Mentiras sociais

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Por Pedro Doria, no O Globo

Nos últimos dois meses, por conta das manifestações, os brasileiros começaram a prestar mais atenção na informação que vem das mídias sociais. Em blogs, via Twitter, sites de vídeo ou Facebook, muita notícia circulou. As fontes, inúmeras. Imprensa tradicional, blogueiros com maior ou menor grau de influência, grupos ativistas e, até mesmo, informação sem procedência definida. Numa redação como a do GLOBO, parte de nosso trabalho é acompanhar toda pista que pode gerar notícia. O grande furo pode vir de qualquer parte: tanto de um telefonema anônimo quanto de uma ligação da presidente da República. Mas é impressionante o quanto daquilo que circula nas redes é, simplesmente, falso.

Dois exemplos claros. O primeiro, muito fácil de confirmar. O governador do Rio, Sérgio Cabral Filho, seria casado com a filha de um dos principais empresários de ônibus do Rio. Não haveria qualquer crime aí. Uma das benesses de viver numa democracia ocidental no século XXI é que, cada vez mais, podemos realmente casar com quem quisermos. Só que é mentira. A história já circula há mais de ano, às vezes mais, outras menos. Não morre. É inteiramente falsa. Outra envolve o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Ele teria recebido uma imensa quantia de dinheiro como professor da Uerj, embora há muito licenciado para presidir o STF. Em algumas versões, a história vem até com documentos anexos. É mentira.

Não importa qual a simpatia ou a antipatia que possamos ter por uma ou outra figura pública. A essência do jornalismo é partir de fatos cuidadosamente comprovados. Não é um diploma que faz o jornalista. Não é o lugar onde trabalha. É o rigor.

Quando a comparação entre dois vídeos tentou comprovar que um policial militar infiltrado teria lançado um coquetel molotov durante uma das manifestações no Rio, passamos mais de um dia debruçados sobre ambos os filmes. Quadro a quadro, consultando peritos, tentando identificar junto à PM os homens em roupas civis que pareciam membros da corporação, traçando seu comportamento. No fim, os vídeos mostravam duas pessoas diferentes.

Não é um fenômeno único ao Brasil. Quando bombas explodiram durante a Maratona de Boston, circularam inúmeras histórias falsas. Entre elas, uma tentava, comparando foto a foto, relacionar pessoas inocentes com os terroristas. Algo assim pode fazer um estrago grande na vida de uma pessoa.

Quando se discute uma guerra entre a nova e a velha mídia, o argumento está deslocado. Esta é uma discussão de todo irrelevante. Tenta trazer, para o centro da conversa, a tecnologia na qual cada um se baseia. Para o jornalismo, o que importa não é o meio utilizado para veicular informação, não é a idade de quem o pratica, ou mesmo a origem profissional. O que importa é apenas o jornalismo. E jornalismo dá trabalho de fazer além de, infelizmente, custar muito tempo e dinheiro.

No início do século, havia uma forte discussão a respeito de blogueiros. Blogs independentes, um exército de profissionais liberais que, à noite, de pijamas, apurariam e contariam nova informação, talvez substituíssem o papel da imprensa tradicional. Não aconteceu. Grupos que nasceram deste processo, dos quais o mais conhecido é o Huffington Post, acabaram se organizando como a imprensa tradicional. Reuniram redações, com editores experientes, repórteres que passam parte do dia pendurados no telefone, a outra parte na rua com gravador ou câmera na mão. O produto final que fazem tem um sabor diferente do jornalismo tradicional. Talvez sejam até mais íntimos do mundo digital. Mas o método de fazer jornalismo, de levantar informação, confirmar, pacientemente averiguar, é o mesmo, bom e velho.

As manifestações que encheram as ruas brasileiras foram produto das mídias sociais. Quem apenas se informou a respeito delas pelas redes, porém, recebeu um misto de suposições, verdades, mentiras. Quem filtra o todo? Não é uma pergunta que tenha resposta. Minha suposição é bem mais simples. O jornalismo tradicional não morrerá. Porque sem rigor informativo nenhuma democracia se sustenta.

dica do Ailsom Heringer

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