Fenômeno paraolímpico, Alan Fonteles “agradece a Deus” por deficiência

Fã de atletismo, garoto Rio Woolf tieta brasileiro Alan Fonteles em Londres (foto: Paul Gilham / Getty Images)

Fã de atletismo, garoto Rio Woolf tieta brasileiro Alan Fonteles em Londres (foto: Paul Gilham / Getty Images)

Guilherme Costa e Luiza Oliveira, no UOL Esporte

“Eu jogava bola, corria, andava de bicicleta, pulava muro e corria atrás de pipa. Na escola, sempre brinquei com os meus colegas. Voltava para casa todo sujo. Tive uma vida normal”. O relato exemplifica com perfeição o comportamento de Alan Fonteles, um dos principais nomes do esporte paraolímpico brasileiro atualmente. Longe da comiseração ou da afetação pelos obstáculos superados, o paraense não transforma a deficiência em assunto.

“Eu agradeço a Deus pelo que aconteceu comigo. Se não tivesse acontecido, não seria atleta, não seria reconhecido e não estaria aqui hoje”, disse Fonteles, 20, em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Fonteles ganhou enorme repercussão nos Jogos Paraolímpicos de 2012, disputados em Londres. Ele venceu os 200m na categoria T43 e destronou o sul-africano Oscar Pistorius, medalhista de ouro na prova nas duas edições anteriores do torneio (Atenas-2004 e Pequim-2008).

Em pouco mais de um ano, as vidas de Fonteles e Pistorius tiveram trajetórias dicotômicas. O brasileiro consolidou o domínio, e no último mês conquistou quatro medalhas no Mundial de atletismo paraolímpico disputado em Lyon (França). Foram três ouros (100m, 200m e 400m) e uma prata (4×100 m).

O sul-africano migrou para as manchetes policiais. No início de 2013, Pistorius matou a namorada, a holandesa Reeva Steenkamp, na mansão do casal. A defesa alega que ele atirou porque a confundiu com um ladrão, e o tribunal de Pretória concedeu ao atleta o direito de aguardar o julgamento em liberdade mediante pagamento de fiança. O retorno dele ao tribunal está marcado para 19 de agosto.

“Acho que ele é insubstituível. Eu não quero substituir o Pistorius, mas fazer a minha história. Conquistei tudo que eu podia e fiz a minha trajetória. Tenho crescido e feito o meu nome”, afirmou Fonteles. “Eu acho que estaria onde estou mesmo se essas coisas não tivessem acontecido com ele. Desde que eu venci em Londres, comecei a elevar o meu nome. Eu queria que ele estivesse nas competições, mas não seria diferente”, completou o brasileiro.

Esportivamente, Fonteles ainda vê margem para evoluir. Sobretudo nos 400m, prova em que ele foi medalhista de ouro no Mundial de Lyon a despeito de não ter feito uma preparação específica: “Ainda dá para tirar uns três ou quatro segundos do meu tempo”.

O sucesso nas pistas já provocou mudanças na vida de Fonteles. O paraense mudou-se para São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, em 2012. O corredor também trocou a técnica Suzete Montalvão, que o acompanhava desde a infância, por Amaury Wagner Veríssimo, que é do CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro).

O reconhecimento também mudou. “É bom saber que pessoas gostam do trabalho que você faz. Ter fãs e ouvir as pessoas dizerem que se tornaram atletas porque me viram correndo é uma felicidade muito grande”, contou Fonteles.

A fama e o endereço, contudo, encerram a lista de mudanças. Fonteles continua sendo caseiro, apesar de ter uma agenda que inclui entrevistas, palestras e até um encontro com a presidente da República, Dilma Roussseff, na próxima sexta-feira.

“Desde criança, sempre fiz as coisas normalmente. Eu nunca fiquei falando ‘ah, não vou fazer porque não consigo’. Minha mãe sempre me tratou como uma criança normal. Meu pai também. Então, sempre passei para as pessoas que não é porque eu uso prótese que eu tenho de ser tratado de forma diferente”, apontou Fonteles.

