Em Manaus, artistas revoltam-se contra lei para eventos evangélicos

Emenda LDO é de autoria do vereador Carlos Alberto, do PTB.
Para cineasta Keila Serruya, lei “desrespeita Estado Laico”.

Show de Kleber Lucas, durante a Marcha para Jesus deste ano, lotou Sambódromo (foto: Marcos Dantas/G1 AM)

Show de Kleber Lucas, durante a Marcha para Jesus deste ano, lotou Sambódromo (foto: Marcos Dantas/G1 AM)

Camila Henriques, no G1

A classe artística de Manaus criticou a proposta do vereador Carlos Alberto (PTB), que pediu a inclusão de eventos culturais evangélicos no calendário da Prefeitura de Manaus e o repasse de recursos da Fundação Municipal de Artes e Cultura (Manauscult) para a realização dos mesmos. A emenda à lei aprovada na Câmara Municipal de Manaus (CMM) foi sancionada pelo prefeito Artur Neto (PSDB) na edição de dia 17 de julho do Diário Oficial do Município. No documento, o vereador afirma que “o objetivo da lei é proporcionar à grande nação evangélica de Manaus a possibilidade de desenvolver eventos culturais na cidade”.

Keila Serruya faz parte de grupo de artistas que não concorda com emenda (foto: Christian Braga/Arquivo Pessoal)

Keila Serruya faz parte de grupo de artistas que não
concorda com emenda
(foto: Christian Braga/Arquivo Pessoal)

Para a cineasta Keila Serruya, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de autoria de Carlos Alberto  “é um desrespeito ao Estado Laico”. Procurada pelo G1, ela comentou a reação da comunidade artística na cidade. “O vereador pontua a religiosidade, mas a proposta dele está pautada apenas na religião evangélica”, afirmou.

Junto a outros artistas, ela deve participar de uma reunião no Estação Arte e Fato, nesta terça-feira (23), para discutir os impactos dessa emenda em Manaus. “Vamos nos reunir para afinar o discurso e decidir o direcionamento que iremos tomar. É importante dizer que a Manauscult provavelmente já tinha conhecimento disso e não informou ninguém. Descobrimos por conta própria”, acrescentou.

Assim como Keila, o cineasta Zeudi Souza também mostrou preocupação com a proposta do vereador. “Ele é eleito para representar o povo, que são todos aqueles que vivem na cidade e não um nicho religioso que o colocou no poder”, declarou. Na opinião de Zeudi, essa emenda representa uma ameaça aos “princípios morais e éticos dos artistas que nunca tiveram privilégios por serem evangélicos, afros, umbandistas etc”. “Conhecemos bem a história e a intromissão dos evangélicos nas instituições culturais. Há uma dificuldade de esse vereador entender o que é cultura, arte e religião”, completou.

Zeudi definiu ainda a lei como “horrenda”. “Se eu quiser fazer um longa com R$ 1 milhão, terei que passar por um edital. Se os evangélicos quiserem um festival de música com o mesmo valor, irão receber a verba direta”, exemplificou o cineasta.

Integrante do Conselho Municipal de Cultura, o diretor teatral Douglas Rodrigues foi quem descobriu a existência do documento. “Isso vai contra toda a produção e a cadeia produtiva de cultura. Ele retira direitos do segmento que está lutando por melhores condições de trabalho”, defendeu. “Todos os artistas estão na causa. Terça, nós faremos uma consulta a eles e, a partir daí, pretendemos encontrar com o presidente da Câmara Municipal ou até com o prefeito Artur Neto”, concluiu.

Prefeitura de Manaus se manifestou por meio de nota (foto: Reprodução/Facebook)

Prefeitura de Manaus se manifestou por meio de
nota (foto: Reprodução/Facebook)

Ao G1, a Manauscult informou que a Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom) responderá a quaisquer questionamentos a respeito da Lei. Em nota, a Semcom esclareceu que “a Lei número 1.70 trata das disposições sobre as diretrizes para elaboração e execução da Lei Orçamentária do próximo ano”.

Ainda de acordo com a pasta, o artigo 64 do capítulo 7 da Lei, que pede a realização de dois eventos evangélicos, “alia-se a outros como o artigo 55 – que trata da inclusão de Bandas e Fanfarras em todas as escolas municipais – e os artigos 62 e 63 – que indicam a previsão da criação da Rua dos Artistas e da Praça do Rock, respectivamente. Há indicações para outras áreas, como a implementação de uma clínica veterinária pública e uma clínica para cuidar de idosos”.

Durante discurso no plenário da CMM na terça-feira, o vereador Carlos Alberto defendeu a proposta. ““Apresentei a emenda com o propósito de ajudar e contribuir com a grande nação evangélica. Me orgulho de poder ajudar essa grande nação, que foi capaz de colocar nas ruas, na ‘Marcha para Jesus’, praticamente 1 milhão de pessoas. E por que não fazer uma emenda para beneficiar eventos que atraem milhares de pessoas, que pregam a palavra de Deus, que cura, liberta e abençoa. A minha emenda veio com o propósito de beneficiar e não prejudicar. A proposta é justa, não tem nada de errado e por isso foi aprovada, está dentro da lei, do direito que temos de assim fazer e executar”, afirma.

dica da Patricia Crepaldi

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