Brasileiro no MIT ensina teoria de matemática para arrumar namorada

Pedro Santana ganhou fama com ‘equação romântica’ em vídeo na web.
Segundo ele, é possível calcular as chances de sucesso de uma paquera.

Pedro Santana explica, em vídeo, a aplicação da Teoria Bayesiana à prática dos relacionamentos amorosos (Foto: Reprodução/YouTube/Geovany Borges)

Pedro Santana explica, em vídeo, a aplicação da Teoria Bayesiana à prática dos relacionamentos amorosos (Foto: Reprodução/YouTube/Geovany Borges)

Ana Carolina Moreno, no G1

Uma teoria matemática que o engenheiro brasileiro Pedro Santana usa de brincadeira desde que entrou na faculdade virou, neste ano, um serviço de utilidade pública para pessoas tímidas decidirem quando vale a pena chamar alguém para um encontro romântico. O estudante de doutorado do Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, disse ao G1 que, perto do Dia dos Namorados no Hemisfério Norte (comemorado em 14 de fevereiro), aplicou a Teoria Bayesiana para convencer um colega americano a chamar uma garota para sair. Segundo ele, os cálculos deram certo. Seu ex-professor gravou a explicação em um vídeo para mostrar aos alunos no Brasil e, depois de publicá-lo no YouTube, o ensinamento já foi visto milhares de vezes (assista ao vídeo).

“Acho que eles ainda estão saindo juntos, mas não sei se estão namorando. Ele anda bem feliz, e de vez em quando comenta sobre ela”, afirmou o estudante brasileiro sobre o amigo inseguro que inspirou o vídeo.

“Sempre tive essa coisa ‘nerd’ de tentar usar as coisas que aprendia com matemática para ver se dava certo com relacionamentos humanos, e na verdade tenho que admitir que dá.”

Pedro, que se formou na graduação e no mestrado pela Universidade de Brasília (UnB), atualmente faz seu doutorado no MIT com uma bolsa do governo americano.

Segundo Santana, tomar decisões sobre relacionamentos interpessoais usando conhecimentos adquiridos nas aulas de matemática é apenas uma brincadeira eficaz, mas não faz parte de suas pesquisas acadêmicas. A tese que ele desenvolve no doutorado é na área de robótica, e envolve “algoritmos que permitem a tomada de decisão em ambientes incertos de maneira segura”.

Ele considera sua pesquisa no MIT “infinitamente mais chata” que a teoria que o deixou famoso entre engenheiros brasileiros, e garante que sua estratégia na vida amorosa se tornou pública sem querer, já que ele só foi avisado sobre a publicação do vídeo depois que ele estava na internet.

Hoje, porém, ele vê a brincadeira como uma forma de utilidade pública. “Muita gente acha que engenheiro não sabe se relacionar com pessoas. O engenheiro é pessoa muito preparada, e as mulheres são uma área de pesquisa muito interessante, vale a pena se esforçar bastante”, recomenda.

Calculando as chances de rejeição
A Teoria Bayesiana é ensinada, geralmente, para estudantes no nível da graduação, em aulas de probabilidade. Na sala de aula, porém, Santana explica que os exemplos dos professores sempre são aplicados a objetos como robôs, motores ou aviões. “Ninguém enxerga que, se você pegar o modelo que aprendeu na aula e aplicar no relacionamento humano, ele funciona.”

Para quem quer experimentar a fórmula, ele explica que, antes de aplicar a equação, é preciso definir duas hipóteses (H1, a de que o convite será aceito, e H0, a de que ele será rejeitado) e quatro custos, calculados em diferentes cenários hipotéticos.

Os custos determinam a intensidade do medo que alguém tem de convidar outra pessoa para sair e ser rejeitado. (Veja ao lado os custos definidos pelo amigo que usou a teoria na tomada de decisão.)

C é o custo, i é a hipótese que o “pesquisador” considera mais provável e j é o cenário real. O valor zero representa a hipótese da rejeição; o 1, a da reciprocidade.

