Escravidão velada

Antônio C.Costa, no Palavra Plenamãos

Após entrevistar nesses últimos anos número incontável de trabalhadores brasileiros, fui forçado a sonhar com os seguintes decretos:

Decretamos que todo trabalhador terá tempo para o sexo, o amor, os livros, a boa conversa, a prática de um hobby, o contato com a natureza, a busca pelo sentido da sua existência, a comunhão com Deus.

Decretamos que todo trabalhador terá tempo para se desenvolver como pessoa, adquirindo novos saberes e habilidades.

Decretamos que o trabalhador terá dois dias de folga por semana.

Decretamos que o trabalhador não vai trabalhar o dia inteiro.

Decretamos que o trabalhador não chegará exausto no local de trabalho por causa da precariedade dos meios de transporte.

Decretamos que o trabalhador não terá medo de adoecer e ver ele e sua família privados dos meios de subsistência e de uma vida digna, uma vez que o Estado não o deixará desamparado.

Decretamos que o trabalhador não ficará exposto à misericórdia incerta da sociedade.

A economia brasileira é sustentada pela mão de obra escrava. Milhares trabalham seis vezes por semana, oito a dez horas por dia, sem assistência médica, com o transporte descontado do seu salário, para receber no final do mês cerca de 700 reais. Eles não têm descanso. Trabalham para comer, comem para trabalhar. Seus dias são sempre os mesmos. Milhares dedicam-se a tarefas repetitivas e enfadonhas. Invisíveis sociais. Coadjuvantes da verdadeira vida que você e eu, que os ignoramos, vivemos.

dica do Guilherme Basilio

Comentários

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1 Comentário

  1. Vanessa disse:

    Fantástico!

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