Companheiros de todas as horas, cães desenvolvem relação de fidelidade com moradores de rua

Eles dão afeto e, em troca, são tratados como integrantes da família

Eliane com seus dois cachorros: ela compra ração e diz que os animais são vacinados (foto: Daniela Dacorso / O Globo)

Eliane com seus dois cachorros: ela compra ração e diz que os animais são vacinados (foto: Daniela Dacorso / O Globo)

Simone Candida, em O Globo

RIO – Com mãe alcoólatra e padrasto violento, Ivan fugiu de casa aos 4 anos e perambulou pelas ruas, passando frio e fome. Só encontrou apoio e amizade, e descobriu o que era uma família, quando conheceu um grupo de cachorros de rua. A história verídica do menino que sobreviveu com a ajuda de uma matilha aconteceu nas ruas de Moscou na década de 90 e acabou inspirando a peça de teatro “Ivan e os cachorros”, em cartaz na cidade até domingo. Mas a saga do garoto poderia ter se passado no Rio. Embaixo de marquises e viadutos, ou circulando por vias movimentadas da cidade, não é difícil descobrir casos de cães que aliviam a solidão de moradores de rua.

Entre catadores, que costumam percorrer quilômetros para conseguir juntar latinhas e papelão, é comum ver um amigo de quatro patas acompanhando a jornada. É o caso de Maria das Graças, a Baiana, de 52 anos. Morando ao relento com o filho de 18 anos e o marido há pouco mais de dois meses, depois que a família foi despejada de uma ocupação irregular no Morro Santo Amaro, no Catete, a catadora trata a cadelinha Isabela, de 4 anos, como parente.

— Ela é minha amiga fiel, companheira. Olha, prefiro um animal a um ser humano. O ser humano decepciona a gente dia e noite, o animal não. Ela está comigo desde filhote, não me abandona nunca, não é, Bela? — diz Baiana.

Durante o dia, ela e o filho, Michael Douglas, percorrem a Lapa, o Centro e a Glória revirando latas de lixo. Só comem quando conseguem juntar dinheiro para comprar uma quentinha ou quando alguém lhes oferece algum alimento. E dividem tudo com a cadelinha. Na hora de dormir, Baiana forra o chão onde Isabela fica com um resto de tapete. A cadela tem pote de água improvisado. De pelo marrom e porte médio, fica sempre de olho em Baiana.

Logo que foi despejada da casa onde vivia, Baiana recebeu a oferta de morar num cômodo. Mas, como a dona do imóvel não autorizou que levassem Isabela, a família quis continuar na rua.

— Ela foi achada em frente a um mercado quando era filhote. Como eu ia ter coragem de abandonar? Não entendo quem faz essa covardia de largar animal — diz.

Vivendo desde 2009 pelas ruas da Zona Sul, Eliane Aparecida Vaz, de 41 anos, não diz com clareza como foi parar nas calçadas. Mas conta com detalhes o que faz para dar carinho e conforto a seus dois cães sem raça: Meri, de 1 ano e 2 meses, e Ago Stuart, de 1 mês.

— Eles só comem ração boa, têm os potinhos deles. Meri tem coleira e é castrada, e os dois estão com a vacina em dia. A gente se protege e se adora — diz Eliane, que vive de esmolas e doações.

Detalhe: ela comprou o filhote por R$ 35 de outros moradores de rua, que estavam maltratando o bicho.

— A relação entre essas pessoas e seus cães é uma das mais verdadeiras, pois os dois só têm oferecer a amizade. Por isso, o tema comove e leva à reflexão: a história da nossa peça se passa na Rússia, mas poderia ser na Candelária ou na Praça da Sé (em São Paulo) — diz o ator Eduadro Mossri, que interpreta o menino criado por cães na peça “Ivan e os cachorros”, em cartaz no Porão do Laura Alvin, em Ipanema.

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