A fada madrinha de Marina Silva

Herdeira do Itaú, Maria Alice Setubal capta recursos para o novo partido da ambientalista, em processo de coleta de assinaturas

Maria Alice Setubal. “Marina (Silva) fala que nós duas viramos amigas porque fomos contra os nossos destinos” (foto: Eliária Andrade)

Maria Alice Setubal. “Marina (Silva) fala que nós duas viramos amigas porque fomos contra os nossos destinos” (foto: Eliária Andrade)

Mariana Timóteo da Costa, em O Globo

SÃO PAULO – Reservada, fala pausada, estatura alta (1,76 metro) e elegante, Maria Alice Setubal também é conhecida por Neca, de “boneca”. O apelido foi dado pelo pai, o falecido dono do Banco Itaú, Olavo Setubal, encantado pela única filha mulher, nascida em 1951, a segunda de outros seis, todos homens. Maria Alice não nega suas origens de herdeira — a fortuna da família é avaliada em mais de R$ 5 bilhões —, mas procura ir além disso. Dirige uma fundação, a Tide Setubal, e fundou o Centro de Pesquisa para Educação e Cultura (Cenpec), entidade de referência no setor. Doutora em Psicologia da Educação pela PUC de São Paulo, ela também administra, ao lado do marido, um hotel-fazenda no interior paulista chamado Capoava (diárias a partir de R$ 1 mil). Atualmente, tem se dedicado a ajudar a ex-senadora Marina Silva a construir seu novo partido: a Rede Sustentabilidade.

— A Marina (Silva) fala que nós duas viramos amigas porque fomos contra os nossos destinos. Porque era para a Marina ser uma moça pobre do seringal do Acre e eu, uma moça rica da alta sociedade paulistana. Temos uma amizade muito bonita — diz.

A união improvável gerou frutos políticos: Maria Alice é articuladora essencial — cuida da captação de recursos —, uma espécie de fada madrinha, da Rede Sustentabilidade. O movimento está em processo de recolher as 500 mil assinaturas necessárias para se tornar um partido, o que deve ser concluído na próxima semana. Ela coloca ao dispor da amiga suas condições de intelectual e articuladora de posses e amigos importantes. O objetivo parece claro: lançar a candidatura de Marina à Presidência no ano que vem, investindo nos insatisfeitos com “este atual modelo de país, que bateu num teto”, comenta a empresária.

Garantindo ter doado somente como pessoa física, “nada muito significante”, para a criação da Rede, Maria Alice promove encontros e eventos para Marina. São desde cafés da manhã com empresários e outros interessados, passando pela venda de camisetas e produção de eventos, como um recente show em São Paulo de Adriana Calcanhotto e Nando Reis.

— Depois que o partido se estabelecer, vamos mobilizar doações via internet. A ideia é expandir e elaborar minucioso plano de capacitação de recursos — adianta Maria Alice, que diz acreditar que a coleta de assinaturas seja concluída na próxima semana.

O prazo para o trâmite no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é setembro. Segundo Maria Alice, as assinaturas ainda precisarão ser validadas e o material, enviado pelos Correios:

— Existe toda uma burocracia a seguir. A política é uma adrenalina, é muito bom de fazer quando você acredita numa pessoa e num projeto.

Maria Alice e Marina se conheceram em 2007, e a amizade cresceu às vésperas da campanha presidencial de 2010, quando o cineasta Fernando Meirelles convidou a empresária para participar de um vídeo em apoio a Marina. Ela acompanhou a então candidata do Partido Verde (PV) em viagens pelo Brasil, fez doações para a campanha, elaborou um plano de governo na área de Educação e disse ter ficado cada vez mais “impressionada com o carisma e o carinho que Marina desperta”. Em abril último, as duas estiveram em Paris. Encontraram-se com intelectuais, empresários e políticos.

Para Maria Alice, a maior parte das lideranças do Brasil e do mundo não enxerga a “horizontalidade da política”.

— A mesma coisa acontece com a Educação. Assim como a construção do conhecimento hoje é colaborativa, na política ela também deve ser. O nosso modelo político é um modelo do século XIX e não se adequa às condições do mundo atual. É corajoso tentar fazer alguma coisa, mesmo sem reforma política nenhuma.

A herdeira do Itaú frisa que “uma coisa é ela com a Rede e com Marina; outra coisa é ela com sua fundação e o Cenpec (referência nacional na produção de material didático, formação de professores e avaliação das escolas); e outra é o banco”.

O Itaú doou, segundo informações da época, R$ 1 milhão para a campanha de Marina em 2010, e a própria Maria Alice já admitiu que o banco pode voltar a participar em 2014, embora ainda seja cedo para qualquer definição.

marina diz que amiga virou militante da rede

Planos para o Brasil são o que aparentemente unem esta integrante da alta sociedade paulistana — mãe de três filhos e avó de dois — e a filha de seringueiros que virou senadora, ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula e presidenciável que obteve 20 milhões de votos na última eleição. Marina retribui os elogios à amiga.

— Somos duas pessoas com trajetórias em contextos diferentes, cujo ponto comum para a aproximação foi a Educação. O que nos levou a uma profunda amizade, compartilhando ideias e projetos, inclusive no espaço da política. Maria Alice agora é militante da Rede Sustentabilidade — afirma Marina Silva.

Maria Alice diz que a amiga “também vê como questões” eventuais restrições a uma candidatura sua, que passam por temas como religião. Será que Marina conseguiria separar o fato de ser evangélica de um Estado laico?

— Ela sempre defendeu o Estado laico. Marina nunca misturou sua fé, algo muito pessoal, com política; ao contrário de muitos outros que estão por aí — responde a empresária, para quem a amiga, se for mesmo candidata em 2014, também precisará “ter em torno dela pessoas que traduzam sua visão de estadista em políticas concretas, em implementação, que ela terá que mostrar”.

dica do Carlos Laurindo

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