Usar muito a Internet pode causar demência, diz neurocientista

Neurocientista alemão afirma que uso excessivo da web gera sintomas de demência em jovens; colega americano culpa falta de hábitos saudáveis

Jovens conectados. A empresária Sonia Nesi com os netos, Isadora, Enzo e Giovana. Enquanto os jovens usam o Google para tirar qualquer dúvida, a avó é conectada, mas sabe de cor números da tintas que usa em seu salão (foto: Fabio Seixo)

Jovens conectados. A empresária Sonia Nesi com os netos, Isadora, Enzo e Giovana. Enquanto os jovens usam o Google para tirar qualquer dúvida, a avó é conectada, mas sabe de cor números da tintas que usa em seu salão (foto: Fabio Seixo)

título original: O ‘tilt’ na memória de nativos digitais

Duilo Victor, em O Globo

RIO- Jovens que aprenderam a ler no navegador da internet e a escrever enviando e-mails são o que os especialistas chamam de nativos digitais. Dessa novíssima geração, pouco se sabe sobre como o cérebro dos que jogam Angry Birds no tablet, passam mensagem pelo Whatsapp e assistem a Porta dos Fundos no notebook (não raro ao mesmo tempo) vai envelhecer com tanta informação. O neurocientista alemão Manfred Spitzer, diretor médico do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Ulm, na Alemanha, dá a sentença: nativos digitais que passam a maior parte do dia plugados são candidatos a desenvolver, desde já, problemas de atenção, memória e concentração, mal que ele batizou como “demência digital”.

Spitzer diz que médicos sul-coreanos já usam o termo para definir estes sintomas há seis anos. Mês passado, jornais britânicos replicaram uma notícia vinda da Coreia do Sul de que aumenta o número de diagnósticos de jovens com a tal demência. O país é conhecido por ser o mais conectado do mundo, onde 67% da população têm smartphones e, desses, um em cada cinco fica mais de sete horas conectado. No Brasil, 36% do donos de celular têm smartphones, segundo pesquisa da Nielsen de junho.

O mais recente argumento a favor do neurocientista — cujo livro com título em inglês de “Digital Dementia”, ainda sem tradução para o português — vem da revista científica “Proceedings of the National Academy of Sciences” (PNAS), uma das mais importantes do mundo. Pesquisadores da Universidade Nacional de Cingapura estudaram nativos digitais chineses de Pequim, Guanzou e Jining e concluíram que essas crianças têm mais dificuldades com leitura que a média. A explicação é que os chinesinhos digitais aprendem a escrever as primeiras palavras usando teclado, onde as palavras se constroem por meio de fonemas, como no alfabeto latino, e não pela associação direta entre grafia e significado, como no mandarim. Essa confusão atrapalha o desenvolvimento intelectual das crianças, conclui o estudo.

— Não há nada que os nativos digitais possam fazer melhor que pessoas mais velhas — afirma Spitzer, que foi professor visitante em Harvard por dois anos. — O estudo (de Cingapura) mostra que os dispositivos digitais também podem apresentar efeitos colaterais.

A milhares de quilômetros de Ulm, em Los Angeles, o neurocientista Gary Small, professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia, concorda que a cultura digital tem seus efeitos, mas é contra o termo “demência digital”. Em artigo publicado este ano na revista “Internacional Psychogeriatric”, Small conclui que as queixas de memória pioram com a idade, mas estão mais relacionadas a hábitos saudáveis — alimentação, atividade física e cigarro — do que ao próprio envelhecimento, o que tem levado mais jovens a se queixarem de esquecimento.

— Sabemos que o cérebro é sensível a estímulos e, se um estímulo mental em particular é extenso, os circuitos neurais que controlam a experiência vão se fortalecer e se tornar mais eficientes — explica Small depois de perguntado sobre os efeitos da internet em excesso. — Nativos digitais melhoram suas habilidades com tecnologia, mas pioram na conversa presencial, como manter um contato visual e reconhecer expressões não verbais.

A empresária Sonia Nesi, 66 anos, é do tempo em que se decorava telefone de cabeça e se fazia conta no lápis. As dúvidas cotidianas duravam muito mais que dois minutos, pois não existia Google. Ela é avó de Isadora, de 18 anos, Giovana, de 19 — que aprenderam a ler quando já existia e-mail e sala de bate-papo na internet — e Enzo, de 10 anos, que aprendeu as letras quando o mundo conhecia o primeiro modelo de tablet. Quando têm qualquer dúvida, os três usam o buscador do celular. São comunicativos, espertos, e se queixam dos colegas que mergulham no “touch screen“ no intervalo dos estudos. Sonia conta o que observa:

— As mães que vão ao meu salão levam os filhos pequenos que, antes de aprender a falar, já mexem nos tablets. Minha filha controla bastante o uso da internet pelos meus netos, senão vira um vício. Aderi às máquinas também para ter mais assunto com eles. Hoje, o computador me dá chance de não precisar memorizar muita coisa, mas sei de cor os números das cores das tintas de cabelo.

Nosso cérebro, ou dos nossos ancestrais de cinco mil anos atrás, quando nossa espécie inventou a escrita, são rigorosamente iguais. Mas a capacidade moldar os circuitos neurais de acordo com a necessidade é o que se chama de neuroplasticidade. O chefe do Laboratório de Neuroplasticidade do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, Roberto Lent, diz desconhecer o termo criado pelo colega alemão, e explica que toda atividade mental, seja usar internet ou tocar instrumentos, tem seus impactos:

— Nosso cérebro é finito. Vejo o uso de dispositivos móveis como benéfico, mas, como tudo em excesso, faz mal. A neuroplasticidade pode ocorrer tanto para o bem quanto para o mal. Músicos que praticam à exaustão podem desenvolver distonia focal, doença que paralisa o músculo usado para tocar o instrumento e tem origem exclusivamente cerebral.

Sintomas

Perdas cognitivas

Em jovens, redução da memória, falta de atenção, diminuição de concentração, sonolência e depressão por causa do excesso de tempo conectado estão entre os sintomas da recém-descrita “demência digital”.

Olho no olho

De acordo com Gary Small, da Universidade da Califórnia, nativos digitais tendem a ter dificuldade em manter contato visual em conversas.

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