Toda oração é linda

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Genetom Moraes Neto, no Facebook

Toda demonstração coletiva de fé é comovente. A passagem do Papa Francisco pelas ruas do Rio certamente terá cenas bonitas.

Independentemente de qualquer coisa, a opção do Papa pelo despojamento e por uma simplicidade franciscana já criou uma imagem simpática a ele – desde o primeiro dia.

Eu me lembro de duas cenas marcantes. Nunca me esqueci da aparição sorridente do recém-eleito Papa João Paulo I na sacada do Vaticano. Um onda de simpatia se espalhou em questão de horas pelo planeta ( hoje, seria em questão de segundos ). Trinta e três dias depois, ele estava morto.

E aquela imagem de João Paulo II se contorcendo em dores e tentando abençoar a multidão, numa janela da Praça de São Pedro ?

O citadíssimo Nélson Rodrigues escreveu uma vez: “Toda oração é linda. Duas mãos postas são sempre tocantes, ainda que rezem pelo vampiro de Dusseldorf”.

Disse tudo, em dezessete palavras.

Para ser sincero: minha fé é aérea. Quando estou em terra firme, sou devastado por dúvidas. Quando me aproximo do aeroporto, começo a me converter. Durante as turbulências, minha fé explode, fervorosa. Nestes momentos, comparado comigo, o Papa não passa de um reles ateu. De volta à terra firme, no entanto, meus embates teológicos comigo mesmo se reiniciam, ferozes. Um dia, se resolverão.

Sempre achei os ateus extremamente pretensiosos, porque se julgam donos de um conhecimento capaz de negar algo obviamente superior a todos nós : a força inexplicada que move a máquina do mundo. Que maquinação é esta que incendeia protóns, elétrons, átomos, energias ? Ninguém conseguiu até hoje produzir uma explicação indiscutível.

Os crentes também não me convencem, porque, na esperança de um dia serem salvos, passaram a acreditar cegamente em impossibilidades físicas e em dogmas cientificamente desmontáveis ( se não fosse assim, aliás, não seriam dogmas ) .

E o silêncio dos céus ? Numa bela passagem do livro O Nariz do Morto, o grande escritor ( católico ) Antônio Carlos Vilaça pediu às estátuas e aos crucifixos: “Falai !” :

“Ó paredes, dizei-me. “Eu quero a estrela da manhã !”. Dizei-me o endereço dela. Ó sala capitular, ó claustros, ó antifonários com iluminuras, ó sinos brônzeos, estatuazinhas , capitéis, afrescos, casulas, pesadas estalas, pedras, faces, madeiras e ouro, tapetes, cálices, relicários , retábulos e móveis, crucifixos e virgens, falai ! Um sussurro que nos chegue. Que monólogo é este, dia e noite entretido ? Sombras, sombras, sussurrai-me, segredai-me. Todo esse passado, esse peso, essa pátina, pureza, pecado”.

Por fim : por menor que seja, a fé é, sempre, uma vitória pessoal contra o silêncio. Quando demonstrada coletivamente, como acontecerá nos próximos dias no Brasil, jamais deixa de ser tocante.

A casa é sua, Francisco !

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