A resposta à esperança dos homens

Imagem: Google

Imagem: Google

Publicado por Laion Monteiro

“Quanto ao sentido que podiam ter esse exílio e esse desejo de reunião, Rieux nada sabia. Caminhando sempre, comprimido de todos os lados, interpelado, chegava, pouco a pouco, às ruas menos apinhadas e pensava que não era importante que essas coisas tenham um sentido ou não, mas que é preciso ver apenas a resposta dada à esperança dos homens.

Ele sabia agora qual era essa resposta e compreendia-a melhor nas primeiras ruas dos subúrbios, quase desertas. Aqueles que, cientes do pouco que eram, tinham apenas desejado voltar à casa do seu amor eram por vezes recompensados. Decerto, alguns deles continuavam a caminhar na cidade, solitários, privados do ser que esperavam. Felizes ainda dos que não tinham sido duas vezes separados, como alguns que, antes da epidemia, não tinham podido construir, à primeira tentativa, o seu amor e tinham cegamente buscado, durante anos, o difícil acordo que acaba por colar um ao outro amantes inimigos. Esses tinham tido, como o próprio Rieux, a leviandade de contar com o tempo: estavam separados para sempre. Mas outros, como Rambert, que o doutor deixara nessa mesma manhã, dizendo-lhe: “Coragem, é agora que é preciso ter razão”, haviam reencontrado, sem hesitar, o ausente que tinham julgado perdido. Durante algum tempo, pelo menos, seriam felizes.

Sabiam agora que, se há qualquer coisa que se pode desejar sempre e obter algumas vezes, essa qualquer coisa é a ternura humana.

Para todos aqueles, pelo contrário, que se tinham dirigido por cima do homem a qualquer coisa que nem sequer imaginavam, não houvera resposta. Tarrou tinha parecido alcançar essa paz difícil de que falara, mas só a tinha encontrado na morte, na hora em que não podia servir-lhe para nada. Se outros, pelo contrário, que Rieux avistava nas soleiras das casas, enlaçados com todas as suas forças e olhando-se com enlevo, tinham obtido o que queriam, é porque tinham pedido a única coisa que dependia deles. E Rieux, no momento de entrar na rua de Grand e de Cottard, pensava que era justo que, vez por outra, pelo menos, a alegria viesse recompensar os que se contentam com o homem e o seu pobre e terrível amor.”

Albert Camus em A Peste

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for A resposta à esperança dos homens

Deixe o seu comentário