Abaixo a repressão

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Por Rosana Hermann, no Querido Leitor

Em todas as homepages, todas as capas dos principais jornais do país, vemos imagens do que está acontecendo em grandes capitais como São Paulo e Rio. Falarei sobre São Paulo, cidade onde vivo. E tentarei ser o mais justa e clara que conseguir. Porque se tem uma coisa que não podemos mais tolerar no Brasil (e no mundo) é a falta de clareza e a falta de justiça.

Estudei na USP nos anos 70. Vivi uma parte da repressão. Fui na missa do Herzog, vivi uma pequena parte do grande absursdo que foi a Ditadura Militar, participei de manifestações, fugi de polícia.

Vivi também a sensação de, ao mesmo tempo que condenava a ditadura assassina, sentir lampejos de ser filha de militar da aeronáutica, que nada tinha a ver com o exército ou os abusos, mas usava farda e representava o poder, ainda que involuntariamente e, por isso, era vista eventualmente com maus olhos. Mas não estou aqui falando de meus problemas, estou falando do Brasil.

O confronto com a polícia, a ideia de enfrentar o abuso do autoritarismo sempre existiu. Porque a polícia é sinônimo de ‘autoridade’ e toda autoridade quer impor seu poder pela força. Está errado, não faz sentido, não podemos admitir mas, infelizmente, é o que vem acontecendo há muito, muito tempo.

A polícia, aliás, é um assunto contraditório na vida de todos nós. Porque precisamos dela para manter a segurança pública e nos defender dos crimes, porque pagamos para que ela nos defenda e, quando vamos nos manifestar ela se volta contra nós, seus patrões. Ter uma polícia mal-paga, corrompida, com elementos despreparados, cruéis, guiados por ordens estúpidas, é como nascer num lar onde os mesmos pais que deveriam proteger acabam abusando dos filhos. Isso não só é inaceitável como é uma covardia. Não que a população seja criança, nada disso, mas a ‘autoridade’ despreparada acaba fazendo isso: reprime.

O que vimos ontem aqui em São Paulo, documentado em fotos, textos e vídeos, foi chocante. A manifestação poderia ter sido linda, porque há muitos anos não vemos a população com coragem para sair às ruas e se manifestar, não só um direito da democracia mas quase um dever do cidadão de não ser um zumbi calado, ainda mais em tempos de redes sociais sempre acusadas de promover a revolução inanimada de sofá. Pois milhares de pessoas de todas as vertentes ideológicas e por diferentes motivos, aglutinadas pelo gatilho do aumento da passagem, resolveram botar pra fora toda a indignação com o acúmulo de erros que nos destroem dia a dia. O transporte público indecente, que coloca todo mundo em situação indigna, a falta de segurança que nos rouba, corta, estupra e mata. O sistema de saúde que trata médicos e pacientes como chorume, que deixa gente morrer na fila, com filas de espera que subtraem chance de vida de tantos brasileiros.

A manifestação não é por nada, é por tudo. Os vinte centavos já se tornaram simbólicos, como as árvores do parque Gezi em Istambul. Já não queremos mais uma tarifa menor ou árvores preservadas, nós, enquanto humanos, estamos de saco cheio de ver a beleza do progresso, da tecnologia, que nunca chega até o sistema de gestão do governo. Por que não podemos ter política moderna, gente moderna, pensamento aberto, governo humanizado e competente?

Nas imagens que vimos e vivemos ontem vimos um grupo de policiais bem armados e mal comandados, em número grande e preparo pequeno, atirando em homens, mulheres, jornalistas, estudantes. A Global Voice condenou, a população condenou, a parte sã da mídia condenou e até o prefeito Haddad parece ter condenado a ação da polícia. Dá pra saber agora quem foi que mandou a policia agir assim ou vamos continuar com a farsa eterna reproduzida recentemente no caso do assassinato de 111 presos no Carandiru, quando ninguém deu a ordem de atirar e os culpados acabam sendo ‘o sistema’ e os mortos?

Sim, senhores e senhoras, queridos leitores, há policiais feridos também e eles também são pais, maridos, irmãos, vizinhos e amigos de muita gente que estava na rua. Como eu, há filhos e parentes de policiais. Os filhos também querem que seus pais que são policiais voltem pra casa. E é confuso ver um mesmo policial que um dia nos salva e no outro nos ataca. Grande parte da população está confusa, assustada e quase não sabe nem de que lado ficar, de tão perdida. Porque entre os manifestantes também há quem esteja lá para destruir e depredar.

O que sobre hoje é uma visão do inferno, campo de guerra, de lixeiras destruidas, lixo no chão, depredação e isso parece contar contra a população que foi reprimida. Mas olhar o lixo, como vi ontem e ver ‘vandalismo’ é fechar os olhos e a mente para compreender que uma lixeira pode ter sido o escudo que salvou alguém de ficar cego com um tiro de borracha.

Quando o cidadão tem que usar lixo como trincheira para não ser atacado porque está exercendo seu direito de manifestação, tem algo muito errado e não é com a COMLURB.

Lutamos muito, lutamos sempre e chegou a hora de olhar para tudo, sem medo, com justiça e clareza e ver o que está acontecendo com todos os envolvidos. E descobrir de onde emanam as ordens. E a quem interessa o caos. E como se cobrem os eventos. VAmos discutir tudo, mídia, poder, governo, leis, direitos e nossa ação cidadã.

Amigos, a luta nunca parou.
A luta sempre continua.
Abaixo a repressão.

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