Papa: ‘A Corte é a lepra do papado’

Francisco afirma que o principal defeito da Cúria é se centrar somente no Vaticano
Pontífice se reúne com G-8 de cardeais para tratar das reformas na Igreja

Papa Francisco se reúne com oito cardeais para tratar da reforma na Igreja (foto: HO / AFP)

Papa Francisco se reúne com oito cardeais para tratar da reforma na Igreja (foto: HO / AFP)

Publicado em O Globo

VATICANO – No dia em que o conselho de oito cardeais em Roma começa a tratar das reformas na Igreja, o jornal italiano “La Repubblica” publicou nesta terça-feira uma entrevista exclusiva de seu fundador, Eugenio Scalfari, com o Papa Francisco. Como de costume, o argentino Jorge Mario Bergoglio disse o que pensa, com simplicidade e espontaneidade, surpreendendo até mesmo o jornalista, declaradamente ateu. O Pontífice voltou a fazer duras críticas à gestão da Igreja, classificando-a de “Vaticano-cêntrica”, e disse que fará de tudo para mudá-la.

Em uma parte da entrevista, que ocupa as três primeiras páginas do diário, Francisco disse que os mais afetados pelo narcisismo, o que ele chamou de uma “desordem natural”, são pessoas que têm muito poder, incluindo líderes da Igreja.

– Você sabe o que eu penso sobre isso? Os líderes da Igreja têm sido muitas vezes narcisistas, bajulados por seus cortesãos. A Corte é a lepra do papado – afirmou.

Perguntado se estava se referindo à Cúria, o Papa explicou que apesar de a Cúria (governo da Igreja) não ser propriamente uma corte, existem “cortesãos”.

– Não, na Cúria há alguns cortesãos, mas a Cúria como um todo é outra coisa. Gerencia os serviços necessários à Santa Sé. Mas tem um defeito: é Vaticano-cêntrica. Cuida dos interesses do Vaticano, que ainda são em grande parte interesses temporários. Essa visão esquece do mundo que nos rodeia. Não compartilho dessa visão e farei de tudo para mudá-la.

Sobre o conselho de cardeais, o chamado G-8 do Vaticano, Francisco advertiu que não se trata de cortesãos, mas de pessoas sábias e encorajadas com os mesmos objetivos. O Pontífice declarou-se consciente das dificuldades, mas convencido de que deve-se seguir em frente, com “prudência, firmeza e tenacidade”.

– Este é o começo de uma Igreja com uma organização não tão vertical, mas também horizontal.

O encontro entre o Papa e o jornalista ocorreu na última terça-feira, na residência Santa Marta, depois de os dois terem trocado cartas públicas sobre crença. A entrevista inicia-se com uma das principais preocupações de Francisco, já reveladas durante a viagem ao Rio: jovens e idosos.

– Os males mais graves que afligem o mundo nos últimos anos são a falta de trabalho para os jovens e a solidão dos idosos. Os idosos têm necessidade de cuidados e de companhia. Os jovens, de trabalho e de esperança, mas não têm nem um nem outro, e o problema é que já não buscam mais. Estão presos no presente. Você pode viver preso no presente? Sem memória do passado e sem o desejo de projetar um futuro construindo um projeto, uma família? – questionou.

Ele insistiu em sua intenção de abrir os braços da Igreja:

– Todo mundo tem sua ideia do bem e do mal e deve optar por seguir o bem e combater o mal a partir de sua compreensão. Isso seria o suficiente para melhorar o mundo.

O Papa também revelou que depois de ter sido eleito líder da Igreja Católica em março, considerou por alguns instantes a possibilidade de rejeitar o posto.

– Antes de aceitar, perguntei se poderia retirar-me por alguns minutos para um quarto anexo ao da varanda sobre a praça. Senti muita ansiedade – disse. – Fechei os olhos e todos os pensamentos desapareceram. Inclusive o de rejeitar a designação. Em algum momento, uma grande luz me preencheu. Durou um momento, mas pareceu muito tempo.

Eugenio Scalfari termina a entrevista dizendo que “se a Igreja torna-se aquela que ele (Francisco) quer e imagina, ele terá mudado uma época”.

dica do Ailsom Heringer

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