“Até quando os mais velhos serão covardes?”, questiona idosa que protestou em Curitiba

Janaina Garcia, no UOL

A dentista Francisca Berenice Dias Gil, de 68 anos, que participou de manifestação em Curitiba

A dentista Francisca Berenice Dias Gil, de 68 anos, que participou de manifestação em Curitiba

“Como podemos ser tão covardes? Quem deveria estar com os jovens nesses protestos somos nós, protegendo-os e ensinando-os. A liderança tinha que ser dos mais velhos em dar as coordenadas pra esses meninos.”

O desabafo é da dentista Francisca Berenice Dias Gil, de 68 anos, que participou da quinta manifestação realizada na noite desta sexta-feira (21) em Curitiba. Ela contou ao UOL que deixou a passeata ainda na praça Rui Barbosa, na região central, antes de o grupo se dividir e entrar em confronto com torcedores do Atlético Paranaense, na Arena da Baixada, e no Palácio da Iguaçu, com a Tropa de Choque da Polícia Militar.

“O que me deixou irada foi ver que pessoas da minha idade ou um pouco mais novas deixam o ovem quebrar a cada ao invés de ir junto. Nós é quem deveríamos ensinar essas crianças a enfrentar esse povo que este levando cacetada da polícia. Estamos sendo covardes”.

Leia, abaixo, o relato da dentista ao UOL.

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“Hoje eu fui à praça Rui Barbosa para protestar, mas não tive condições de acompanhar a manifestação porque não havia levado carteira de identidade ou qualquer outra identificação. Mas vi que as lideranças não estavam ali –lideranças que deveriam os mais velhos, os que  ajudariam a dar as coordenadas.

Fiquei muito emocionada em ver na rua jovens, crianças e adolescentes brigando e lutando para provar que nosso país não dorme em berço esplêndido.

Mas quem vai ensiná-los a se proteger? Quem deveria protegê-los somos nós, que temos vivência e experiência a nosso lado. Não temos muito mais a perder, mas o jovem não pode morrer, não pode levar cacetada da polícia, de governo, isso não pode acontecer.

E nós os protegemos ensinando. É isso que vai modificar a cultura brasileira a mudar esses governantes. A cultura. É isso que farpa com que esses governos respeitem o povo. Senão, o dia em que o jovem chegar lá, será o governante que hoje ele tentou combater.

Concordo quando os partidos políticos são retirados dessas manifestações, pois vão até elas para tirar proveito. Começou sem partido, tem que seguir assim. Mas cada pai e mãe precisa orientar o filho que está indo às ruas, e não deixá-lo sozinho, desprotegido, naquela imensidão.

Hoje mesmo vi uma menina parada na manifestação com um bebê de colo. Havia muitos rojões em volta. Disse a ela: ‘Mãe, esses fogos afetam o ouvido da criança’, para ver se ela saía.

Eu já militei em manifestações durante a ditadura, quando era estudante na UFPR (Universidade Federal do Paraná). Naquela época, os militares pegavam e massacravam as pessoas com muito mais facilidade e muitas vezes nem sabíamos o que estava acontecendo. Uma aluna de odontologia da minha época sumiu e até hoje não sabemos o que foi feito dela.

Mas a ditadura foi uma época em que nossas mães e nossos pais não tinham abertura política de se posicionar junto dos nossos filhos. Hoje isso mudou; há gente da classe média protestando.

Só que até quando irá essa falta de lucidez de não assumir o comando? A liderança, repito, não está apenas em quem comanda esses movimentos, mas em nós, familiares. Porque os movimentos sociais no Brasil já estão muito deturpados, né, minha filha?

Tenho três sobrinhos: um de 38, um de 35 e um de 33 anos. Não são eles q tem que estar protestando, sou eu. A gota d’água foi o transporte, mas o povo está em busca de muito mais coisa: quer dignidade de vida, quer melhores escolas, quer cultura. Até quando seremos covardes em não assumir todos juntos essa causa?”

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