Parentes de vítimas de crimes brutais superam trauma com “terapia do perdão”

Quando ainda era adolescente, Paula Cooper (à direita) matou Ruth Pelke, 78, a facadas, em maio de 1985

Quando ainda era adolescente, Paula Cooper (à direita) matou Ruth Pelke, 78, a facadas, em maio de 1985

Publicado no UOL

O momento em que um assassino sai da prisão pode ser traumático para a família da vítima. No entanto, para o americano Bill Pelke, a libertação da mulher que matou sua avó a facadas foi diferente. Ele não só a perdoou, como quer ajudá-la a começar uma nova vida.

Mas como é possível ser capaz de perdoar um crime tão brutal como esse?

Era tarde de maio de 1985. Bill Pelke estava na casa de sua noiva quando recebeu um telefonema de seu cunhado.

Bill Pelke perdoou a assassina de sua avó, que chegou a ser condenada à morte

Bill Pelke perdoou a assassina de sua avó, que chegou a ser condenada à morte

“Esfaquearam a minha vó até matá-la”, lembra Pelke, em entrevista à BBC.

“A casa havia sido saqueada e meu pai encontrou o corpo.”

Sua avó, Ruth Pelke, de 78 anos, professora de religião, havia sido assassinada em sua casa por quatro adolescentes.

No dia seguinte, Pelke estava na barbearia preparando-se para o funeral quando recebeu a notícia de que as assassinas de sua avó haviam sido presas.

“Fiquei surpreso que quatro meninas tão jovens pudessem ser capazes de um crime tão brutal”, diz. “Tinha filhos da mesma idade.”

Três das acusadas receberam longas penas de prisão, variando de 25 a 60 anos. Uma delas, Paula Cooper, considerada a líder do grupo, foi condenada à morte em 11 de julho de 1986.

Pelke assistiu ao julgamento e à condenação de Paula. Naquele momento, a pena de morte lhe pareceu uma sentença adequada.

No entanto, 18 meses depois da morte de sua avó, ele começou a repensar o destino da menina que destruiu parte de sua família.

“Alívio profundo”

“Imaginava a todo momento minha avó sendo esfaqueada na sala de jantar, onde nossa família se reunia na Páscoa, no Dia de Ação de Graças e no Natal. Não suportava pensar nisso”, lembra.

Mas Pelke começou a se perguntar qual impacto a pena de morte teria na família da adolescente, em especial no avô de Cooper, que assistiu ao julgamento e chorou compulsivamente ao escutar a leitura da sentença.

“Minha avó não gostaria de ver esse senhor presenciar a morte de sua neta”, afirma. “Todos no noroeste de Indiana [Estado americano] queriam ver Paula Cooper morta. Tenho certeza de que minha avó ficaria horrorizada caso essa menina viesse a ser punida dessa maneira.”

Pelke estava cada vez mais convencido de que sua avó –uma cristã devota– demonstraria compaixão por Paula e gostaria que alguém de sua família tivesse o mesmo sentimento.

“Quando me deixei comover pela compaixão e pelo perdão, parei de imaginar minha avó morta, só me lembrava dela viva. Algo de diferente aconteceu comigo.”

Pelke disse que sua decisão de perdoar a assassina de sua avó lhe deixou com uma sensação de “alívio profundo”.

Reação da família

No entanto, para alguns membros da família, foi difícil aceitar a decisão de Pelke, especialmente para seu pai, que havia encontrado o corpo da própria mãe e testemunhado perante a Corte.

“Meu pai não apoiou minha decisão”, diz Pelke. “Tivemos uma relação tensa durante anos, mas depois ele me perdoou por ter perdoado Paula Cooper.”

Foi então que Pelke decidiu marcar um encontro com Paula na prisão, mas a permissão só foi concedida oito anos depois da morte de sua avó: no dia de Ação de Graças de 1994.

“Entrei e lhe dei um abraço”, diz Pelke. Logo em seguida, conta que fitou Paula nos olhos e disse que a perdoava.

O episódio foi o começo da construção de uma relação entre os dois, com trocas de cartas semanais e visitas à prisão –foram 15, ao todo. Mas Pelke nunca perguntou a Paula sobre o crime.

“Sei que a resposta não será boa”, diz.

Superação

Promover o encontro dos autores de um crime com suas vítimas pode trazer benefícios para ambas as partes, afirma à BBC Howard Zehr, professor de Direito da Universidade Menonita do Leste, em Harrisonburg, no Estado americano da Virgínia.

Há décadas, Zehr vem ajudando a unir centenas de criminosos e suas vítimas (ou familiares delas, quando há fatalidades).

O especialista acredita que a frequência dos encontros ajuda a reduzir o trauma. Além disso, permite ao agressor perceber como as pessoas foram afetadas por seu crime.

Ele acrescenta que vítimas de casos graves de violência costumam relatar um alto nível de satisfação.

“As vítimas ficam normalmente presas a essas experiências passadas”, explica Zehr. “As reuniões permitem a eles obter respostas e passar uma borracha no que aconteceu.”

Um dos mais memoráveis para Zehr foi quando um homem que havia estuprado 14 mulheres com menos de 18 anos conheceu encontrou sua mais recente vítima.

“Ela o confrontou com a seguinte pergunta: ‘Como você pôde fazer isso? Você roubou a minha infância!'”, relembra Zehr.