Se o interessado não tem medo de ser rejeitado, e prefere aproveitar a oportunidade em vez de não arriscar, então o “custo” do convite é baixo (às vezes até zero). Se ele for mais introvertido, o valor de “levar o toco”, na gíria usada por Santana, acaba sendo maior.

Com esses números em mãos, a equação conhecida como teste de hipótese Bayesiano é usada para definir o que é maior: a hipótese de reciprocidade ou a de rejeição (veja ao lado). O sinal da equação mostra que, se o cálculo à esquerda é maior que o da direita, então a H1 é verdadeira e Santana recomenda que o interessado vá à luta.

De um lado são analisadas as probabilidades de que os sinais enviados pelo “objeto da pesquisa” durante as interações com o “pesquisador” se aproximem mais de uma ou de outra hipótese. Do outro, todos os custos são colocados na balança, além das probabilidades baseadas no comportamento prévio do alvo desejado.

No fim, o cálculo se reduz a uma simples razão. No caso do amigo americano de Santana, que tinha medo de chamar a garota para sair e fracassar, o custo de não fazer nada, por achar que ela o rejeitaria, foi zero; o de arriscar o convite e ele ser aceito foi -10, o menor de todos (nesse caso, não é um custo, mas uma recompensa). O custo de não fazer nada, sendo que, na realidade, a jovem também tinha interesse, é o maior de todos: 10. Já o custo de arriscar o convite e ser rejeitado foi 5.

O americando também presumiu que era duas vezes mais provável que, julgando pelos sinais da garota, ela também estivesse interessada. Portanto, usando o teste de hipótese, a equação foi 2 > 1/4 (dois é maior que um quarto), ou, como o brasileiro explicou, um “grande sucesso”. Para acompanhar o desenrolar dos cálculos, assista ao vídeo na web.

E para quem afirma que os seres humanos são mais subjetivos que as máquinas, e não podem ser reduzidos a uma simples equação, o doutorando tem uma resposta pronta. “Tudo na engenharia é pegar problema complicado e simplificá-lo até ele ficar tratável. O complicado é você encontrar um modelo de como a pessoa se comporta.”

Pedro e a namorada Luiza, em uma das visitas dela ao MIT (Foto: Arquivo pessoal/Pedro Santana)

Pedro e a namorada Luiza, em uma das visitas dela ao MIT (Foto: Arquivo pessoal/Pedro Santana)

Cobaia da própria teoria
O doutorando se mudou para os EUA em 2011, mas em agosto deste ano completa três anos de namoro com Luiza, uma brasileira que vive no Distrito Federal, e garante que deve o relacionamento à matemática aplicada à própria vida amorosa. Ele diz que levou seis meses até reunir evidências suficientes de que sua namorada atual, que conheceu em um curso de francês, aceitaria um convite para um encontro com ele.

“Ela foi um caso especial, demorou um tempo bom. Eu dava carona para ela, mas ela era muito fechada, então aquele negócio dos sinais ela não me dava nenhum. Em um dia eu fazia qualquer coisa, ela era totalmente seca, no outro dia era super simpática. Aí eu ficava meio perdido.”

Nesse caso, Santana sugere aos praticantes da matemática romântica para não demorarem demais: “Tem o fator de tempo: se você enrolar demais, a menina fica de saco cheio e parte para outra.”

Munido de coragem e meses de dados, ele finalmente se abriu para a garota, e foi bem sucedido. Mesmo depois de fisgá-la, Pedro não abandonou a matemática. Segundo o estudante, ela também pode ser usada no dia-a-dia de um relacionamento estável. “Eu faço robótica, estudo teoria de estabilidade, quando você cria sistemas estáveis. Eu uso a teoria, e nunca briguei com a minha namorada até hoje. Sempre usei conhecimento adquirido na sala de aula”, explica Santana.

O esforço da aplicação das ciências exatas fora da sala de aula, para ele, vale a pena. “Dado que é quase certo que ela se tornará minha esposa num futuro próximo, este é outro exemplo de que a matemática do amor traz finais felizes no fim das contas.”

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