O quadro sem cores

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Bruno Pereira, no E O Diabo a 4 Blog

No meio de sons e gritos, eu me enclausuro no silêncio. Entre as imagens e quadros espalhados pelo ateliê, eu foco o que é invisível. Entre as palavras ditas sobre um caixote onde os ouvintes estão na inércia da vida, eu prefiro o sossego de caminhar a passos lentos.

Caminho pela vida, por suas estradas, onde os ambulantes oferecem imagens de fundo de quintal, onde o repente do violeiro não fala sobre a seca e o amor, mas enaltece a tal prosperidade, sem poesia canta repetições, em um ardor quase infernal.

As imagens e palavras que pintam e conceituam Deus não passam de rabiscos e ruídos que poluem a vida, que cegam inocentes. São dogmas impostos como se fôssemos escravos da interpretação dos senhores…

Poeticamente já conceituei Deus:
“Deus é fruto colhido no quintal da casa da avó. Ele é a sombra da mangueira. O amarelo do caju. Deus é a comunhão entre os que o provam no gostinho do suco caseiro da vovó”.

No entanto, tenho silenciado conceitos e deletado imagens. Percebo que assim é mais saudável viver, mais responsável com a vida e o próximo.

Vejo o belo, mas não como algo transcendente, e sim humano. Vejo as flores, mas não como imagens de Deus, e sim como criação do solo fértil e da chuva que rega.

Amo. Não porque Deus seja amor, mas porque o Amor faz bem, faz o bem, é cura, é cuidado, sorriso e lágrimas. Amar é conspirar. Respirar o mesmo ar com o outro, com outros, com todos.

O outro é sempre mais importante que o conceito sobre qualquer deus. Gerar vida deve ser o primeiro pensamento antes de se pregar uma verdade absoluta.

Jean-Yves Leloup afirma:

“Deus não existe, Ele é. Se Deus existisse, como tudo aquilo que existe, um dia teria que deixar de existir. Dessa maneira, todos os deuses, investidos pelas nossas adorações cegas da existência, são ídolos. O verdadeiro Deus não existe e toda apropriação de ‘verdadeiro’ é uma fábrica de ídolos por vezes mortíferos e perigosos. ‘Meu’ Deus não é o ‘teu’ Deus e em nome desse Deus que ‘temos’, todos os crimes são permitidos…”

Esvaziar-se das velhas imagens é limpar dos olhos a catarata que embaça a vida. Espanar as teias de aranha do telhado é tornar o ambiente convidativo. Sacuda o sofá, tire dele toda a poeira. Um convite para sentar, uma conversa, o vinho que umedece os lábios. Sem imagens, faça da presença do outro uma oração de agradecimento à vida.

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