Qual o Deus que eu desejo?

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Ricardo Gondim

O desejo da transcendência não arrefece. Ele é óbvio na alma. Varremos da mente a sede pelo eterno, ocupando-nos em ativismo desenfreado ou procurando dar ares displicentes à espiritualidade. O anelo pelo divino, porém, insiste em aflorar com força. Vez por outra a sede de Deus explode como um vulcão.

No sentimento trágico de intuir sobre Deus e, ao mesmo tempo, negar os ídolos de barro, escavamos a alma, galgamos as escadas do mistério, questionamos os compêndios religiosos, desafiamos a espiritualidade. Mas que Deus desejamos? Eis o nó górdio que gastamos a vida querendo desatar: nem todos os deuses que nos apresentam parecem interessantes.

Antes de dizermos que Deus desejamos, é importante nos desfazermos de alguns deuses.

Morte ao deus bedel. Um superego onipotente só serve para criar homens e mulheres com baixa estima. Ele é responsável pela timidez de ousar na aventura do viver. Um grande policial, exigente e intolerante, joga o sarrafo da competência nas alturas. Essa divindade exige comportamentos sobre-humanos de gente inadequada. Ele parece não ter entendido que, dos aprendizes, que somos todos, não se cobra uma postura angelical.

Morte ao deus encalacrado no conceito grego de perfeição. Impossibilitado de sentir, mudar, optar, recriar ou de ter misericórdia esse deus se condenou a manter-se frio e distante. Ele não pode alegrar-se ou sofrer porque esses sentimentos não condizem com a perfeição. Não pode ser misericordioso porque seria um ultraje à coerência mostrar-se bom para quem não se fez digno de bondade. Tal divindade merece continuar no desterro que a filosofia criou para ele.

Morte ao deus maquiavélico, dono de duas agendas: uma visível e conhecida de mulheres e de homens, e a outra, misteriosa, mantida sob segredo – e que só será conhecida no fim da história. Um deus que precisa sujar as mãos com holocaustos, genocídios e crimes de guerra para conduzir a história não merece sequer a consideração das pessoas. Como reverenciar uma divindade menos ética do que a média humana – que é baixa?

Jesus de Nazaré, também conhecido como Filho do homem, ousou afirmar que Deus se parecia com ele. Quem me vê, vê o Pai [João 14.9]. Os judeus aguardaram a manifestação do Messias por séculos. Sua vinda vingaria o sofrimento imposto por outras nações aos descendentes de Abraão.  O Ungido de Deus se revelaria maior do que Moisés, o grande codificador da lei; seria mais expansionista e guerreiro do que Josué, o conquistador de Canaã; regeria com mais prosperidade e com mais longevidade que Davi, o rei querido; teria mais autoridade profética do que Elias, o renomado profeta do passado.

Mas Jesus frustrou o conceito de Messias. Sem buscar conquista política, sem arregimentar exército, sem codificar seus ensinos, ele se contentou em fazer o bem. Ao invés de enfatizar a lei, insistiu na graça, desmontando a relação de causa e efeito na intimidade com Deus. Por onde andou insistiu em proclamar que Deus ama indistintamente justos e injustos, cumpridores da lei e desatentos cidadãos. Em Jesus, o que se preocupa com o bem sem compromisso religioso foi mais estimado do que o severo cumpridor das exigências religiosas.

Nas ações do Nazareno, a referência do divino deixou de repousar em alguma dimensão estratosférica para ser testemunhada nas ruas e nas estradas. Deus esteve em Jesus, sentado onde o povo sentava, caminhando nas estradas em que as pessoas peregrinavam.

Jesus abriu mão de se parecer com as divindades veneradas. Ele optou por se fazer servo. Foi humilde, sem pretensão alguma de ganhar prestígio com sua atitude. Contudo, ao humilhar-se ensinou que a mansidão triunfa sobre a violência, o perdão destrói o ódio e a singeleza ganha da soberba.

Deus se mostrou em Jesus abrindo mão do aplauso das multidões, afastando-se da ostentação carismática e preferindo morrer na mais absoluta solidão. Entre o desterro e deixar-se cooptar pelos mecanismos do poder, ele preferiu a morte. A mensagem que perdura desde sua execução é que Deus jamais pactuará com os mecanismos que geram miséria.

Embora a religião que se constituiu em seu nome procure torná-lo majestoso, Jesus permanece o Cordeiro de Deus. Ele é a pérola de grande preço, o lírio dos vales, a estrela da manhã, o escolhido dos milhares para mim. O Deus que eu desejo.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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