Pregar a Palavra. Que Palavra?

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Jung Mo Sung, no Novos Diálogos

Não há dúvida: a principal tarefa das igrejas cristãs é o anúncio da boa-nova de Jesus, a pregação da Palavra de Deus. Proclamar a palavra de fé e levar a pessoa a “confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos” e assim ser salvo (Rom 10.9).

Quando levei a sério essa proclamação, eu senti um entusiasmo que não sabia explicar bem. Aliás, a própria palavra “entusiasmo” (palavra de origem grega en + theos, em Deus, ser possuído por Deus) se refere à experiência de ser possuído por algo mais forte que nós mesmos, forças divinas, à experiência difícil de ser explicada. Mas, tempos depois, comecei a me perguntar: por que “confessar com a sua boca que Jesus é Senhor” é tão especial que nos daria a salvação eterna? Que poder mágico tem essas palavras? Seria porque nos revelaria uma verdade, e a aceitação dessa verdade no nosso intelecto e coração seria o caminho da salvação?

Essas perguntas são difíceis de serem respondidas e, mais do que isso, nos incomodam porque colocam sombras sobre a nossa certeza de que a salvação vem pela aceitação da Palavra e nossa missão é anunciar essa Palavra.

Com o tempo, após muitas leituras, estudos, debates e crises, descobri que há diferentes formas de compreender as noções de “Palavra” e “verdade”. De acordo com a tradição filosófica grega, que está no cerne da nossa cultura Ocidental, a verdade é a qualidade de uma afirmação que corresponde à realidade das coisas. Isto é, uma afirmação é verdadeira na medida em que descreve “perfeitamente” o objeto. É assim que a ciência lida com a verdade. Dentro dessa cultura, anunciar a Palavra de Deus, que é a Verdade, é entendido como afirmar algo que corresponde à realidade (seja ele no campo terreno ou sobrenatural); e aceitar essa proclamação de que “Jesus é o Senhor” é descobrir intelectualmente e aceitar no coração uma verdade que desconhecia. Conhecida essa verdade que nos salva, a missão que dela decorre é anunciar essa verdade para pessoas que ainda não a conhecem, até que todas as pessoas do mundo saibam dessa verdade e sejam salvos pela confissão pública dessa verdade. Todo o resto se torna secundário.

Eu vivia a minha fé dentro dessa perspectiva sem maiores problemas até que comecei a pensar seriamente em uma afirmação de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14.6). Como alguém pode ser verdade? Verdade é uma afirmação que descreve corretamente o objeto referido. Sendo assim, uma pessoa não pode ser verdade. A não ser que tenhamos outras noções do que é a verdade. A minha fé me levava a aceitar como verdade a afirmação de Jesus: “Eu sou a verdade”, afinal acreditava e ainda acredito que a Bíblia nos revela a Palavra de Deus. Porém, se Jesus é a verdade — e ele não é uma frase, conceito ou uma afirmação —, ele só pode estar usando a palavra verdade em outro sentido.

Aos poucos fui descobrindo que os gregos pensam a verdade a partir ou centrado no conceito do “ser”, daquilo que é; por isso uma afirmação é verdadeira quando descreve corretamente a realidade que é. Enquanto que a revelação de Deus recolhida na Bíblia ocorreu no mundo semita, que pensa a verdade em função do que deve ser, em função da vontade ou desígnio de Deus. Para a Bíblia, a verdade que interessa não está nos conceitos, sejam eles filosóficos ou científicos, mas na vida realmente vivida, nos atos de caminhada do reino de Deus. Por isso é que Jesus diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Ele é a pessoa que vive plenamente de acordo com os desígnios de Deus; por isso é a Verdade que é, e ao mesmo tempo o Caminho que nos conduz à Vida. Se quisermos viver a Vida, devemos seguir o Caminho de Jesus, pois ele é a Verdade.

Na medida em que a verdade, para a Bíblia, não é descrição do que existe, mas a realização dos desígnios de Deus, do dever-ser, a Palavra de Deus que anunciamos não é descrição de uma realidade sobrenatural ou do mundo divino, mas sim um chamado à transformação de nossas vidas, de criação de novas realidades humanas e sociais que mostrem a presença do reino de Deus entre nós. É por isso que no início do livro de Gênesis está escrito: “Deus disse…e assim se fez”. O proferir a palavra cria ou transforma a realidade para que a vida seja possível e agradável. A Palavra que sai da boca de Deus não descreve algo, transforma, cria, gera vida.

