Compartilhamento de dramas torna redes sociais espaço para terapia virtual

Na busca por ajuda ou mesmo manifestações de amparo, o Facebook se consolida como canal para relatos de episódios negativos, de doenças a perda de animais de estimação

À procura de king: abraçada à mascote Jady, Simone usa perfil no Facebook para tentar encontrar seu outro dachshund, desaparecido há mais de um mês (foto: Carlos Macedo / Agencia RBS)

À procura de king: abraçada à mascote Jady, Simone usa perfil no Facebook para tentar encontrar seu outro dachshund, desaparecido há mais de um mês (foto: Carlos Macedo / Agencia RBS)

Larissa Roso, no Zero Hora

O perfil de Simone Bonilha no Facebook se transformou no diário de uma profunda tristeza nas últimas cinco semanas. “Esse é o meu filhote King que desapareceu! Amigos, por favor me ajudem a encontrar, tá doendo muito ficar sem ele”, escreveu a assistente administrativa de 36 anos em 16 de julho, junto da foto do dachshund que seria compartilhada 158 vezes. Dois dias antes, Simone encontrou caído um pedaço da tela que cerca o pátio da casa, na Restinga, na Capital. Jady, a outra mascote, latia, estranhando a ausência do companheiro.

“Preciso do meu pequeno. Muitooo”, postou Simone. “Para muitos apenas um cachorro, pra mim meu filhote amado. Essa dúvida de onde e como está meu King me destrói…”, acrescentou. Multiplicam-se as mensagens de encorajamento, remetidas até por desconhecidos. “Todas as tempestades passam, mas as árvores que têm raízes fortes e firmes permanecem. Eu faria qualquer coisa pra ver você voltar a sorrir de novo”, escreveu uma amiga. “Fé que ele volta”, aconselhou outro.

— Me sinto acolhida. Sinto que vou encontrar. Minha esperança redobra. Parece que pegam a minha mão — descreve a dona de King, sofrendo com falta de apetite e um sono inquieto.

Dramas diversos circulam nas redes sociais a todo instante. É bem provável que quem desabafa sobre períodos de luto, doenças de longo tratamento, descrença no cenário político, relacionamentos desfeitos, episódios de violência ou o péssimo atendimento no sistema público de saúde encontrará, na numerosa plateia online, alguém capaz de prover palavras de amparo ou, no mínimo, manifestar-se por meio do mais simples mecanismo de solidariedade instantânea, a ferramenta “curtir” do Facebook.

Imersos em situações graves ou enfrentando desgostos mais amenos, os internautas adaptam ao ambiente virtual uma prática essencial para o bem-estar psicológico: falar sobre os próprios problemas. O psicanalista Luciano Mattuella explica que o olhar do outro é fundamental para a constituição de cada um. Ao divulgar imagens de um lugar exótico e distante visitado nas férias, a pessoa busca a confirmação, entre os pares, de que aquele passeio foi mesmo incrível — a oportunidade de compartilhar conquistas com centenas ou milhares de destinatários rapidamente, e de ser festejado por eles, é um dos grandes atrativos das redes sociais. No caso de ocorrências negativas, o intuito é extravasar para encontrar alívio, ainda que superficial.

— É uma tentativa de achar outros na mesma situação. Em situações de tristeza e indignação, a nossa primeira necessidade é compartilhá-las, buscar no outro acolhimento e até algo de esperança: ele conseguiu passar por uma situação como a minha. Ajuda para não ficar solitário no sofrimento. A gente vive numa época em que o virtual adquiriu muita consistência de real — afirma o psicanalista.

Simone norteia os dias pelos acessos ao site. A partir das pistas enviadas, verifica pessoalmente cada suspeita de que o cachorro tenha sido encontrado. Renova os apelos, republicando fotos e promessas de recompensa, e conversa com donos de bichos de estimação perdidos. O sumiço de King, explica, abalou-a ainda mais em um momento de bastante dificuldade.

