Cúria Romana.

Certa vez perguntaram a João 23 quantas pessoas trabalhavam na Cúria, e ele disse: “A metade”. São 3.000 pessoas, respondendo a uma dezena de cardeais e a centenas de monsenhores. Apesar da pompa e da fama, a receita da Cúria Romana (cerca de R$ 700 milhões) é menor que a da Prefeitura de Nova Iguaçu (R$ 1,1 bilhão). Ela tem um braço financeiro no Banco do Vaticano, cujo ativo (R$ 16 bilhões) o coloca como um tamborete diante do Itaú (R$ 1 trilhão). Sua força está no poder que irradia.

Os papas mantêm imperial distância em relação a esses negócios, delegando-os a colaboradores próximos. Ao tempo de João Paulo 2º, o monsenhor poderoso na Cúria era seu secretário, Stanislaw Dziwisz, atual arcebispo de Cracóvia. Com Bento 16, veio o monsenhor Georg Gänswein, apelidado de “George Clooney do Vaticano”. Em torno do papa circulam questões espirituais e iniciativas diplomáticas, mas frequentemente ele se vê atropelado por roubalheiras e intrigas municipais numa corte onde o poder dos cardeais vem de conexões típicas da política italiana, a do “bunga-bunga” Berlusconi.

Pela essência espiritual da Igreja Católica e pelo caráter absolutista de sua monarquia, tudo o que acontece no mundo acaba naquilo que se costuma considerar a “crise da Igreja”. Se o arcebispo de Boston ou o de alguma diocese brasileira protegia pedófilos, o malfeito vai para a conta dessa crise.

Se o contínuo do prefeito de Nova Iguaçu furtar papéis de sua mesa, isso talvez não chegue a ser notícia nem sequer nos jornais do Rio de Janeiro. Quando o mordomo de Bento 16 varejou sua mesa, o que apareceu de mais estarrecedor foram as queixas do monsenhor Carlo Maria Viganó, secretário-geral da administração da Santa Sé. Por trás da campanha contra o padre estava o dedo do secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone. Pela qualidade e pelo montante envolvido, a irregularidade era um amendoim se comparada ao escândalo dos Legionários de Cristo do padre Marcial Maciel, quindim da plutocracia mexicana e de cardeais sobre os quais aspergia doações, um pedófilo promíscuo, que deixou seis filhos. Sua punição por Bento 16 foi severa, mas poderia também ter sido exemplar se tivesse exposto o exemplo, expondo suas relações em Roma. Bolas como essa estão quicando para o papa Francisco chutar.

Os cardeais italianos que vivem na política da Santa Sé são constrangedoramente municipais. Angelo Sodano, o poderoso secretário de Estado de João Paulo 2º, levou um ano para desocupar o gabinete quando Bento 16 substituiu-o por Bertone, que, por sua vez não fazia seu serviço. Os chefes da segurança do pontífice movem-se com um desembaraço sem similar nas democracias europeias.

As tramas e os interesses materiais da Cúria são chinfrins. Superfaturaram até um presépio da praça de São Pedro. Estendem-se sobre obras, eventos, verbas hospitalares, orçamentos de escolas, viagens, mordomias e proteções. Para limpar Roma, basta jogar detergente.

 

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