A fórmula poderosa que deu origem ao furacão Anitta

Criada na periferia do Rio de Janeiro, a cantora teve uma vida confortável na infância e passou longe das favelas e dos bailes funk na adolescência. Hoje, aos 20 anos, lidera a invasão do gênero ao ‘mainstream’ do pop nacional

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Carol Nogueira, na Veja on-line

Nos últimos meses, um furacão chamado Anitta tem sacudido o Brasil. A cantora, que estourou com a música Show das Poderosas, com mais de 36 milhões de visualizações no YouTube, está em todos os horários de praticamente todas as emissoras da TV aberta e para onde mais quer que se olhe. Ela conseguiu trazer de vez o marginalizado gênero do funk para o mainstream do pop nacional. Sua história, no entanto, passa longe do terreno tradicional do estilo — ela nunca tinha ido a um baile até ficar famosa. Filha de um vendedor de bateria de carros e de uma artesã, Anitta, de 20 anos, cujo nome verdadeiro é Larissa de Macedo Machado, cresceu no bairro de Honório Gurgel, na periferia do Rio de Janeiro, e teve uma criação longe dos morros das favelas. Começou a cantar na igreja e teve uma boa vida até a loja do pai falir, conta a moça, que se formou em um curso técnico de administração, fala inglês, e chegou a estagiar na mineradora Vale do Rio Doce. Na época, não tinha dinheiro para comprar roupas de escritório, e teve de trabalhar como vendedora de loja para levantar verba para o guarda-roupa. Anitta é articulada, bem educada e ambiciosa: a “cara” do poder.

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Em suas letras, Anitta tem discurso de mulher dominadora e decidida, que brinca com suas várias facetas. “Eu finjo, vou fazendo meu teatro/ E te faço de palhaço, pra te dominar/ Tá fazendo tudo que eu mando/ Achando que logo vai me ter/ Mas no fundo eu só tô brincando com você”, canta em Meiga e Abusada. Em outra letra, ela diz, ainda, que gosta de homem “com pegada”. “Eu tô querendo um homem, cachorro eu tenho em casa”, canta em Cachorro eu Tenho em Casa. Tanto “fogo” deu origem a boatos como o de que ela teria “ficado” com o jogador Neymar no camarim de uma boate, mas ela rapidamente negou no Facebook. “O Neymar é meu amigo (…) Se continuarem inventando um bofe diferente por semana para mim, seja anônimo ou famoso, não vai ter bofe querendo parar comigo… Daí eu vou morrer solteira e difamada!”, escreveu, com bom humor. A verdade, ela garante, é que não sobra tempo para um namorado na agenda corrida. Segundo ela, toda a correria não permite que ela “fiscalize” o rapaz. Ela também ficou tímida quando a reportagem lhe perguntou sobre periguetes. “Ai, não sei falar sobre isso. Posso pular a pergunta?”, pediu, durante entrevista ao site de VEJA.

Descoberta – Mas Anitta é, também, menina. Daquelas que sonharam a vida toda em subir em um palco e cantar e rebolar como as estrelas que via na televisão. Ela conta que, desde criança, imitava artistas como Britney Spears em frente ao espelho. Foi assim que começou sua carreira. Como tantos jovens da sua geração, ela adora se exibir na internet – em ferramentas como o aplicativo de fotos Instagram. A desinibição fica escancarada quando, no meio da entrevista, ela para para fazer fotos e, com caras e bocas, resolve tudo em poucos cliques. Foi se exibindo que, um dia, postou um vídeo no YouTube em que usou um frasco de perfume como microfone e cantou funk. O produtor DJ Batutinha, responsável por sucessos de Naldo, como Amor de Chocolate, viu o vídeo, gostou e a levou para a Furacão 2000, a mais famosa produtora de funk carioca. Lá ela deu os seus primeiros passos, alcançando certo sucesso no Rio como cantora de funk melody (aquele com mais melodia e letras mais “família”, sem palavras de baixo calão). Mas Anitta queria mais. “Eu queria ser grande, e lá a estrutura era muito precária. Eu queria ter planejamento, estratégia”, afirmou.

Decidida e com visão de mercado, Anitta diz que sabia, assim que escreveu Show das Poderosas, no fim do ano passado, que a música seria um hit. No entanto, encontrou certa resistência da gravadora Warner Music, com quem assinou contrato no começo deste ano. “Eles achavam que a música tinha uma linguagem muito carioca”, diz ela. Para piorar, a canção tem ainda, em suas linhas principais, uma gíria gay pouco conhecida (“afrontar”, que, segundo ela, significa “roubar a cena” de alguém). Tiveram que “correr por fora” para provar que o prognóstico da gravadora estava errado, segundo a empresária da cantora. O vídeo, diz Anitta, embora lembre um pouco Single Ladies (Put a Ring On It), de Beyoncé, foi inspirado em um clipe de Justin Timberlake (provavelmente, Suit & Tie, que também é em preto e branco).

