Eli Vieira: Neste país temos evangélicos e evangélicos

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Eli Vieira, no Facebook

Neste país temos evangélicos e evangélicos. Temos Ricardo Gondim e Caio Fábio, humanistas, que engrandecem o espaço não só religioso como também o espaço secular. Com esses, nós, humanistas seculares, temos enorme prazer de compartilhar uma cultura, um país, uma política.

E também temos os outros. Temos corruptos condenados como Bispa Sonia, temos pessoas que já fizeram declarações preconceituosas sobre homossexuais piores que o discurso da Ku Klux Klan sobre os negros, como Mara Maravilha.

Observem, atentamente, qual desses grupos o governo Dilma Rousseff resolveu favorecer com um encontro no Palácio do Planato. O segundo.

No encontro com representantes LGBT, nenhuma palavra foi dita sobre a famosa frase da presidenta, que seu governo não faz “propaganda de opção sexual”, quando ela vetou um kit anti-homofobia direcionado especificamente às escolas com maior incidência de agressão homofóbica, em 2011. Iniciativa reivindicada pela bancada teocrática, que teria usado o antigo ministro chefe da Casa Civil como material de chantagem para obter o veto.

Nenhuma palavra será dita, também, sobre os esforços da atual ministra chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, para investir dinheiro público em “fazendinhas” com “tratamento” de vício químico baseado apenas em fé, sem qualquer base médica ou científica. Ou seja, subvenção de religião, a mesma proibida pelo artigo 19 da Constituição da República. O mesmo tipo de instituição mantida pelo pastor Marcos Pereira, preso acusado de estupro e de uso da instituição de “tratamento” de viciados para fins não idôneos.

É bom para o país ter evangélicos, porque é bom para o país ser religiosamente diverso, com espaço para todas as crenças, inclusive o ateísmo. Mas não é bom para o país que dinheiro público seja usado para ferir a separação entre poder público e secular e instituições religiosas. Não é bom para o país ter uma bancada teocrática que não está no Congresso para trabalhar pelo bem comum, mas para trabalhar em proselitismo e vetos a direitos fundamentais, incluindo os reprodutivos. Não é bom para o país que a Presidência da República receba de braços abertos uma pessoa que roubou dinheiro do dízimo e outra pessoa que disse que 10% da humanidade é aberração.

Minha avó presbiteriana tinha na sala um quadro que resumia sua visão cristã sobre como se deve viver a vida. O quadro era uma visão de águia de dois caminhos, um largo, colorido, populoso; e outro estreito, com poucos, discreto. O primeiro era o caminho da perdição, o segundo era o caminho da salvação.

Quando vejo líderes populares chamando a multidão contra minorias, lucrando enormemente no processo, fazendo “marchas para Jesus” num populismo demagógico incansável, lembro do caminho largo do quadro da minha avó. Quando vejo Ricardo Gondim e Caio Fábio, bem menos conhecidos, menos lucrativos à TV e menos favorecidos pelo suposto poder laico do governo, penso no caminho estreito, impopular e esquecido.

Não mais acredito em Deus. No entanto, acredito menos ainda que o governo Dilma tenha boa fé para com direitos humanos ou o mínimo respeito pela inteligência dos evangélicos que tentam agradar afagando a bancada teocrática e agora recebendo figuras verdadeiramente demoníacas, selecionando o lado mais perverso na população evangélica, e ignorando seus membros mais esclarecidos e sábios.

Não se esqueçam que Dilma permitiu a Edir Macedo se tornar um banqueiro, comprar metade do banco Renner sem satisfazer os pré-requisitos das regras do Banco Central, e inclusive o classificando como “investidor estrangeiro”.

Se o inferno não será a resposta por essas escolhas, que ao menos o karma político um dia venha.

Eli Vieira, biólogo geneticista e ex-presidente da LiHS

dica do Marcelo Ferreira

Comentários

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2 Comentários

  1. sleiman disse:

    Não seja ingênuo… A moral da política não é a mesma moral que você conhece, ou a que você quer que seja; o que quer que seja ela… Não vivemos no império; o buraco no Presidencialismo fica mais embaixo. O “cumpra-se”, por aqui surge travestido de um polido “será que eu posso?”.

    Não exalte determinados segmentos religiosos. Foram eles que nos levaram ao segundo turno da última eleição presidencial. E, não se engane, não nos levaram por causa de questões nobres…

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