‘Não existe um Deus católico, mas um Deus’, diz papa

Francisco volta a defender uma mudança radical e uma Igreja mais aberta no primeiro dia do processo de reforma do Vaticano

Jamil Chade, em O Estado de S.Paulo

"A visão 'Vaticanocêntrica' se esquece do mundo que nos rodeia", criticou pontífice (foto: Maurizio Brambatti/EFE)

“A visão ‘Vaticanocêntrica’ se esquece do mundo que nos rodeia”, criticou pontífice (foto: Maurizio Brambatti/EFE)

No dia em que o papa Francisco dá início à maior reforma da Santa Sé em décadas, o pontífice deixa claro seu ataque contra a estrutura do Vaticano, contra as disputas de poder nos bastidores da Igreja e defende uma reforma radical. “A corte é a lepra do papado”, atacou o argentino.

Em entrevista ao fundador do jornal La Repubblica, Eugenio Scalfari, chegou até a alertar que não acredita em um “Deus católico”, mas em um Deus de todos. Para ele, Deus tem um conceito que vai além do catolicismo. “Não existe um Deus católico. Há um Deus.” Ele, porém, alerta: “Religião sem misticismo é apenas filosofia”.

Nessa terça-feira, 1, o grupo de oito cardeais convocados por Francisco começou a apresentar os detalhes de todas as ideias que nos últimos meses recolheram pelo mundo sobre a reforma da Igreja. O processo será longo.

Essa será sua principal obra e ele quer deixar a mudança como seu principal legado, atacando o egoísmo dentro dos muros da Igreja, o fato de a Santa Sé apenas defender seus interesses e um comportamento de bispos que não condiz com o cristianismo. “Esse é o início de uma Igreja com uma organização não tão vertical, mas também horizontal”, apontou o papa, apostando em uma Igreja menos centralizada.

Ao retornar de sua viagem ao Brasil, o papa já havia indicado que não seria ele quem julgaria os gays. Ontem, reforçou a ideia de que não será ele nem o Vaticano que julgarão o bem e o mal. Na entrevista publicada nessa terça, uma vez mais Francisco dá sinais concretos de que quer uma Igreja aberta. “Estar aberto à modernidade é um dever”, insistiu, revelando o que vai querer de sua reforma.

Ao falar sobre o narcisismo, o papa foi contundente. “Não gosto da palavra narcisismo”, disse. “Indica um amor fora de lugar por si mesmo. O verdadeiro problema é que os mais afetados por isso, que na realidade é uma espécie de desordem mental, são pessoas que têm muito poder”, atacou. “Muitas vezes, os chefes são narcisistas.”

O papa chegou a elogiar alguns membros da Teologia da Libertação, tendência atacada pelo Vaticano, e aponta que foi justamente a perseguição contra esses padres que o politizou. “Isso lhes deu um plus político à sua ideologia, mas muitos deles eram crentes com um alto conceito de humanidade.”

Igreja feminina. Ele não deixou de atacar o “liberalismo selvagem que converte os fortes em mais fortes e os fracos em mais fracos e os excluídos em mais excluídos”. Para ele, o Estado precisa corrigir “as desigualdades mais intoleráveis”.

Jorge Bergoglio voltou a insistir que uma “Igreja missionária e pobre é mais válida do que nunca”. “Essa é a Igreja que Jesus pregava.” O papa deu sinais de que a participação da mulher na Igreja também será alvo da reforma. “Não se esqueça de que a Igreja é feminina.”

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