Evangelho das vadias: cadê o Amarildo?

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Nancy Cardoso Pereira, no Facebook

Eu sou daquela religião que espera pelo corpo com o corpo: ressuscitado! A espera se move pela paixão por tudo que é humano… tanta e toda capaz de enfrentar a morte: a cruz.

Aborreço os senhores – horrorizai-vos – que querem travestir a fé de Jesus numa expressão obediente de louvores estéreis: não louvo pra que a “som livre” toque – deslouvado seja! Nem me deixo convencer pelo balbucio do senso comum da bondade: eu quero mais! Bem aventuradas as desobedientes porque elas quebram os espelhos de quem manipula deuses, ofertas & santidade.

Minha religião é aquela entre outras de Jesus que goza com o corpo vivo, morre com o corpo solidário de paixão e ressuscita na espera ativa das mulheres que não admitem que a morte diga a última palavra: nem não!

Não esperamos que nos deixem subir no altar, galgar posições e traficar influência como padres, pastores, profetas, ministros, bispos, arcebispos, cardeais, vigários & teólogos a granel. Esperamos a ressurreição do corpo com a menina dos olhos ardida de desejo, gás de pimenta e sono.

Nossa tradição religiosa vem das mulheres que ressuscitaram Jesus com sua espera audaciosa e persistente: “onde colocaram o corpo de quem eu amo?” – elas perguntavam com o zelo de quem cultiva um orgasmo, arrisca um jardim, desenha um doce, faz o salário chegar no fim do mês, apoia a amiga que vai abortar, organiza uma greve, alimenta a fome com a vontade de comer e lava as roupas ciente de que o que suja o mundo é o medo, a desigualdade e a opressão.

Onde colocaram o corpo de quem eu amo? – diz Madalena.

“Porque levaram embora o corpo do meu Senhor, e não sei onde O colocaram.”  Evangelho de João 20, 13

Repetiam o gesto antigo de amante e mãe, companheira e irmã que insiste em saber:

” me digam onde colocaram o corpo e eu cuidarei dele…” Evangelho de João 20, 15

Reivindicam o corpo porque denunciam as muitas mortes e já não aceitam um deus que exige sacrifício, que justifica a injustiça ou atenua o desespero. Elas perguntam pelo corpo do homem morto e se atrevem com perfumes, os seios a mostra e panos, bandeiras e cartazes que desnudam toda pretensão das virtuosas.

Herdamos o gesto des-esperado de Rispa que teve dois filhos mortos pela disputa pelo poder nos tempos do rei Davi… que uma história assim não se esquece! Aquele-no-governo disputava o poder na ponta da espada, na lógica do medo e traição e entregou para mercenários os 2 filhos de Rispa e outros 5 filhos de outra mulher. Os sete enforcados em praça pública, expostos como ação de polícia pacificadora… mas ninguém se atrevia a baixar os corpos, a assumir a morte, a dizer o que aconteceu.

E a mulher antes de todas nós foi lá e fez:

Então Rispa, filha de Aiá, tomou um pano de cilício, e estendeu-lho sobre uma penha, desde o princípio da sega até que a água do céu caiu sobre eles; e não deixou as aves do céu pousar sobre eles de dia, nem os animais do campo de noite. 2 Samuel 21, 10

E ela perguntava pelos corpos dos filhos, pelos filhos da outra: sem cansar, sem desistir: onde está o responsável? quem tinha o poder de deixar que tirassem a vida do corpo desses meninos: que assuma! Que venha a público! Que se assuma a responsabilidade! E assim ela fez dias e dias, semanas e meses… até que o grande poderoso, violento e dissimulado rei Davi assumisse o crime: não foi ele… mas foi a política dele! Criminoso!

e depois disto deus fez paz com a terra…2 Samuel 21, 14

Minha religião é essa, essa minha tradição, as apóstolas da justiça, as herdeiras da coragem que move a esperança. Nós também queremos saber: Onde está o Amarildo da Rocinha? O que fizeram com ele? Quem fez? Quem vai assumir a responsabilidade? E nesse domingo com todas as mães de maio – guerreiras de todas as periferias – e todos os outros dias necessários repetiremos o gesto amoroso de perguntar pelo corpo d@s filh@s do povo e todas as igrejas e comunidades que se comprometem com o evangelho de Jesus vão entoar o único cântico que Deus acolhe: aonde está o teu irmão? aonde está tua irmã?  Gênesis 4

Pastora Metodista, Nancy é autora de Receitas de Vida: Na cozinha com Elias e Eliseu e de A Leitura Popular da Bíblia: À Procura da Moeda Perdida

dica do Pércio Faria Rios

Comentários

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2 Comentários

  1. Amarildo disse:

    Eu me chamo Amarildo também, mas percebo que durante décadas sumia gente nos morros, periferias e comunidades e ninguém dava a menor importância pra o fato. Inclusive quando o tráfico e a polícia mineira dominavam geral, isso ocorria e continua ocorrendo sem que nenhum partido emergente ou movimento social dê conta de mover campanha. Essa ética seletiva e oportunista me incomoda …

    • O Corneteiro disse:

      Muito bem lembrado Amarildo, muito bem lembrado! Infelizmente as comunidades pobres sempre receberão tratamento diferenciado dos políticos, basta ver as políticas públicas maquiadas pós eventos de esportes na capital do Rio de Janeiro para tentar dá uma imagem superficial de “paz-controle” sem intervir na profundidade dos problemas, e depois disso, será que teremos continuidade dessas tais UPP’s com políticas públicas de faz de conta? A polícia corrupta faz o diabo (ver o filme ‘Tropa de elite’) e as soluções para os jovens com alto risco social parece bem longe de acontecer. Quem viver verá!

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