Em protestos no Acre, polícia é exaltada em cartazes e slogans

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Por Fábio Pontes, na BBC Brasil

A onda de manifestações que se espalhou pelo país resultou no Acre em um forte movimento de apoio à polícia – ao contrário do que vem ocorrendo em muitas capitais, onde as forças de segurança são alvo de críticas, pedradas e disparos de fogos de artifício. Um protesto ocorrido no sábado mostrou a insatisfação dos moradores com a corrupção e a mudança de fuso horário no Estado.

Nada de confrontos com tropas de choque, gás lacrimogêneo ou balas de borracha. Na manifestação que reuniu 20 mil pessoas em Rio Branco, um órgão de segurança – a Polícia Federal – foi a instituição mais enaltecida nos cartazes e slogans exibidos pelos manifestantes. Isso foi motivado pelo papel de seus agentes nas investigações de um escândalo de corrupção que supostamente envolve membros do governo estadual.

Havia até cartazes com dizeres como: “Obrigado Polícia Federal”, e “O Acre agradece ao trabalho da Polícia Federal”. E slogans como “Polícia, Polícia, Polícia Federal, prende todo mundo pra nação ficar legal”.

Em maio, a Polícia Federal realizou uma operação batizada de “G7”, que resultou na prisão de secretários e empreiteiros acusados de desvio de verbas públicas.

Ao todo, 15 pessoas foram presas –incluindo o sobrinho do governador Tião Viana (PT), Thiago Paiva – e 29 foram indiciadas. De acordo com a polícia, um grupo de sete empreiteiras teria se reunido em cartel para dominar as licitações e eliminar a concorrência em obras públicas.

Em seis contratos analisados foi apurado o desvio de R$ 4 milhões. O foco de atuação do G7, segundo a PF, estava no Ruas do Povo, programa de pavimentação e saneamento básico nas 22 cidades do Acre.

Já Thiago Paiva está sendo acusado de desvio de verbas do Sistema Único de Saúde (SUS). A polícia diz que, em parceria com um empresário, Paiva, que ainda continua como diretor de análises clínicas da Secretaria de Saúde, estaria autorizando a realização de exames sem pacientes para receber verbas do SUS.

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“Tudo isso estava acontecendo bem debaixo de nosso nariz e foi preciso a Polícia Federal entrar no caso para combater os corruptos e colocá-los na cadeia. Imagina se no Acre não houvesse a atuação de instituições sérias como a Federal? Estaríamos perdidos”, diz o estudante história Cláudio Nunes, de 21 anos.

Referências à operação G7 estavam entre as expressões mais comuns vistas nos cartazes pintados pelos manifestantes. Eles se mobilizaram por meio das redes sociais numa ampla campanha de divulgação e convite.

‘O Acre existe’

A grande maioria dos mais de 20 mil presentes ao protesto eram jovens.

“O Acre Existe. E tem corrupção”, dizia uma das faixas. A frase expressa o que muitos acreanos identificam como sendo um sentimento de rejeição do Brasil pelo Estado amazônico, com piadas recorrentes sobre a possível inexistência do Estado.

Outra bandeira levantada pelos acreanos foi o seu polêmico fuso horário. Até 2008 eram duas horas de diferença em relação a Brasília, mas foi reduzida para uma hora, por meio de projeto de lei, aprovado sem consulta popular, pelo então senador e hoje governador Tião Viana.

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Em 2010 a população foi às urnas em referendo e decidiu pela volta do antigo fuso. Passados mais de três anos, a opção expressa pelo povo acreano ainda perambula pelo Congresso Nacional por meio de um projeto de lei que ainda não foi votado.

Uma das faixas carregadas por manifestantes dizia: “Ditadura: mudar a hora sem ouvir o povo”. Outra afirmava: “Golpe: negar ao povo o referendo da hora”, se lia em outra faixa. A passeata parou o centro de Rio Branco e seguiu pacífica. A polícia acompanhou de longe. E alguns poucos policiais atuaram para organizar o trânsito.

Um ou outro ato de vandalismo foi repreendido pela multidão. Um das poucas marcas de depredação do patrimônio público foi a pichação no muro do Palácio Rio Branco que dizia: “Fora PT”.

“No caso muito particular do Acre, este evento satisfez a vontade do acreano de se impor e falar, de recolocar governo e governistas no lugar de ouvintes dos clamores das ruas”, analisa a socióloga Letícia Mamed, da Universidade Federal do Acre (Ufac).

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