Humanidade precisa do Deus que se autoesvazia, diz filósofo

O mundo de múltiplas possibilidades religiosas e conexões sincretistas que hoje se apresenta precisa dessa ideia maluca do Deus que se autoesvazia. Ela inspira cristãos a conviverem com a pluralidade e a diversidade, afirmou Charles Taylor.

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Publicado no Instituto Humanas Unisinos

A reportagem é de Edelberto Behs e publicada pela Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação – ALC, 29-04-2013.

“Vivemos na fronteira” das convicções religiosas e é preciso conviver num mundo plural,  admitiu o filósofo canadense, que participou de conversatório com religiosos, teólogos, jornalistas e cientistas sociais reunidos na sexta-feira, 26, no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos.

De adolescente confuso, na época do Concílio Vaticano II, Taylor  voltou a crer na fé católica inspirado pelas leituras dos teólogos Yves Congar e Henri de Lubac. “Hoje sou um octogenário confuso”, definiu-se, entre risos da plateia. Taylor, 81 anos, biografou três tipos de cristãos.

A primeira biografia diz respeito às pessoas que não perdem a fé, vêm de uma família cristã e creem assim como seus avós e pais acreditaram na mensagem evangélica. No segundo grupo estão aqueles que ainda creem, enquanto o terceiro grupo passou por um hiato, mas voltou a crer.

Taylor frisou a distinção de “ainda crer” e “crer novamente“. Cristãos do terceiro grupo descobriram nova caminhada, uma nova maneira de vivenciar a fé, diferente daquela professada por seus antepassados, e se entendem envolvidos numa busca constante.

Cristãos do primeiro grupo sentem-se ameaçados pelo processo de secularização e assumem uma postura defensiva e não entendem esse mundo de múltiplas possibilidades e conexões.

“É um erro pastoral agir dessa forma. Devemos conviver com esse tipo de pluralismo”, defendeu. O filósofo canadense aceita que as novas mídias ajudam a construir um mundo secular, mas elas apenas incrementam a sociabilidade difusa, não são cruciais e responsáveis pela constituição de uma nova ambiência que transforma a religião.

As novas tecnologias que marcam a sociedade da informação intensificam o que já vinha acontecendo, disse. A busca difusa teve início na sociedade protestante dos Estados Unidos. Pessoas buscavam respostas às suas perguntas fora dos limites do cristianismo, no budismo, no hinduísmo, “o que vem num crescendo na nossa época”, admitiu.

Ele “detestaria” ser papa diante de decisões importantes, como adoção do ministério feminino na Igreja Católica. “Nossos netos e bisnetos vão olhar para trás e perguntar – ‘o quê, mulheres não podiam ser ministras?’ A gente não pode ficar furioso e encarar isso com raiva”, admoestou, mas defendeu: “É preciso romper o vínculo entre sacerdócio e gênero.”

Taylor acredita que o cristianismo ainda tem um papel relevante na sociedade, mesmo que cristãos não saibam bem como conviver com a diversidade. O mundo moderno, disse, pode ser tudo, menos relativista. “Há malucos fundamentalistas por todo lado. Quando a Igreja fala a partir do Evangelho, ela sempre cativa pessoas”, afirmou.

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