Acometido por um problema congênito, o corredor começou a fazer fisioterapia quando tinha pouco menos de um mês de vida. Fonteles usa prótese desde um ano de idade e começou a andar antes de completar três. Ele debutou no atletismo aos oito anos, quando fez um pedido aos pais após ter visto Robson Caetano competindo.

“Existem pessoas com perna e existem pessoas sem perna, assim como existem pessoas com cabelo e existem pessoas sem cabelo. Eu não tenho as pernas e tenho de lidar com isso. Da mesma forma, uma pessoa que não tem cabelo precisa lidar com o fato de ser careca. Eu até brinco que consigo passar de 1,78m para 1,83m quando troco de prótese. Então, eu consigo crescer e diminuir da noite para o dia. Pessoas não conseguem”, comparou o atleta.

A casa de Fonteles em São Caetano do Sul não tem nenhuma adaptação motivada pela deficiência do corredor. A única coisa que ele tem de diferente é o carro, cujos controles de aceleração e frenagem ficam nas mãos.

Segundo o corredor, ele nunca sofreu nenhum tipo de discriminação por causa do uso de próteses. O principal problema imposto a Fonteles é estrutural: “A questão das calçadas. Hoje, para andar em uma rua, você não consegue seguir por uma mesma calçada. A diferença de nível é muito grande. Se você pega uma subida e uma calçada mais alta, é complicado até para um atleta”. O paraense treina no CT da BM&F Bovespa, que fica a pouco mais de um quilômetro da casa em que ele mora.

A mudança, aliás, ainda não foi totalmente assimilada por Fonteles. Caseiro, o atleta tem sofrido com o ritmo do novo Estado. “Eu gosto de São Caetano do Sul porque é mais tranquila”, disse o corredor. “Mas de São Paulo eu confesso que não gosto, não. É uma cidade muito movimentada, muito agitada. Só estou em São Paulo por causa da minha profissão. Tanto que quando eu terminar as minhas coisas no atletismo eu pretendo ir para outro lugar”, adicionou.

Até por ser muito novo, Fonteles ainda não estipulou quando pretende deixar o esporte. Antes, o corredor vislumbra outras duas mudanças: ele quer disputar o Troféu Brasil de atletismo, competição em que enfrentará pessoas sem deficiência, e vai se casar em novembro.

No primeiro caso, porém, Fonteles fará apenas um teste: “Disputar uma Olimpíada não está nos meus planos. Não tenho vontade. A única coisa que eu quero é disputar o Troféu Brasil. Quero continuar competindo e levando o nome do esporte paraolímpico do Brasil. Posso mudar de ideia daqui a alguns anos, mas hoje eu não tenho vontade de mudar”.

Na vida pessoal, a mudança de Fonteles será mais definitiva. Ele vai se casar com Lorrany, 17, namorada do atleta desde dezembro do ano passado. A cerimônia será realizada em Arapiraca (AL), mas os dois vão morar em São Caetano do Sul (SP), no apartamento em que o corredor vive atualmente.

A noiva já é a maior companheira de Fonteles nos períodos de folga: “A gente sai para almoçar ou jantar e para ir ao shopping ver filmes. Não sou de sair e não sou tão agitado assim. Prefiro programas bem tranquilos”.

Para um jovem de 20 anos, as principais peculiaridades de Fonteles passam longe das próteses: o status como atleta paraolímpico e a vida tranquila. O tom de “coitadinho”, porém, não aparece sequer quando o corredor fala sobre a rotina no esporte. “Foram treinamentos de seis horas por dia, de segunda a sábado. Eu deixei minha família, saí de casa e tenho uma vida muito regrada. Mas quando chego a um campeonato e subo no pódio, vejo que tudo isso vale a pena”, finalizou.

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