Um relato confessional sobre a maioridade penal

Eu no meu aniversário de 16 anos

Eu no meu aniversário de 16 anos

Daniel Oshiro, no Papo de Homem

Antes de mais nada, tenho 25 anos e, desses, 17 eu morei no Japão, na região de Tokai. Mas minha opinião é formada pelo que eu passei e pelo que vi meus amigos passarem. Portanto, não vou abordar a constituição, violência no Brasil e outras coisas. É apenas um ponto de vista sobre a situação.

A terceira vez que fui para o Japão foi em 1996. Cheguei lá com 8 anos e morava na cidade de Shimizu. Cresci como quase todas as crianças brasileiras de lá. Meus pais normalmente trabalhavam das 8 hs às 20 hs, por isso, só os via na parte da noite ou finais de semana. Minha mãe deixava a comida pronta pra eu esquentar no microondas e, durante o dia, eu me divertia passeando de bicicleta pela cidade, pois não ia para pra escola.

Aos doze, ganhei um computador e Internet. Com quatorze, fui até a cidade de Hamamatsu pra sair com alguns amigos que havia conhecido online. Desde aquele dia, Hamamatsu virou minha casa e os amigos que fiz lá viraram minha família.

A maioria deles tinha a mesma idade que eu, entre 13 e 16 anos. Mesmo com essa diferença de idade, sempre fomos muito unidos pois, como éramos brasileiros, não tínhamos muito contato com japoneses. Apesar do comportamento de “gangue”, nunca realmente achamos isso, pelo menos não eu.

Logo na segunda ou terceira vez que eu estava em Hamamatsu, um amigo me ensinou a roubar motos de 50cc (conhecidas como scooter ou vespas). Era simples fazer ligação direta e, como no Japão pode-se dirigir motos até 400cc com 16 anos, não chamava muita atenção andar de moto por lá, apesar da idade. Depois vi amigos roubando bebidas no mercado, batendo carteira, etc. Não acho realmente que nós fazíamos isso por necessidade, mas para nossa diversão. Isso nos fazia “invencíveis”.

Depois disso vieram as drogas. Alguns amigos fumavam maconha, outros cheiravam cristal. Nunca me ofereceram, mas era normal a molecada experimentar por curiosidade ou pra fazer parte do grupo.

Foi nesse período que meus amigos começaram a ser presos. A maioria pegava apenas 3 meses no reformatório, pois eram réus primários. Saíam e, algum tempo depois, voltavam pelo mesmo ou outro motivo. Por causa disso, começou a desconfiança em casa. Meus pais perguntavam se eu usava drogas, se eu roubava. Um dia meu pai me disse:

“Quando você for preso, eu nem vou te visitar.”

“Quando você for preso”. Isso machucou um pouco.

Com o tempo eu comecei a perceber que eu estava por mim mesmo na rua. Tinha que pensar sozinho e decidir meu caminho. Vi que, se eu usasse cristal, iria ficar viciado como alguns dos meus amigos. Vi que, se eu roubasse som de carro, eu seria preso. Por isso, minhas transgressões sempre foram menores. Ainda mais quando um ou outro amigo saía do reformatório e falava:

“Dobrado, fica de boa. Os gambé têm um monte de foto sua lá. Ficaram perguntando se tu faz algo de errado, mas eu falei que tu é de boa.”

Comecei a andar com um pessoal que não fazia tanta coisa errada e, hoje, posso contar nos dedos quais dos meus amigos nunca foram presos. Da última vez que pensei nisso, contando comigo, apenas 4 pessoas que andavam na minha turma na época nunca foram presas. No máximo uma passagem pela delegacia por bagunça ou andar de skate em lugar proibido.

Eu era um dos únicos a andar de patins

Eu era um dos únicos a andar de patins

Hoje eu posso dizer que tive um dos melhores “futuros” entre meus amigos. Talvez minhas escolhas tenham sido melhores na época. Mas isso foi graças a…É. Esse é exatamente esse o ponto que eu quero chegar.

Um dia minha irmã e meu irmão chegaram e me chamaram pra conversar sobre minha educação. Eu tinha uns 11 anos na época.

Eu não falava obrigado, não respeitava os mais velhos, mentia muito, não dava valor pro dinheiro entre outras coisas. Foram horas madrugada dentro falando sobre tudo isso. Depois daquele dia, eu vi que estava errado. Anos depois, eu me perguntei:

“Por que meus pais nunca me explicaram isso?”