— Hoje vejo o Facebook de outra maneira. Crio vínculos, consigo me expressar, dizer o que estou sentindo. Se estiver chorando de madrugada e postar qualquer coisa, alguém vai me ajudar — conta a assistente, que confessa ter se sentido um pouco constrangida no início. — Alguém deve dizer: “Coitada, decerto nunca teve filho”. Agora não estou nem aí. Faço. Vou à luta — completa.

Mattuella atenta para a prudência. Ao cogitar narrar mágoas e apuros publicamente, o usuário precisa lembrar que alguns detalhes devem ser preservados:

— Há questões que são do plano íntimo. Nem tudo que é íntimo deve ser compartilhado. Aquilo que é do íntimo deve ser endereçado a alguém que você conhece e sabe que pode ajudá-lo. Algo que faz sofrer é muito particular e, para os outros, pode não ter sentido.

Acolhida deu ânimo à família de Jackson

Acolhida deu ânimo à família de Jackson

Acolhida deu ânimo à família de Jackson

Em meio ao processo judicial para conseguir que o Estado custeasse um marca-passo diafragmático para o filho, a dona de casa Simone Ferreira, 35 anos, e o metalúrgico Jorge Ilario Bottim, 37 anos, moradores de Caxias do Sul, surpreenderam-se com a acolhida de usuários do Facebook ao drama da família. Vítima de um atropelamento em 2010, Jackson Rafael, hoje com oito anos, ficou tetraplégico e dependente de um ventilador mecânico.

Ao dispensar a necessidade de tomadas e extensões, o novo aparelho permitiria que o menino respirasse de forma mais espontânea e ganhasse mobilidade ao ser deslocado com a cadeira de rodas. Simone criou perfis para sensibilizar a população e as autoridades. “Logo estarei ‘livre’, daí sim vou poder ter acesso a uma biblioteca”, escreveu ao publicar uma imagem de Jackson com um título infantil. Junto de outra foto, compartilhada 99 vezes, um convite: “Vamos sorrir para a vida”.

— Ajudou bastante. As pessoas iam compartilhando e comentando. Fui me identificando com outras mães — recorda a dona de casa.

Depois do desfecho positivo, Jackson se submeteu a uma cirurgia para implante do componente interno do marca-passo em abril. Simone segue abastecendo as páginas com registros dos progressos na adaptação. “Viva o Jackson! O sonho se realizando!”, festejou um amigo ao ver uma foto do aluno da 3ª série com o dispositivo que começa a suavizar uma rotina repleta de limitações. “Só temos coisas boas para agradecer”, postou Simone.

— É uma criança feliz — observa a mãe.

A psicóloga Silvia Benetti salienta que é importante se sensibilizar com quem enfrenta traumas, principalmente em um ambiente, como o virtual, onde o êxito profissional, os bens e a beleza são tão expostos e valorizados:

— As pessoas têm tido dificuldade para ouvir o sofrimento do outro. Há uma ditadura da felicidade, mas a vida é difícil.

Quando apelos geram dúvidas

Fotos de crianças com desnutrição severa ou de doentes graves, muitas vezes expondo ferimentos ou deformações, costumam comover e provocar dúvida entre os usuários. Os textos suplicam por auxílio, informando telefones e dados de contas bancárias, ou pedem que as imagens sejam compartilhadas, o que geraria retorno financeiro para as vítimas. “Estou desesperada e preciso de muita ajuda. Estou sentindo muitas dores devido ao acontecimento e vivo à base de remédios constantes (morfina) e gostaria que vocês me ajudassem a conseguir um tratamento no Hospital do Câncer”, diz a mensagem com a foto de Patricia, mostrando o seio desfigurado por nódulos.

Para checar a veracidade do apelo, a reportagem tentou contato por meio dos três números de telefone informados. Uma mulher se apresentando como cunhada da paciente confirmou a história. Patricia, 42 anos, de Nova Iguaçu (RJ), conseguiu a internação, mas morreu em abril, em decorrência de um tumor na mama. Alegando não ter qualquer conhecimento sobre computadores, a interlocutora fez a pergunta repetida a todos que continuam oferecendo apoio e orações:

— A senhora pode tirar isso do Facebook? Estou pedindo a toda pessoa que liga para me ajudar a tirar. Foi uma moça que botou para a gente, mas não sei mexer. Esquecer a gente não esquece, mas machuca ficar lembrando.

