Dez considerações sobre as manifestações

As manifestações são contra o aumento. Essa é a demanda imediata. E, de modo mais geral, refletem sobre o direito à cidade e à mobilidade

(Sinalização na Marginal Pinheiros durante 5° Ato contra o aumento das passagens. Foto: Bia Pasqualino)

(Sinalização na Marginal Pinheiros durante 5° Ato contra o aumento das passagens. Foto: Bia Pasqualino)

Débora Prado, no Le Monde Diplomatique

1 – As manifestações são contra o aumento. Essa é a demanda imediata. E, de modo mais geral, refletem sobre o direito à cidade e à mobilidade. É contra o AUMENTO.

2 – A tática da grande mídia e dos setores de direita mudou. Antes era atacar e deslegitimar todo tipo de manifestação ou ato de reivindicação, como já foi feito inúmeras vezes em greves, ocupações do MST ou movimentos de moradia. Dessa vez, a pecha de “vândalos” e “baderneiros” não colou. A tática agora é descaracterizar.

3 – Na linha da descaracterização, Jabor, Pondé, Veja e sentinelas da despolitização de plantão querem dizer que as manifestações são por um sentimento geral de insatisfação, contra a corrupção, contra a criminalidade. Nem seria de todo mal debater esses temas, se não fosse de forma completamente distorcida. Afinal, esses setores costumam falar em corrupção sem debater que ela acontece via PPP (ou tem gente que acha que Eike Batista e afins nunca pagaram propina ou corromperam pra crescer seus polpudos lucros?), sem citar reforma política e com ojeriza a temas essenciais como o financiamento público de campanha. Se os políticos se vendem, alguém compra.

Da mesma maneira, falam da criminalidade sem mencionar as estruturas que mantém a desigualdade social, econômica e espacial. Que alimentam a insegurança pública generalizada. E fingem ainda não participar dessas estruturas. Normalmente, apoiam medidas como Rota na rua como se isso fosse resposta à criminalidade – e sim, a mesma rota que deu o show de horrores na quinta-feira, que fez o massacre no Pinheirinho há pouco mais de um ano e que há muito criminaliza a pobreza a os movimentos sociais, seguindo o comando do Senhor Geraldo Alckmin de botar pra quebrar contra os baderneiros.

4 – A ideia é dizer que as manifestações reivindicam tudo, pra tudo virar nada e, mais uma vez, eles reforçarem o mito de que nada muda no circo do Brasil. Bom, parece que não é bem assim e isso que assusta tanto. Em poucos dias, nós vimos que os atos pela redução da tarifa conseguiram mudar: 1) o discurso da mídia e desses senhores; 2) a posição do governador e do prefeito; 3) a postura da PM; 4) a cabeça de muita gente que sempre foi contra manifestações. Parece-me que com mobilização e politização as coisas – sim – mudam.

Não deu certo desmobilizar, nem com campanha contra na mídia, nem com bomba de gás, nem com cavalaria e bala de borracha. E sinto dizer: despolitizar também não vai dar.

5 – Em tempo, vale lembrar: Jabor, Pondé, Reinaldo Azevedo e similares são imbecis que se levam a sério demais, simples assim.

6 – Sobre a mídia: A postura da Folha da Ditabranda foi bem representativa. Primeiro fez um editorial apoiando a PM barbarizar. Depois, quando sua própria jornalista (e toda solidariedade a esta profissional) provou do veneno disseminado pelo jornalão, lamentou a falta de discernimento. Resumindo: a mídia não é contra o abuso policial, ela foi contra o erro da PM ao destinar esse abuso aos seus “aliados”. Fosse trabalhador sem terra ou família despejada que tivesse levado bala de borracha no olho, estaria tudo bem.

E já que sou da categoria, bom o destaque de @marina pita: dono do jornal é diferente das pessoas que tentam fazer um bom trabalho no dia a dia, APESAR da orientação editorial do seu veículo, das demissões em massa dos jornalistas e da precarização da profissão.

7 – Ainda sobre a mídia, o episódio dos coletes daria um bom debate sobre liberdade de imprensa X liberdade de expressão. Quer dizer que manifestante se expressando pode sofrer agressão e violência do Estado, mas jornalista a trabalho não? Não seria o certo não existir violência do Estado contra a população e os profissionais de mídia poderem trabalhar sem medo em manifestações?

Mas, pra ser mais precisa, o primeiro debate seria sobre privilégios das empresas X liberdade de imprensa X liberdade de expressão, porque a proposta era diferenciar as grandes empresas donas da mídia de todos os demais meios de comunicação. Haja visto que os jornalistas da Folha e R7 detidos foram liberados muito mais rapidamente que nosso amigo Pedro Nogueira, que cobria o ato para o portal Aprendiz.

8 – Tudo bem que houvesse gente pela primeira vez na manifestação. Gente que se considera ou que alguém considera ou que é mesmo ‘despolitizada’. Gente que sempre criticou atos parecidos. Gente da ‘elite’ (uso a aspa porque gente da elite mesmo pra mim é o Thor Batista). Antes tarde do que nunca. Antes na rua que em casa vendo o Jabor.

Se essa experiência fizer a pessoa pensar antes de criticar a próxima passeata, manifestação, ocupação e formas diversas de lutas por necessárias transformações sociais, já tá valendo. Se usar essa experiência pra ver a mídia e o poder de uma forma mais crítica vai ser uma mudança muito positiva. Se esse for o começo de um processo de reflexão e politização, lindo. Se um setor da classe média perceber que tá muito mais próxima do povo que das elites quando as políticas públicas falham e atendem os interesses de uns poucos grupos (vide má qualidade da saúde, transporte e educação), excelente. Se caírem as assinaturas da Veja, é um sucesso absoluto.

9 – Acho que toda generalização é burra. Partidos que querem tirar proveito eleitoral de manifestações populares estão errados e devem ser repelidos. Partidos que constroem trabalho social no dia a dia, que apóiam de verdade e desde o começo atos e manifestações e pessoas que apostam no partido como ferramenta de luta por transformações são necessárias. Atacar essas pessoas é dar força pro primeiro modelo de partido – o oportunista.

E, embora seja triste ver a grande parcela de responsabilidade do PT, que mudou muito da Erundina (que poderia ser nossa vice não fosse o aperto de mão com o Maluf) pro Haddad, não podemos nos esquecer que a grande crítica ao PT é feita justamente quando ele passa a se assemelhar ao PSDB. E que temos o PSDB há décadas no governo do Estado. E que o Sr. Geraldo Alckmim promoveu grande privatização da saúde, da educação e colocou sua polícia pra fazer muitos e muitos massacres.

10 – Por último, mas não menos importante: apesar de tudo isso ter sido debatido, é importante lembrar: OS ATOS SÃO CONTRA O AUMENTO. CONTRA O AUMENTO.

dica do Fabio Martelozzo Mendes

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