Meus pais nunca me falaram o que as drogas causavam. No máximo, era um “se fosse bom, não chamaria droga”. Chamavam todos meus amigos de bandidos e diziam que eu seria preso, mesmo sem conhecer nenhum deles.

Lembro um dia em que levei dois amigos em casa, pra dormir lá porque íamos fazer uma viagem longa e minha casa era caminho. Meu pai comentou com meu irmão, “vou até esconder a carteira, vai que eles me roubam”. Meu irmão me avisou disso e fui fazer a viagem triste. Nunca mais levei nenhum amigo em casa quando meus pais estavam por lá.

Comecei a pensar: “por que dar ouvido aos meus pais?”, pois eram meus amigos que me ajudavam nas piores horas. Eram meus amigos estavam sempre ao meu lado. Eram meus amigos que me davam conselhos. Depois que saí de casa aos dezesseis e comecei a trabalhar, a distância entre meus pais e eu ficou ainda maior.

Enquanto meus amigos e eu ficávamos mais próximos, descobríamos que nossos pais agiam (quase) todos da mesma forma. A mesma falta de comunicação.

Por isso, quando penso em diminuir a maioridade penal, acho besteira. Essas crianças que cometem crimes — em sua maioria — são inocentes, ignorantes, sem responsabilidade. As que cometem por prazer sofrem de alguma psicopatia, como qualquer outra pessoa, e precisa de tratamento.

Queremos trancar as crianças em prisões, para esconder os erros que os pais delas cometeram? E depois que elas saírem? Um garoto vai preso aos 16, sai da cadeia aos 18 levando na testa o título de “ex-presidiário”, sem nem mesmo ter o ensino médio. Ele vai pra rua procurar emprego onde? Mesmo se conseguir, se ele tiver um filho, como ele irá educar para que o filho não siga o mesmo caminho?

Assim?

Assim?

Claro, crianças e jovens devem responder pelo seus crimes mas, se o governo mal consegue deixá-las na escola, vão ter condições de educá-las na prisão?

É a mesma coisa que cobrir o sofá sujo com um lençol. A sujeira vai continuar lá e aumentar cada dia mais. E você, acha que devem prender nossas crianças ou tentar educá-las?

Lembrando que essa educação vem de casa, não a escola.

Por isso, não podemos culpar o governo, mas sim nos culpar.

Obs: Daniel Oshiro é fundador do grupo social Arteiros, que atuou na região de Tokai em 2010, em parceria com a HICE, como uma fonte de informação e estudos para jovens estrangeiros. Voltou ao Brasil em 2011 para estudar e pensa em voltar ao Japão para continuar o projeto.

O grupo também foi organizador do Free Hugs de Natal, que virou tradição em Nagoya e mesmo sem atuação do Arteiros hoje, a tradição continua.

Alguns links sobre o assunto:
Grupo Arteiros organiza palestra sobre drogas
Arteiros- Pensando no Amanhã

Comentários

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1 Comentário

  1. fredmorsan disse:

    Lendo o relato do Daniel, percebo que, como todos nós, ele quer colocar as responsabilidades de seus atos em outras pessoas. Entendo a frustação de um adolescente em ter pouco (ou quase nenhum) diálogo com seus pais. Mas, mesmo assim, percebemos que o Daniel sabia exatamente o que estava fazendo e que sabia o que era correto/legal ou errado/ilegal. Quem será que ensinou isso a ele? Não tenho como afirmar, mas meu palpite é de que foram os PAIS dele.

    Os “amigos” dele foram “presos” e 3 meses depois, quando “libertos”, continuaram na prática dos delitos. E estamos falando do Japão, com sua cultura e educação de alta qualidade. Será mesmo que eles, “menores” de idade, não tinham a mínima ideia do que estavam fazendo e a consequência de seus atos? E o instituto japonês, será que é como a nossa Fundação CASA que, infelizmente, não é capaz de recuperar o jovem infrator?

    Mais uma vez só posso dar um palpite: creio que o que aprendemos sobre o certo (legal) e o errado (ilegal) aprendemos com nossos pais, ainda durante nossa infância, através do exemplo (mais do que com palavras). Acho pouco provável que estas atitudes tenham sido aprendidas com os pais (ele mesmo nos diz que começou nessa prática com seus “amigos”).

    Confesso que não consigo entender como temos capacidade de termos relacionamentos sexuais aos 14 anos, direito ao voto aos 16 ,mas só temos “consciência” de nossos atos aos 18.

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