Encontramos essa mesma ideia no início do evangelho de João. O evangelista, que está escrevendo em grego, usa a palavra logos na frase que diz “No princípio era o logos…” (Jo 1.1). Há traduções da Bíblia que usam “Verbo” e outras “Palavra” para se referir a esse logos. O mais importante não é a escolha entre essas duas possibilidades de tradução, mas não cair na “armadilha” da cultura Ocidental e achar que essa Palavra descreve uma realidade divina. Não! Esse logos, que estava com Deus e era Deus, é ação e fez o mundo: “Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito” (Jo 1.3) A Palavra, a verdade, tem a ver com fazer, transformar, criar! Porém, nem todo tipo de fazer procede do Verbo ou é movido pelo Espírito de Deus. Por isso, o evangelho de João continua: “O que foi feito nele era a vida e a vida era a luz dos homens” (Jo 1.4).

A verdade que nos liberta (cf Jo 8.32) não é a palavra que descreve corretamente, mas a que nos liberta das situações de trevas e morte para a luz e vida! E há algo de estranho na afirmação de João que é fundamental: “a vida era a luz dos homens”. Para pensadores da linha da filosofia grega, o que ilumina a vida é a razão, o conceito verdadeiro. Por isso, a razão é chamada também de “luz” e a época conhecida como “iluminismo” foi a da revalorização da razão. Só que para a Bíblia, a relação é outra: não é a luz (conceito ou razão) que ilumina a vida; é a vida que é a luz para os seres humanos. O critério da verdade não é o conceito correto, é a vida vivida de acordo com o desígnio de Deus.

Essas reflexões mais teóricas nos ajudam a compreender melhor a missão das igrejas cristãs de anunciar a Palavra. Só que a Palavra que proclamamos não pode ser tecida por conceitos e nada mais, mas deve ser encarnada na vida concreta e nas ações pessoais e da comunidade que transformam pessoas e a sociedade e geram mais vida. Pois a Palavra se fez pessoa e viveu entre nós, e com sua vida nos revelou que Deus é Amor que ama a todos sem distinção (cf Rom 2.11) e quer que todas as pessoas tenham vida e vida em abundância (cf Jo 10.10). Com a sua vida, Jesus nos revelou uma imagem de Deus que contradizia o que era ensinado no Império Romano. Deus não é o onipotente insensível às dores e sofrimentos dos pobres e vulneráveis, que se revelaria na pessoa do imperador romano, o único que no Império Romano poderia ser chamado de Senhor (Kyrios).

O Império Romano tinha seu próprio evangelho, a boa-nova: o anúncio de que o Império tinha conquistado novos povos, levando-lhes a “paz romana”, a adoração aos deuses do império e a confissão de que só o imperador é o Senhor. Contra esse mundo que oprimia e explorava em nome da paz, os seguidores de Jesus, aqueles que creram que Deus tinha ressuscitado a Jesus e, com isso, revelado que Deus estava com ele na cruz e não com o imperador ou no Templo, confessava que o Senhor é Jesus e não o imperador. Essa confissão significa uma profunda mudança na visão do mundo e no modo de viver. Hoje seria dizer que Deus não está presente nos palácios dos bancos ou mansões de milionários, mas nos lugares onde as pessoas mais vulneráveis, as que são exploradas e oprimidas, são crucificadas no dia a dia.

A proclamação da Palavra que leva as pessoas a essa conversão radical são palavras que motivam e estão encarnadas nas práticas e ações que testemunham o amor de Deus a todas as pessoas, especialmente as que mais sofrem. Só palavras encarnadas na vida e ações são Palavras que transformam vida das pessoas.

Por tudo isso, eu penso que a missão das igrejas de proclamar a Palavra de Deus não pode ser realizada sem testemunho do amor de Deus através de modos de viver e ações individuais e comunitárias que denunciam a falsidade do senhorio da riqueza e poder neste mundo e revelam o Senhorio de Deus-Amor que se nos revelou na vida de Jesus, aquele é o Caminho, a Verdade e a Vida.

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