Podemos voltar a falar com os desconhecidos na internet?

Pedro Burgos, no Papo de Homem

Em um excelente artigo no New Inquiry, Adrian Chen questiona como as redes sociais estão ficando anti-sociais. O argumento é simples: a internet em teoria nos dá infinitas opções para ter contato com pessoas de todos os tipos, de todo mundo, com as preferências mais variadas. Mas hoje – Chen argumenta – parece que estamos menos abertos a criar amizades significativas com estranhos, erguendo cercas contra os desconhecidos. E isso mata o potencial de descoberta social da rede, que era forte na era pré-Facebook.

Ele diz:

Os espaços que encorajam os estranhos a formar amizades duradouras estão morrendo. Fóruns e email estão sendo substituídos pelo Facebook, que é construído na premissa de que as pessoas irão preferir povoar cuidadosamente as suas vidas online com apenas um punhado de amigos “reais” e fechar a porta para trolls, stalkers e golpistas. Agora que a desconfiança aos estranhos online estão embebidas no código da nossa rede social mais popular, está ficando cada vez mais improvável que as pessoas interajam online com alguém que não seja conhecido.

Não sei se a tese se aplica a todo mundo, mas ela faz bastante sentido para mim, há pelo menos uma década e meia fazendo amizades “reais” com estranhos na internet. Em 1997, por exemplo, conheci uma namorada no mIRC, em uma dessas salas de bate-papo onde a única coisa que ligava todo mundo era o fato de morarmos na mesma cidade (canal #BSB).

Assim que me mudei para São Paulo, joguei em uma lista de discussão sobre jogos de tabuleiro (um desses YahooGroups) que estava vindo para cá, e perguntei se poderia participar de algum grupo que jogava regularmente. Conhecia pouquíssimas pessoas na cidade, e logo na primeira semana recebi vários convites, e sou bastante amigo de vários dos companheiros de tabuleiro até hoje.

Chen argumenta que pela arquitetura das redes sociais dominantes hoje, esse tipo de situação, de relações online estabelecidas não por laços anteriores, mas por gostos em comum, está rareando.

Aqui no Brasil isso é bem observável, especialmente quando investigamos melhor a substituição do Orkut pelo Facebook em termos de rede social padrão. Havia amigos, fotos, scraps e fãs no Orkut, é verdade, mas boa parte do tempo das pessoas era gasto nas comunidades de interesse comum, onde discutíamos vários tópicos com completos estranhos (e ficávamos amigos de muitos deles).

Em vários sentidos, a rede de Mark Zuckerberg é a antítese do que os primeiros teóricos da rede imaginavam como potencial do que viria a ser a internet:

Para eles (os teóricos otimistas), a capacidade de nos comunicarmos com todo mundo, em qualquer lugar, da privacidade das nossas “cavernas eletrônicas” seria um boom para a interação entre humanos. O cientista J.C.R. Licklider previu a Internet em um artigo de 1968, com Robert W. Taylor, intitulado “O Computador como um dispositivo de comunicação”: ele imaginou que a comunicação no futuro seria feita em uma rede de “comunidades interativas online” mais ou menos ligadas umas as outras. Mas ele também previu que “a vida será mais feliz para o indivíduo online, porque aquele com quem alguém interage de maneira mais forte será selecionado mais pelos interesses e objetivos em comum do que por acidentes de proximidade.” A possibilidade de associação online com aqueles que achamos mais estimulantes levariam a ligações mais fortes e sinceras que as relações do “mundo real” determinadas por variáveis arbitrárias como proximidade física e classe social.

É claro que o Facebook não é o único culpado. Chen reclama (com razão) do exagero de alguns teóricos rabugentos recentes, pregando que amizade online não é amizade “verdadeira”, e da exploração por parte da mídia das amizades com pessoas de mentira na rede. Há até um seriado exatamente sobre isso na MTV americana, o Catfish, que foi zoado há duas semanas pelo Saturday Night Live:

Infelizmente o vídeo não está disponível no Brasil. Se quiser tentar, só clicar na imagem

Infelizmente o vídeo não está disponível no Brasil. Se quiser tentar, só clicar na imagem

Toda a questão levantada por Adrian Chen (há alguns meses, o que é eternidade na internet) pode ser passageira. Hoje a impressão que eu tenho é que os grupos estão mais fortes, mas eles têm dois grandes problemas: a engenharia do Face não dá tanto destaque às coisas postadas nesses clubinhos (cada grupo ocupa 15 pixels de altura na lateral esquerda da minha tela, pelo que medi) e privilegia justamente os posts de pessoas com quem você interagiu. É algo necessariamente diferente das mesas de bar que eram as salas de bate-papo em que você era meio obrigado de quebrar o gelo com “oi quer tc?”, e o assunto era você, e não a foto ou o link.

Talvez a busca social do Facebook permita uma volta das comunidades, de alguma forma (você poderá buscar por pessoas com interesses comuns na mesma cidade, fora do círculo de amigos, por exemplo), há alguns experimentos no Google Plus e sites grandes têm comunidades de comentaristas tão atuantes que as discussões são continuadas fora.

No PapodeHomem encoraja-se a discussão, e por mais que ela seja bem de alto nível para a média da internet, ela costuma se manter “on-topic”. Estou para ver alguém trocar 3 replies com alguma pessoa e falar “legal essa sua ideia, vamos debater isso sobre cervejas algum dia?” na sequência. Alguém presenciou? Seria lindo.

De todo modo, online ou offline, e independentemente da rede, a solução parece clara: é preciso sair da bolha e não ter medo de falar com estranhos, e ir um pouco além do reply da zuêra no Twitter ou um comentário “+1″ em blogs. Um “legal, de onde você é? de vez em quando faz bem.

[New Inquiry]

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