Quando a razão perde a razão

“O que é finito para a razão, é nulo para o coração” (Feuerbach)

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Bruno Barak, no E o Diabo a 4 Blog

A vida sempre me angustiou. As perguntas, as dúvidas e pensamentos sobre ela ininterruptamente me assaltam a paz, me fazem transbordar melancolia e ânsia por respostas que podem nem existir. O sono é esvaído por ideias e a escuridão do quarto se transforma em cenário de uma existência entre quatro paredes.

Em meio às trouxas de roupas no cabide, nasce a imagem dos trançados da alma, de seus nós, do meu eu despido, sendo observado por meus próprios olhos. Grita a figura em silêncio, pintado com as foscas cores em um quadro branco na paisagem solitária de um norte sem vida.

Em meio às buscas, me sinto perdido. O que procuro parece estar escondido além do fundo da minha alma. O que acho perde o sentido dias depois. O ferrolho do porão está enferrujado, tanto tempo sem ser usado, tantas passagens escondidas, esquecidas. Tantos sentimentos empoeirados, palavras não ditas e lágrimas que deveriam ter transbordado.

O ser humano é medroso para dor, tenta anestesiar-se contra ela ou ambiciona não a encontrar pelos caminhos trilhados. Temer a dor é aterrorizar-se com a vida. Assim, é impossível ser feliz. Sem a dor só resta a infelicidade.

Por isso o homem deseja o paraíso, o mundo eterno, lá no além, longe da agonia, do sofrimento. O seu refúgio.  Sem conhecer a angústia também seria impossível encontrar-se no paraíso. Sem os momentos de aflição, a paz não reinaria em breves estações.

O paraíso está em nós, envolto nos lençóis da alma. Contemplando a dor, na espera do seu adormecimento, para então reinar em nosso sonho de paz. O stárietz Zossima – personagem de ‘Os Irmãos Karamázov’ de Fíódor Dostoiévski – relata a visita de um desconhecido senhor em sua juventude que afirmou:

“O paraíso está oculto em cada um de nós, agora mesmo está oculto aqui dentro de mim, e se amanhã eu quiser ele começará efetivamente para mim e já pelo resto de minha vida.”

O sentimento é objeto da nossa essência. O ser humano não conseguiria viver sem esse elemento, sem o sentir. A razão também compõe nosso interior e racionalmente sentimos a dor, por isso, o nosso medo. Porém, o paraíso que está oculto em nós não é notado de forma racional, pois ela, a racionalidade, o limita. A razão é um fator limitante da paz humana. Por isso, desejamos o transcendente, a infinitude, o incompreensível.

Abraço-me com Feuerbach quando este afirma: “O que é finito para a razão, é nulo para o coração”.

Será que um dia conseguiremos despertar esse paraíso infinito aos olhos da razão? E, abraçados com a dor, vencer o medo da não existência do céu divino?

Grito para ti, Raskólnikov, o que fazer?

Primus in orbe deos fecit timor.

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