Jesus é rico? Uma experiência na Comissão de Direitos Humanos e Minorias

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Morgana Boostel, no Novos Diálogos

Tenho acompanhado muito de perto toda a movimentação do Congresso Nacional a respeito da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, que desde o dia 05 de março tem o Dep. Pastor Marco Feliciano como seu presidente. Sua presença e função tem sido questionada por diversos segmentos, que o acusam de racista, homofóbico, misógino, entre outras acusações. Estão acontecendo manifestações em todo o Brasil, com milhares de pessoas nas ruas e em movimentos de pressão virtual. Mas não é sobre as posturas do deputado que quero falar.

Desde a reunião de eleição do deputado à presidência da comissão, diversos manifestantes contrários a sua permanência têm comparecido às sessões plenárias para pressionar os parlamentares. Na última quarta (27/03), eu tive a oportunidade de comparecer à Câmara Federal e participar desse momento de pressão. Quando cheguei, perguntei à recepcionista onde ficava a reunião da comissão, ela me disse: “Onde tem a confusão!”; então entrei e não foi nada difícil encontrar a sala. Me deparei com um corredor lotado, que parecia briga de torcida em estádio… uma fila de seguranças engravatados no meio, de um lado defensores do “Fora Feliciano” e do outro, os do movimento “Fica Feliciano”. Havia em certos momentos um revezamento dos gritos de ordem e se ouviam provocações de ambos os lados. O grupo que defendia a permanência do deputado no cargo usava jargões como “Família brasileira unida, jamais será vencida”, “Brasil é de Jesus”; e, de repente, pra minha surpresa, surge uma frase que me incomodou muito… os manifestantes gritavam a altos pulmões: “JESUS É RICO, JESUS É RICO!”.

Não consegui refletir sobre o sentido daquela frase na manifestação. Minha cabeça viajou para muitos lugares, e parou sobre quem foi Jesus. Fiquei me perguntando se eles estavam falando daquele Jesus, ex-namorado da Madona… Porque certamente não é sobre o galileu que viveu na Palestina há mais de dois mil anos.

Aquele Jesus não viveu como o mais pobre dos homens de seu tempo. Seu pai, um artesão, certamente garantiu que sua condição não fosse paupérrima. E mesmo com essa possibilidade profissional, Jesus abriu mão disso, de sua família, do conforto do seu vilarejo, e saiu como andarilho, alimentando-se como forasteiro, vivendo entre as pessoas comuns e também entre as desprezíveis de seu tempo.

Seus ensinamentos falavam de um desapego das questões materiais, de um modo de vida que expressasse a justiça e o bem comum. Isso é muito evidente durante todo seu ministério, mas em especial no Sermão do Monte, quando propõe, por meio das bem-aventuranças, um padrão de vida desprendido e centrado no outro, na justiça, na bondade, na humildade, no amor e no cuidado. Esta é a tônica de todo o sermão, considerado a chave de todo o evangelho. Em outro momento, quando questionado sobre os ricos e o reino de Deus, Jesus responde que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus.

E então comecei a pensar o que é ser rico… que imaginário temos de uma pessoa rica em nosso tempo? Na cabeça de muitos surgirá, provavelmente, uma lista de pessoas; talvez o Eike Batista surja nesta lista; na minha ele aparece. E junto com ela, uma imagem de poder, de achar que não precisa dar satisfações de suas ações, de um lugar privilegiado, para quem o que interessa é que o seu próprio lucre aumente, e não se importa sobre quem o trator terá que passar (1). A busca de prestígio que não se importa com o outro, mas apenas com a sua vontade; que não se preocupa com os que morrem todos os dias nas ruas, com as pessoas que trabalham em condições semelhantes à escravidão para ampliar o lucro de alguns; da vida miserável de tantas famílias que não possuem uma casa para viver. Um poder que não tem limites, que nunca satisfaz e que sempre precisa subjugar alguém. É essa a cara da riqueza que eu vejo.

E associar aquele Jesus que viveu ao lado dos excluídos da sociedade, que abriu mão do conforto que poderia ter, e que teve, acima de tudo, mais respeito pela vida dos outros do que pela sua própria, não faz sentido algum.

É, talvez estivessem falando de outro Jesus e eu de fato não sabia.

Mas para ajudar a localizar o Jesus Cristo naquele lugar puxei dos meus pulmões o grito de resposta do grupo “Fora Feliciano”, que foi seguido rapidamente por tantos outros… em resposta ao “Jesus é Rico”, respondi: “VIVEU COM OS POBRES”; e essa foi a resposta final, o grito que prevaleceu, porque apesar de muita gente não se lembrar disso hoje em dia, foi em favor dos pobres que ele viveu, e foi como pobre que ele morreu!

Nota
(1) Refiro-me aos diversos processos de remoção que retiraram diversas famílias de suas casas para a construção de empreendimentos para o lucro de alguns.

dica da Isabel Dias Heringer

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