Ser gordo ou magro: existe diferença de tratamento

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Atila Iamarino, no Papo de Homem

A vida completamente sedentária de pós-graduação me trouxe alguns problemas. Entre eles, trinta quilos. Vida de casal, comida porcaria, a comodidade de uma barraquinha a metros da minha mesa etc. Entre 2006 e 2009, fui de oitenta e alguma coisa para 110kg. Até 2012, oscilei em torno disso, sempre estive acima de 105 kg.

O peso foi ganho diariamente, aos poucos. Até com uma ponta de orgulho. Era meu “casaco de pele”, para passar o inverno sem blusa. Cada camisa ou calça nova era um número maior do que a anterior, mas nada suficiente para notar uma mudança brusca. No máximo aquela calça social de casamento, usada uma vez por ano, deixava claro que o tamanho não era mais o mesmo.

Por várias vezes tentei emagrecer. Cortei muitas besteiras, como os litros de iogurte que tomava. Mesmo o refrigerante tive que diminuir, depois que ganhei uma gastrite erosiva – outro brinde da pós. Porém, nunca perdi mais do que 2kg por vez, a muito custo, recuperados em menos de uma semana na recaída. Complicado tentar emagrecer quando o esforço para perder peso é sofrível, e o efeito se perde tão facilmente.

Acabei aceitando a nova imagem e convivendo bem com o peso. Dada minha altura, 1,80m, o peso não era tanto que atrapalhasse. A outra opção era dieta, porém não quero passar fome para o resto da vida tentando manter um peso mais baixo do que meu corpo se acomoda. Mas uma frase dita pelo meu pai, com a delicadeza de quem realmente se importa com o filho, não saia da minha cabeça:

“Você não bebe, não fuma, mas vai morrer do coração.”

A mudança de peso foi tão gradual, e aceito por mim, que não reparei em algo mais que estava acontecendo. Uma mudança de tratamento. Amigos mais próximos algumas vezes comentavam que eu estava maior, “tá ficando fortinho”, mas nada mais direto.

O problema não era o que as pessoas mais próximas pensavam. O problema era muito maior.

A diferença do gordo

Tudo caminhava nessa linha, quando resolvi fazer uma mudança alimentar que me fez emagrecer. A perda de peso foi acidental. Bem-vinda, claro, mas não intencional. Por conta de algo que li – mais sobre isso em um post futuro –, resolvi cortar o açúcar da minha dieta. Simplesmente para não morrer do coração. Resolvi que, para viver mais, precisaria para de comer açúcar e amido. Não era dieta, não era uma meta, é um objetivo de vida. Em cerca de seis meses, perdi em torno de 25 quilos.

A questão é que foi uma mudança muito rápida. Tão rápida que minha auto-imagem ainda não chegou no meu peso – ainda procuro peças GG na loja de roupas. Tão rápida, que pude perceber quanto o tratamento das pessoas tinha mudado e eu não notara.

Por onde começo?

Por onde começo?

De repente, em meses para ser mais preciso, as pessoas mudaram a maneira como me tratavam. Não falo das mulheres, não especificamente. O porteiro, o segurança do corredor, a atendente no caixa do mercado, o estranho que pede informações, o funcionário que nunca havia me dado “oi”, todos passaram a ser muito mais simpáticos. Toda a mudança que levou anos para acontecer enquanto eu engordava, da qual nem tomei conhecimento, se desfez.

Os comentários foram ainda mais reveladores. Ainda mais quando vinham de pessoas mais simples, e mais diretas: “Nossa, agora sim hein! Finalmente se livrou daquilo tudo!”, “Poxa, tomou vergonha na cara!”, “Aê, agora tá se cuidando.”

Foi como se meu caráter tivesse mudado. O mais engraçado é que eu simplesmente tinha deixado de comer açúcar. Não tinha “tomado vergonha” ou passado a “comer como uma pessoa normal”, como sugeriam. Mas é justamente assim que as pessoas encaram.

Não é algo consciente, não é uma escolha. É uma postura. Uma postura que começa antes mesmo de qualquer contato com o gordo. A grande maioria das pessoas encara gordos como pessoas que escolheram chegar nesse peso. Pessoas que querem comer muito, que “são relaxadas” assim. E a lista das consequências que isso pode ter é longa.

Atributos negativos são mais associados à pessoas obesas, especialmente quando julgadas por magros; a mesma pessoa em uma versão mais gorda é deixada de lado em seleções de emprego, e tende a receber menor salário – efeito ainda mais acentuado entre os que valorizam exercícios, como estudantes de educação física.

Então, neste texto desabafo, deixo dois conselhos. Se você não é gordo, tenha noção de que o peso só define isso, o quanto essa pessoa pesa. Aos gordos, tenham consciência de que seu peso afeta negativamente muita coisa, é que isso é fruto de discriminação, e não resultado de caráter. Discriminação que, nas palavras de uma revisão sobre o tema, está presente do colégio e do trabalho ao julgamento de um caso.

Nota do editor: As imagens que o autor enviou originalmente, por acaso, mostravam a maior parte dos insultos e piadinhas com gordos em memes direcionados a mulheres. Deixei a última, em especial, pois me chamou muito a atenção o fato de que realmente não é fácil encontrar estas imagens com foco em homens e gostaria de levantar a bola se vocês acham que este preconceito também não tem uma boa dose de machismo.

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