Detalhes que me fazem amar o Ceará

Lagoa Paraíso, em Jericoacoara (CE)

Lagoa Paraíso, em Jericoacoara (CE)

Ricardo Gondim

As redes cearenses têm o punho grosso. Ornadas com varandas de crochê, viram decoração tanto em choupanas como em mansões. O bom cearense adora dormir, fazer amor, preguiçar e até convalescer de doença grave, numa rede.

As mangas cearenses são carnudas. A casca da manga-rosa parece aquarela; misturam-se nela, amarelo, vermelho e verde. O perfume da manga-rosa é remédio certo contra fastio. Já os abacates são enormes, tão grandes que passariam por melancias se não crescessem no cume do abacateiro. Siriguela, tirada no pé, ganha qualquer concurso de melhor fruta do mundo; uva moscatel não calça o seu chinelo.

A farinha cearense torrada com manteiga, colorau, cebola e alho vira a melhor farofa do universo. Pense numa coisa boa! Só os cabeças chatas sabem cozinhar feijão verde com queijo coalho e arroz branquinho – o famoso baião-de-dois. Acrescentem-se ovo frito – com a gema mole – bife, a legítima farofa e os chefes franceses babam de inveja.

O sotaque cearense é manhoso. Quando quer ganhar, conquistar ou convencer alguém, o matuto entoa um chorinho meloso. O português falado no Ceará é libidinoso; em cada frase, uma verdadeira cantada. Se um grande amor suplica – meu bichim, vem cá – não há cabra macho que resista.

A chuva cearense desce torrencial. São Pedro não se faz de rogado: no inverno caem enxurradas, verdadeiros dilúvios. Os conterrâneos chamam de inverno, mas não é inverno coisa nenhuma – só a estação molhada e carregada de mormaço. No Ceará, as chuvas duram no máximo cinco ou seis horas. O suficiente para vazar telhados e encher bicas. No inverno, a meninada toma banho de chuva. As poças – até pouco, charcos – viram lagoas. Que cena, o sertão verdejando. Bastam milímetros d’água e os garranchos cinzentos da caatinga ressuscitam. Um chuvisco produz um dos mais formidáveis milagres da natureza.

O pôr-do-sol cearense é vexado. Mas sempre espetacular. Não há como descrever um crepúsculo visto de cima de uma duna. Os turistas deveriam pagar algum tributo ao show diário do mar devorando o sol. As praias, do Mucuripe a Jericoacoara, selam o esplendor do lusco fusco com uma brisa calma e refrescante. Até parece que Deus deixa vazar um pouco do ar-condicionado celestial.

Ceará, meu Ceará, amo-te tanto!

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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