O texto censurado por Átila Brandão

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Em texto publicado no site da CartaCapital, Leandro Fortes conta que o bispo Átila Brandão registrou queixa-crime e abriu duas ações judiciais contra o ex-deputado e jornalista Emiliano José.

O motivo da fúria do evangélico – figurinha carimbada durante muito tempo em eventos da Adhonep (Associação dos Homens de Negócio do Evangelho) – é um texto publicado por Emiliano José e reproduzido em vários sites e blogs.

Átila  Brandão pediu uma indenização de 2 milhões de reais e a retirada do artigo do site do ex-deputado, com multa diária de 10 mil reais, no caso de desobediência. Segundo o colunista da CartaCapital, “em 13 de maio, a juíza Marielza Brandão Franco, em decisão liminar, mandou retirar o texto da página de José e reduziu a multa diária a 200 reais”.

Diz-se do homônimo famosão do pastor que “debaixo dos cascos de seu cavalo, nunca mais cresce a grama”. Que o evangélico companheiro de partido de Marco F* releia cada uma das ideias e ideais do Príncipe da Paz (a quem diz servir), para que sob seus pés floresça a verdade e a justiça. Censura (e tortura), nunca mais.

A premonição de Yaiá

Publicado no Bahia Alerta

…Um calafrio, sensação estranha. Tempos dolorosos. Não vivera iguais nos seus quase cinquenta anos. Filhos presos, tantos amigos presos. Theodomiro, Paulo, quem mais? Tantos. Penso na crueldade dessa gente, quanta maldade. A sensação estranha persistia, como um aviso. Seria de Deus? Bons, os meus filhos eram bons. Marquinhos já solto, na minha memória era setembro de 1971.

Renato Afonso, no Quartel dos Dendezeiros, transferido do Rio de Janeiro, onde fora preso em fevereiro e perversamente torturado. O corpo já não estava tão estropiado. Não fosse meu marido Orlando, e não estaria vivo. Conseguiu fazer chegar o pedido a dom Eugênio Sales, que não matassem o filho. Dom Eugênio intercedeu, e o salvou. No Rio, passou por coisas horríveis, tanta tortura que eu nem acreditava que existisse. Tudo me vinha à mente em flashes rápidos, numa velocidade absurda. No meio das lembranças, aquela sensação estranha.

Fui muitas vezes aos Dendezeiros, levava bolo pros meninos, dava um pedaço pro coronel Ghetsemany Galdino, que gostava muito do bolo de chocolate. Comandava o quartel. Eu já me afeiçoara aos outros meninos, Tibério, Roriz, também presos políticos. Nunca gostei de ouvir meus filhos serem chamados de terroristas, nem os amigos deles. Por que tudo aquilo vinha assim, aos borbotões, lembranças de tanta coisa daqueles ásperos tempos? E tudo era acompanhado daquela sensação incômoda, como se algo a chamasse, como se alguma coisa ruim estivesse acontecendo.

E de repente, uma iluminação, e a certeza: Renato sofria, precisava dela. Como se ouvisse a voz enérgica de um anjo: que não perdesse tempo, seu filho corre perigo. Estava longe, morava em Nazaré, na Cidade Alta, longe dos Dendezeiros, Cidade Baixa. Orlando não estava em casa. Peguei um táxi, segui pro quartel. À porta, ninguém me barrou, pois, já era personagem comum. Parecia que o anjo me guiava. Dirigi-me a passos rápidos para uma sala onde tinha certeza que Renato estava. Não sabia como tinha certeza. Tinha.

Um sentinela à porta. Quero ver meu filho, quero ver meu filho, sei que ele está aí. Calma, minha senhora. Calma, nada. Preciso vê-lo. O soldado parecia assustado, olhava pra mim, indeciso. Eu ali segura de meus direitos de mãe. Pediu que eu esperasse, iria entrar, voltaria, me traria uma resposta. O sentinela entrou, voltou, e disse está tudo bem com seu filho, nada de mal vai acontecer com ele. Mas, ele está aí? Está. Então quero vê-lo. Não pode, mas, eu garanto que está tudo bem com ele.

Me acalmei um pouco. O anjo parecia aquiescer, mas me disse não arrede pé.
E eu soube depois: dentro da sala, Renato já havia apanhado bastante, socos, pontapés, perguntas aos gritos. Após o Rio de Janeiro, transferido para a Bahia por interferência de Orlando, não sofrera mais torturas. Mas, naquele dia, um sentinela veio buscá-lo. Renato perguntou por que estava sendo retirado da cela. O soldado não sabia. Levado para uma sala, logo depois viu entrar uma equipe de torturadores chefiada por Átila Brandão, que conhecera como agente infiltrado desde a Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, onde estudaram juntos em 1968.