“O estuprador disse que, pela primeira vez, tinha percebido a gravidade do que tinha feito. A mulher o perdoou, mas essa experiência ficará marcada em sua vida para sempre.”

No entanto, Zehr recomenda a vítimas que queiram se encontrar com o agressor que busquem apoio de um mediador.

“O sucesso depende do nível de preparação de ambos os lados e, às vezes, pode levar até um ano”, alerta.

“Como mediador, eu converso com ambas as partes antes do encontro, trato de deixá-las cientes da dinâmica do trauma, bem como das possibilidades de que a expectativa não seja cumprida. O autor pode não ser capaz de responder às perguntas.”

De cabeça para baixo

Vinte anos após a morte brutal de sua filha, a texana Linda White tem dezenas de perguntas ainda não respondidas sobre o dia em que ela foi assassinada.

Em novembro de 1986, Cathy White, de 26 anos, grávida de seu segundo filho, foi sequestrada, estuprada e assassinada por dois adolescentes.

Linda White conheceu o assassino de sua filha 15 anos após o crime, que ocorreu em 1986

Linda White conheceu o assassino de sua filha
15 anos após o crime, que ocorreu em 1986

Como Pelke, Linda encontrou e perdoou um dos assassinos de sua filha, mas o processo levou muito mais tempo: quase 15 anos.

“Para uma mãe, perder um filho é uma injustiça. O mundo vira de cabeça para baixo. Nada me animava e me sentia impotente”, diz ela à BBC.

Como forma de curar o trauma, Linda tentou aderir a um grupo de apoio para vítimas, mas não encontrou o consolo de que precisava.

“Ninguém ali dava sinais de que conseguiria superar o trauma que passou. Eu, por outro lado, não queria continuar cheia de amargura, não queria ficar de luto para o resto da minha vida.”

Linda, que tinha outros dois filhos, passou a cuidar também de sua neta de cinco anos, que estava fazendo terapia para se recuperar da morte da mãe.

Foi essa experiência que a levou a estudar psicologia e, posteriormente, se tornar uma terapeuta de luto.

Legado

Ao ajudar outras pessoas a lidar com a perda e a dor, Linda começou a recuperar o controle de sua vida. Em janeiro de 1997, ela decidiu começar a dar aulas na prisão, uma experiência valiosa que “a curou”.

“Acho que as pessoas podem ser mais do que a pior coisa que fizeram.”

Sua experiência de trabalho com criminosos na prisão resultou em uma decisão ainda mais radical: encontrar-se com um dos assassinos de sua filha, Gary Brown.

Montagem de fotos mostra Cathy White, que estava grávida quando foi morta, em 1986

Montagem de fotos mostra Cathy White, que estava grávida quando foi morta, em 1986

“Eu nunca tinha visto sequer uma foto dele”, diz ela.

Linda queria saber se, anos depois, conseguiria sentir compaixão por Brown.

“Queria que a pessoa que eu me tornei se encontrasse com a pessoa que ele se tornou.”

Foi então que Linda e Ami, sua neta, então com 18 anos, encontraram-se com Brown na prisão em 2001. A conversa durou o dia todo.

“Fiquei surpresa com sua aparência jovem e vulnerabilidade. Foi muito emocionante”, diz ela.

Para Linda, um dos momentos mais difíceis foi ouvir a história do que aconteceu com sua filha antes de morrer.

“Gary nos contou exatamente o que aconteceu, como aconteceu, o desenrolar dos fatos. Foi difícil de ouvir, mas eu estava pronta para aquilo.”

Brown também disse à Linda e a sua neta as últimas palavras de Cathy, antes de matá-la a tiros. “Eu te perdoo, e Deus também.”

“Fiquei chocada ao ouvir isso”, diz Linda.

“Estou muito feliz por estar livre.”

Linda mantém contato com Brown, que agora está fora da prisão e em liberdade condicional. Eles pretendem usar sua experiência para orientar “as crianças e adolescentes que estão indo pelo caminho errado”.

Ela também diz ter outras perguntas ao assassino de sua filha.

“Eu ainda me pergunto como a noite acabou em tamanha violência. Por que ela foi estuprada? Os meninos não tinham antecedentes de violência”, diz ela. “Quando estiver preparada, quero fazer a ele essas perguntas cara à cara.”

Apesar das dúvidas que persistem, Linda diz ter encontrado em Brown sua sanidade.

“Se você deixar sua vida ser tomada pela dor, é como se o crime acontecesse de novo e de novo. Você acaba amarga. É como se a única lembrança que você tivesse de seu ente querido fosse contaminada por essa amargura”, diz ela.

“Às vezes, a gente acha que buscar um caminho para solucionar a dor, ou a cura, é uma espécie de traição com a pessoa que foi morta, mas não é.”

Como Linda White, Bill Pelke quer manter contato com Paula Cooper, que foi libertada em junho, depois que sua sentença foi revogada e sua pena reduzida por bom comportamento na prisão.

Enquanto Paula estava presa, Pelke fazia campanha por sua libertação.

“Estou muito feliz por vê-la livre”, diz ele.

Pelke tem consciência de que muitas pessoas nunca conseguirão entender sua atitude. Mas para ele a decisão de perdoar mudou sua vida.

“Se você se apegar à raiva e ao desejo de vingança, isso acaba se tornando um câncer e pode destruí-lo”, diz ele. “Tenho certeza de que fiz o que deveria ser feito.”

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