Candeia, Mano Brown, Eu e Você.

reflexão

Publicado por Marcos Almeida

Aos 41 anos, o sambista carioca Candeia ouviu seu amigo Cartola gravar os seguintes versos: “se alguém por mim perguntar / Diga que eu só vou voltar / Depois que eu me encontrar” (Preciso me encontrar – gravada por Cartola em 1976). Depois da chamada “curva da desesperança” que os psicólogos falam – aquele período de 11 aos 23 anos – é comum vir um tempo de produtividade, de criação e busca por identidade.

Não sei quando Candeia escreveu esses versos, mas é possível dizer que depois dos 23 vem um tempo de intimidade consigo. É nesse período que os compositores começam a escrever sobre este  assunto: “quem sou eu”. Essa preocupação parece nos acompanhar até uma certa idade, quando depois resolvemos falar mais sobre o que nos cerca, narrando o mundo. Nesse caso, é curioso ver um senhor de 41 anos assistindo um amigo de 68 (Cartola) cantando versos tão íntimos.

O cancioneiro popular brasileiro está repleto de confissões que mostram essa busca por identidade. Dos artistas do samba, do rock, passando pelo clube da esquina, tropicália, bossa-nova ou mangue-beat, todos eles deixaram ver nas suas obras esse aspecto da nossa jornada. Agora, pare um pouco para pensar nesta letra:

 

“ Talvez eu seja um sádico
Um anjo
Um mágico
Juiz ou réu
Um bandido do céu
Malandro ou otário
Padre sanguinário
Franco atirador se for necessário
Revolucionário
Insano
Ou marginal
Antigo e moderno
Imortal”     

(Genesis Intro, Racionais Mc’s)

 

Como ouvinte ou leitor sempre podemos escolher sobre qual aspecto da canção vamos colocar nosso foco. É interessante descobrir que a música acaba mandando recados pra gente, não só ao corpo mas à nossa razão, informando, propondo, fazendo pensar, questionando.

Nesse texto apresento para vocês esse tema da identidade que anteriormente só aparecia aqui no blog quando falávamos da brasilidade mais geral, social, de um grupo de brasileiros. Mano Brown, o líder dos Racionais, aos 27 também estava procurando se encontrar, sobrevivendo num mundo que para ele era o inferno. No meio da violência, da covardia, da ausência do Estado, entre pastores, padres e marginais, ele tentava achar uma imagem que o representasse como pessoa; talvez um anjo, um mágico … um revolucionário.

O longo e surpreendente discurso do nosso cancioneiro popular nos ajuda a identificar não apenas as realidades sociais do período específico da obra, como nas canções de protesto do Chico Buarque, Belchior ou do próprio Brown, mas possibilita um diálogo com a nossa intimidade, uma reflexão sobre a natureza humana. Isso porque toda obra de arte só existe por causa do homem e por não ser neutra, impossível ser neutra, ela perigosamente expõe nossa alma. E qual alma nunca quis saber a respeito de si? Candeia e Mano Brown são como eu e você.

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