Príncipe brasileiro é fã de ‘Tropa de Elite’ e diz que país é conservador e ordeiro

“Os jovens brasileiros estão caindo na real”, diz o príncipe Dom Bertrand Maria José Pio Januário Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança e Wittelsbach, sentado entre retratos dos ‘tatataravós’, Dom Pedro 1º e Dona Leopoldina (cujos nomes completos inviabilizariam esta reportagem).

Ilustração de Luciano Schmitz sobre foto de Fernando Pastorelli/Folhapress

Ilustração de Luciano Schmitz sobre foto de Fernando Pastorelli/Folhapress

Publicado na Folha de S. Paulo

O “cair na real” de Sua Alteza referia-se às manifestações que ganharam as ruas do país em junho. Também mirava o plebiscito recém-sugerido pela presidente Dilma Rousseff (e já derrubado no Congresso).

No último, em 1993, 13% dos brasileiros votaram na monarquia como regime político ideal. Perderam, mas não desistiram.

Na internet, o grupo do Movimento Monárquico de SP reúne 150 pessoas. A União dos Monarquistas do Brasil conta 45 membros. Já os Paulistas Monarquistas são só dois.

Eles seguem à risca o que dizem os monarcas. Em comunicado, o irmão mais velho de D. Bertrand, Dom Luiz de Orleans e Bragança (que viraria rei, se o Brasil voltasse à realeza), pediu para “monarquistas absterem-se de qualquer participação” nos protestos. A Casa Imperial queria seus súditos longe dos “atos de anarquismo”.

O técnico em informática Carlos Lombizani, 24, morador da Bela Vista (centro), não pôs os pés fora de casa.

“O Brasil vive quase um monopólio do pensamento esquerdista, que conflita diretamente com o nosso”, diz Lombizani que aderiu ao monarquismo após “muita pesquisa”. Na política recente, o monarquista admira o ex-deputado e eterno presidenciável do extinto Prona, Enéas Carneiro (1938-2007), “que tinha uma ideologia próxima à nossa”.

Outra inspiração: o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que “fala muito inteligentemente da ditadura militar, um período difamado”.

‘A ORDEM NATURAL DAS COISAS’

A residência de Sua Alteza Imperial e Real, título autoatribuído pela família, fica numa rua tranquila do Pacaembu (zona oeste).

Nem um palácio, tampouco uma casa modesta: na segunda-feira chuvosa em que a sãopaulo visitou o fidalgo, o porteiro eletrônico pifou. Seu mordomo demorou dois minutos: “Quer passar água nas mãos? Dom Bertrand já vai descer”.

O príncipe diz que “a ordem natural das coisas é monárquica, não republicana”. Ele é didático: “Veja as famílias: pai é sempre rei, mãe é rainha, e filhos são príncipes”.

Sua Alteza insiste. “Imagine que uma mulher abra uma loja de roupas infantis e pudesse escolher entre dois nomes: ‘A Princesinha’ ou a ‘Filha da Primeira-Dama’. Qual seria eleito?”

Aos 72 anos, pele e cabelo lisos, dentes perfeitos e memória fotográfica, Dom Bertrand sorri quando derruba clichês sobre a monarquia.

Mas não se faz de rogado ao reforçar outros. Para ele, o império foi o mais longo período de estabilidade.

“O sistema atual, em que os políticos prometem saúde, educação e passe livre, traz ao povo uma consequência psicológica de que o Estado tem que dar tudo. Mas quem tem que vencer na vida somos nós!”, diz.

Sua Alteza alerta que a democracia direta, ou “voz das ruas”, é um perigo. “Isso vai dar num regime chavista, bolivariano. O brasileiro não quer isso: ele quer manter suas origens cristãs, defender a propriedade privada e a livre iniciativa.”

O discurso faz lembrar o dos yuppies de Wall Street, não fosse a defesa do Estado católico, unindo política e religião.

Dom Bertrand faz parte da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade e dirige a campanha Paz no Campo, com slogans como “terra invadida é terra perdida”, “verde: a nova cor do comunismo” e “PEC do trabalho escravo = armadilha contra a propriedade”.

Em duas horas, o nobre descreveu exatas oito vezes os porquês de o povo brasileiro ser“conserrrvadorrr”“orrrdeirrro” e “crrristão”.

O sotaque é inusitado -ele nasceu na França, durante o exílio do pai, que se fixou na Europa após “o golpe” da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.

‘TROPA DE ELITE’

“Apreciador da boa cultura”, Dom Bertrand vibra com o filme “Tropa de Elite”. “Você viu? Todo mundo aplaudiu. A voz autêntica do povo brasileiro é favorável à polícia.”

O referendo do desarmamento, de 2005, reforçaria sua tese (64% dos eleitores decidiram que a venda de armas no Brasil não deveria ser proibida). “Queriam desarmar a população honesta e armar os bandidos, o que equivale a tirar as fechaduras de todas as casas. O povo disse não.”

O bisneto da princesa Isabel, que há 125 anos aboliu a escravidão, questiona o que se entende hoje por “condições análogas ao trabalho escravo”.

“Querem controlar os menores detalhes, até a grossura do colchão que o patrão dá para o empregado. No Nordeste, todo mundo dorme em rede. Chegam lá os fiscais e condenam o fazendeiro. Cadê a liberdade? Cada um dá a cama que bem entender.”

Também relativiza a limitação das jornadas de trabalho. “Veja o leiteiro, que tira o leite das vacas: não dá para fazer uma jornada exata, porque a vaca tem seu tempo natural.”

‘CAMPONESES’

Dom Bertrand, para quem “o agronegócio salvou o país da crise”, foi criado com seus 11 irmãos numa fazenda de 63 alqueires, sem energia elétrica, no norte do Paraná.

“No domingo, mamãe reunia os filhos de empregados na sede. Nós, meninos, ensinávamos catecismo. Havia harmonia. Era uma preocupação elevar culturalmente os empregados.”
Menos harmonia há entre os monarquistas contemporâneos.

O arquiteto Rafael Alves de Lima, 27, acha Dom Bertrand “muito conservador”. Ele afirma que “a maioria dos monarquistas espera a ascensão do 3º ou do 4º príncipe na linha de sucessão” (D. Bertrand é o segundo).

“Digo isso como católico praticante: defender um Estado não laico é um tiro no pé!”

Comentários

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1 Comentário

  1. Rafael disse:

    Só não entendi porque a Folha resolveu colocar aspas no golpe da república.

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