Uma montagem com fotos de Victor Hugo, 12 anos, antes e depois do tratamento para leucemia alcançou marcas impressionantes — em apenas um perfil, os pedidos de ajuda para a compra de remédio de R$ 4,8 mil contabilizou 686 mil compartilhamentos, 1,7 mil comentários e 27,6 mil curtidas. A iniciativa permitiu que a família de São José (SC) recebesse seis caixas do remédio enviadas do Paraná e R$ 6 mil via depósitos bancários. Marcia Monteiro Faustina, 32 anos, mãe do menino, continua atendendo desconhecidos interessados em contribuir, sete meses depois de um primo ter divulgado o material na rede.

— Muitos passaram pelo que estou passando. Às vezes, choro de um lado, e eles choram do outro — conta Márcia.

O QUE DIZ O FACEBOOK:

A assessoria de imprensa do Facebook no Brasil informa que o site não faz repasses em dinheiro para campanhas, como garantem postagens que anunciam um valor em centavos para cada compartilhamento. Não existe um filtro específico para barrar essas mensagens ou um serviço de verificação da veracidade das informações sobre personagens que estampam os pedidos de donativos.

Os administradores sugerem que os usuários denunciem posts que desrespeitem os Padrões da Comunidade (www.facebook.com/communitystandards) com “violência e ameaças, autoflagelação, bullying e assédio, discurso de ódio, nudez e pornografia, identidade e privacidade”, entre outros tópicos. Publicações com esse tipo de conteúdo são consideradas inaceitáveis. Na Central de Ajuda (www.facebook.com/help), a rede social esclarece dúvidas e orienta o usuário a ocultar ou se desvincular de pessoas e páginas ofensivas.

CAUTELA NO ESPAÇO VIRTUAL:

— Proteja a sua intimidade e a dos outros. Há detalhes que não precisam e não devem ser divulgados a centenas ou milhares de pessoas pela internet.

— Avalie o alcance e o potencial multiplicador das redes sociais. Considere as possíveis consequências do que está escrevendo antes de postar. Manifestar-se no auge da tristeza ou da raiva pode causar arrependimentos depois.

— Frente a uma audiência de características tão variadas, é preciso estar preparado para lidar com todo tipo de resposta. Um episódio que o revolta ou aflige talvez motive uma brincadeira de mau gosto por parte de um de seus interlocutores.

— No Facebook, a ferramenta mais simples e imediata para interação entre os usuários é o “curtir”. Ao redigir um post, pense se gostaria de receber “curtidas” pelo que está dizendo. Pode não ser o retorno mais adequado para o comunicado sobre uma morte, por exemplo, mas é o que frequentemente acontece. Nem todos se sentem à vontade ou dispostos para escrever uma mensagem de condolências.

— Pode ser muito mais eficiente procurar amigos próximos para compartilhar uma situação difícil e pedir ajuda do que publicar um desabafo que será apenas lido e “curtido” por conhecidos que não são capazes de avaliar o momento pelo qual você está passando.

— Para quem faz uma espécie de diário virtual sobre uma enfermidade, é importante também compartilhar as notícias boas. Ao final de um tratamento ou de uma internação hospitalar ou quando há um desfecho feliz para uma situação difícil, comunique os resultados positivos.

— No caso de doença, busque também blogs e fóruns específicos. Esses espaços costumam reunir pacientes e familiares com interesses semelhantes, promovendo a troca de experiências e informações úteis.

Fontes: Luciano Mattuella, psicanalista e membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Appoa), e Silvia Benetti, psicóloga e professora do programa de pós-graduação em Psicologia da Unisinos

dica do Jarbas Aragão

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Compartilhamento de dramas torna redes sociais espaço para terapia virtual

Deixe o seu comentário