Os venerandos da teologia falaram bobagem

agostinho

Ricardo Gondim

Leio História do medo no Ocidente, de Jean Delumeau (Companhia de Bolso). Vou devagar, o volume de informações excede o meu hardware. Entretanto, já aprendi sobre o pavor que o mar impingiu aos antigos navegadores, que acreditavam em leviatãs, sereias e polvos gigantes.

Antes de partir, muitos marinheiros sacrificavam animais na esperança de não serem tragados, caso ultrapassassem as linhas imaginárias do medo. O Cabo do Bojador, na costa ocidental da África, foi considerado o fim do mundo. Dizia-se que os atrevidos que ousassem cruzá-lo nunca voltavam.

Delumeau afirma que os elementos desencadeados – tempestade ou dilúvio – evocavam para os homens de outrora o retorno ao caos primitivo. Deus, no segundo dia da criação, separara ‘as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento’ (Gênesis 1:7). Se, com a permissão divina, está claro, elas transbordam novamento os limites que lhes haviam sido designados, o caos se reconstitui (pag. 62).

O historiador francês relata como o medo das bruxas se alastrou e como 2774760feiticeiros e magos acabaram na fogueira inquisitorial. Ele diz ainda que alguns ícones sagrados do cristianismo, geralmente invocados para sustentar argumentos conservadores, respiravam o mesmo ar supersticioso de seus dias.

Santo Agostinho acreditava em astrologia. Empenhava-se, inclusive, em distinguir a astrologia lícita da ilícita. Suas Confissões (V, cap. 1º) admitem que as estrelas podem ser os sinais anunciadores dos acontecimentos, mas elas não os rematam. Pois, ele acrescenta, se os homens agem sob a coerção celeste, que lugar resta ao juízo de Deus, que é mestre dos astros e dos homens?

O que Delumeau diz de Lutero, dono da fama de ter sido implacável contra a crendice popular? Ao anunciar a morte do príncipe-eleitor de Saxe (em maio de 1525) a um correspondente, Lutero não titubeou: O sinal de sua morte foi um arco-íris que vimos, Philippe [Melanchthon] e eu, à noite, no último inverno, acima da Lochau, e também uma criança nascida aqui em Wittenberg sem cabeça, e ainda uma outra com os pés ao contrário (pag.110)

Sobre o venerado Calvino, Delumeau também não hesitou: Ele opõe então a astrologia “natural”, fundada ‘na conformidade entre as estrelas e planetas e a disposição dos corpos humanos’, ‘à astrologia bastarda’, que procura adivinhar o que deve acontecer aos homens e ‘quando e como eles devem morrer’ (pag. 108).

Advirto, portanto, os que se consideram austeros defensores da reta doutrina: Cuidado! Quando vocês precisam alicerçar afirmações dogmáticas, citando a verdade de Agostinho, Lutero e Calvino; eles, iguais a nós, foram humanos. E também falaram tolices.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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