Estratégia – Anitta tinha razão em relação ao planejamento que faltava em sua carreira. Há cerca de um ano, conheceu a empresária Kamilla Fialho, que, com dez anos de experiência no mercado musical empresariando o MC Sapão (de Tô Tranquilão), farejou o sucesso e topou bancar a sua transformação em estrela pop. Seguiram à risca a cartilha de artistas internacionais com um trabalho intenso de construção de imagem. O “projeto” incluiu, entre outras coisas, duas cirurgias (ela colocou implante de silicone nos seios e fez rinoplastia) e uma rotina intensa de malhação para conquistar as curvas que exibe em suas roupas curtíssimas. Anitta, no entanto, não é tão “gostosona” quanto aparenta: está mais para um manequim 36/38. Ela teve, ainda, a ajuda de um time de profissionais: a personal stylist Lívia Lemos (ex-modelo e ex-namorada de Ronaldo Fenômeno), a fonoaudióloga Valéria Leal e a atriz Renata Ghelli (com quem fez coaching “para se soltar no palco e conversar mais com o público”). Fez também aulas de canto e dança, e gravou o clipe de Meiga e Abusada em Las Vegas, nos Estados Unidos.

Tudo foi bancado por Kamilla — ela não revela quanto gastou no total, mas somente para tirar a cantora do contrato com a Furacão 2000, a empresária pagou multa de 260.000 reais. “Foi um investimento alto tanto financeiro quanto de tempo. Eu adiantei esses valores para ela, mas eu sabia que ela pagaria. Um ano atrás, já tinha certeza que ela seria a estrela que é hoje. Ela só precisava de ‘gasolina’ para deslanchar”, diz Kamilla. Já Anitta não tinha tanta certeza que se transformaria no produto capaz de reverter o alto investimento. “Morria de medo de dar errado e eu não conseguir pagar a Kamilla. Era muito dinheiro, eu nem sonhava em ganhar isso um dia, não tinha nem um quinto desse valor. Eu ligava para ela desesperada, falando: ‘Eu não vou ser nada’. Tinha que virar, tinha que dar certo”, diz a cantora. Os adiantamentos, segundo a empresária, já foram descontados dos rendimentos de Anitta. Sinal de que ela anda faturando alto – há relatos pela internet de que seu cachê estaria girando em torno de 120.000 reais – ela não confirma. Hoje, a funkeira mais poderosa do momento faz mais de 30 shows por mês. São até três por noite, o que tem acabado com a sua voz a ponto de um nebulizador ser o seu companheiro mais fiel atualmente.

O investimento de Kamilla ajudou Anitta a deslanchar, mas não que ela não fosse talentosa. É, sim. Aos 20 anos, quatro de carreira, ela canta ao vivo na maioria de suas apresentações. As letras das músicas também são suas. Show das Poderosas, por exemplo, foi composta para uma menina que a invejava. “Ela me via dançar e ficava louca”, diz. Pudera. Anitta sabe rebolar como ninguém — é a criadora do famoso passo de dança funk “quadradinho”, no qual faz quatro paradinhas com o bumbum, desenhando no ar o tal “quadradinho”, que já ganhou outras versões mais elaboradas, como o “quadradinho de oito”. Ela também criou a coreografia do clipe de Show das Poderosas, que hoje é copiada por milhares de meninas e ensinada em vídeos do YouTube com uma de suas dançarinas.

Futuro – Anitta ainda não sabe como vai investir o dinheiro que tem ganhado. Por enquanto, seu maior sonho de consumo é uma casa própria. “Mas ainda não tive tempo de olhar”, diz a cantora, que hoje mora em um apartamento alugado na Barra da Tijuca. Sua agenda está lotada, e ela já lida com problemas de ricos e famosos. No dia marcado para encontrar a reportagem, a última terça-feira, ela havia dormido apenas duas horas antes de seguir para o Projac, estúdio da Globo no Rio de Janeiro, para gravar participação no Mais Você, de Ana Maria Braga, onde ensinou uma receita. Algumas horas depois, tinha entrevista na rádio Jovem Pan, em São Paulo. Como o tempo era curto, ela, a empresária e seu irmão e produtor artístico, Renan (chamado de “Anitto” pela equipe), decidiram seguir de helicóptero para a capital paulista. Quando a aeronave se aproximava da cidade, as condições climáticas não permitiram o pouso. Foram, então, redirecionados para Santos – mas, com o combustível quase acabando, tiveram de fazer um pouso forçado no “meio do nada, perto de casinhas com crianças que vieram correndo para ver o helicóptero”, segundo Kamilla.

Se para todos os brasileiros que andam rebolando ao som de Show das Poderosas Anitta é uma estrela, ela mesma parece ainda não ter se dado conta do sucesso que tem feito. “Não teve um momento em que eu percebi que tinha estourado. Eu já tinha meu público no Rio, então não sei dizer quando foi que ficou desse tamanho”, diz. Cansada da viagem e sabendo que ainda tinha um longo dia pela frente, com direito a show na boate Royal, no bairro da Vila Olímpia, que só começaria às 2h da manhã, ela pedia à empresária que checasse com os funcionários do hotel em que estava hospedada, onde a entrevista aconteceu, se poderia receber uma massagem no quarto, em vez do spa na cobertura do edifício. “Será que eles fazem?”, perguntou, ainda ingênua nas vantagens da fama. “Eles não fazem… Mas fazem”, respondeu a empresária, com um sorriso malicioso no rosto. Coisas que o dinheiro, e a fama de “poderosa”, compram.

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