Átila comandou com ferocidade e gosto a pancadaria inicial, que seria sucedida pelo pau de arara e pelo choque elétrico, equipamentos que a equipe trouxera. Queria informações sobre a passagem dele pelo Paraná, onde estivera como dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Como no Rio, Renato, fiel aos seus amigos, se recusava a dizer qualquer coisa.

Soube que o soldado entrou, cochichou no ouvido de Átila, e ele, irritado, mandou parar tudo, juntar o pau de arara e o resto, e se retirou. Cessou a tortura. Quando Renato saiu da sala, eu o abracei, perguntei-lhe se estava tudo bem, ele disse sim, mas pediu que avisasse o advogado Jaime Guimarães – queriam voltar a torturá-lo. Fiz o que Renato pediu. Não voltou a ser torturado.

Maria Helena Rocha Afonso de Carvalho partiu, Yaiá, e antes de seguir para o infinito me deu esse depoimento. Deixa saudades imensas, e o exemplo de uma vida cheia de espiritualidade, fé e coragem. Viveu mais de 90 anos.

Atualização 13h

Carlos Brickmann escreveu sobre o assunto no Observatório da Imprensa:

Bahia, censura

A juíza da 29ª Vara dos Feitos Cíveis de Salvador, Mariela Brandão, determinou que o jornalista Emiliano José retire de seu portal informativo a matéria “A premonição de Yayá”, publicado originalmente no jornal A Tarde. Trata-se de uma entrevista com Maria Helena Carvalho, dona Yayá, que acusa de torturador o ex-policial, hoje pastor da Igreja Batista Caminho das Árvores, Átila Brandão. Segundo Yayá, Brandão torturou seu filho Renato Afonso Carvalho, em 1971, no Quartel dos Dendezeiros. Renato Afonso, hoje professor, confirmou as denúncias feitas por sua mãe.

Três casos diferentes, três casos iguais: é a censura que, embora proibida pela Constituição, volta a mostrar sua feia face. Junte-se a isso a guerra que alguns setores governistas movem contra a imprensa, chegando a regozijar-se quando algum veículo de comunicação fecha as portas ou demite funcionários, e temos um quadro perigoso. Como dizia Thomas Jefferson, um dos líderes da Revolução americana e terceiro presidente dos Estados Unidos, “Se coubesse a mim decidir entre um governo sem imprensa ou uma imprensa sem governo, eu não hesitaria um momento em escolher a segunda alternativa”.

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O jornalista Emiliano José tem recebido apoio de muita gente:

Abaixo-assinado apoia jornalista acusado de difamação · Global Voices em Português

Um abaixo-assinado circula no estado da Bahia, Brasil, em apoio ao jornalista e professor Emiliano José, acusado de calúnia pelo pastor Átila Brandão. José relatou a participação do pastor em torturas contra estudantes na época da ditadura militar no país na imprensa e em site pessoal. A Justiça determinou a retirada do texto do site de José, já reproduzido na internet, e direito de resposta ao pastor.

dica do Tom Fernandes

Comentários

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2 Comentários

  1. Joel Emídio disse:

    É necessário que se diga que; o referido acima como “torturador” não era Bispo na época que militança no exército, porém vocês frisam mais sua condição hoje eclesiástica do que a sua condição como militar na época. Logo isto dar margem a se pensar que vosso ódio é contra a igreja e não contra o ato isolado de um homem.
    Até agora não vi nenhuma prova substancial. Ademais, vocês não podem reclamar da defesa, pois toda pessoa tem direito a ela. Me admira muito um jornalista e professor divulgando largamente ofensas de cunho pessoal, e após se ter passado tanto tempo? É também lamentável que algumas pessoas comentem de maneira irresponsável o que não sabem nem têm provas.
    Verdadeiramente estes que aqui se passam por inteligentes infelizmente mostram quanto incompetentes são.

  2. silvio roberto fraga lima disse:

    existem homens fracos, que em nome de Deus torturam, matam e deixam sequelas para vida toda. Infelizmente ainda achou guarida em uma juiza incompetente e alheia a historia politica do Brasil. O inferno de ontem prega o anjo de hoje.

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