No Brasil de hoje, crianças recebem tratamento do século passado

foto: Reprodução /Globo Repórter

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Amelia Gonzalez, no G1

Quando a mulher de um fazendeiro precisava de alguém para ajudá-la nos afazeres domésticos da casa na cidade, pedia ao marido que lhe trouxesse, do interior, uma menina. Essa menina, a quem geralmente a empregada mais velha ensinava os hábitos da família, ia ficando na residência e recebia como pagamento pelo trabalho duro que fazia, muitas vezes, a “oportunidade” de sair da roça, fazer contato com a cidade grande. Se os patrões eram “generosos”, ela ainda podia ter a possibilidade de aprender a ler e a escrever com os filhos menores. Se não, ficava analfabeta e ainda tinha que agradecer o quarto dos fundos para dormir numa cama limpa e tomar banho de chuveiro.

Era assim no século passado, há 30, 40 anos. Mas ainda pode ser assim hoje, por incrível que pareça, no interior do Brasil.

Termina amanhã, em Brasília, a terceira Conferência Global sobre Trabalho Infantil, onde os especialistas estão debatendo, ouvindo e refletindo sobre o fato de ainda existir, no mundo, 168 milhões de crianças que trabalham. Aqui no Brasil, a maioria está na agricultura. Mas há casos de escravidão doméstica, muitas vezes em que os adultos, por absoluta e total privação, não conseguem criar outro jeito para viver e cuidar dos filhos menores que não o de usar a criança mais velha. E há também, como o exemplo que dei acima, casos em que os adultos são seres autoritários, ditatoriais, que decidem a vida de alguém mais pobre, geralmente oferecendo pouco e exigindo muito.

Conversei com Gerson Pacheco, diretor nacional da Child Fund Brasil, ONG que há mais de 45 anos trabalha na área do Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres do Brasil, que fica em Minas Gerais, para diagnosticar casos de trabalho infantil e tentar dar solução para esse problema.  Segundo ele, um dos pontos mais sensíveis é buscar a consciência dos adultos de uma casa de família pobre, convencê-los de que o melhor para todos é que a criança tenha uma outra relação com a vida:

– Não é um trabalho que se consegue fazer e ter resultado de uma hora para a outra. Se alguém disser que consegue isso com menos de 15 anos de atuação na comunidade, é balela.  A primeira coisa que precisa ser feita é tirar a dependência que a família tem do trabalho daquela criança. Existe uma cultura também, muito enraizada, que permite aos pais usarem o trabalho do filho mais novo, quer seja na enxada, quer seja nos cuidados com a casa – disse ele.

Pode ser cultural, mas também pode ser mais do que isso. Um estudo que revela o índice de vulnerabilidade social do Brasil por censitários feito pelo IBGE mostrou que 8 milhões de crianças brasileiras só fazem uma refeição por dia, revelou-me Pacheco.  Se quiserem comer mais, só trabalhando.  Não entendem o mundo com a visão lúdica que caracteriza o pensamento infantil. Para elas, assim como para seus pais, a vida cobra caro.

Vemos isso muito claramente, por exemplo, no livro do sociólogo Jessé Souza, “Os batalhadores brasileiros” (Editora Humanitas). É uma tese, em que ele relata os resultados de uma pesquisa qualitativa que fez Brasil afora com as pessoas que hoje recebem o nome de “nova classe média” e que ele prefere nomear com a expressão do título do livro.

A grande maioria dos personagens de seu livro – brasileiros que ilustram o desempobrecimento do país nos últimos dez anos – começaram a trabalhar cedo e cedo aprenderam a sacrificar o lazer em favor de uma estabilidade futura. Paulo, por exemplo, um pedreiro que hoje trabalha por conta própria, mora numa casa que ele mesmo construiu e consegue ajudar as filhas a estudarem na universidade, conta que aos 7 anos foi trabalhar com o pai, “candeando” (iluminando o caminho) os bois. Vejam o relato de Jessé Souza:

“Os dois filhos mais velhos da família, ao completarem 7 anos, foram mandados para trabalhar em uma fazenda. Paulo tinha que cuidar dos irmãos menores…. Mas brigas entre os irmãos eram intoleráveis… A estrutura dessa família é a ética do trabalho duro, ancorado, principalmente, em um aprendizado prático do trabalho transmitido cotidianamente às filhas, seja através de conselhos (“filha, ocê tem que ajudar a mamãe”), seja na prática efetiva, como o ensinamento do trabalho doméstico e do crochê”.

Essa realidade, confrontada pelo legítimo desejo de transformá-la, de alguma forma, para ajudar a sociedade brasileira a ter indivíduos mais livres e criativos, precisa de algo mais do que uma ajuda financeira. Vivemos num momento bom para refletir sobre sistemas excludentes e pensar em alternativas.

A Child Funds foi buscar na Holanda uma tecnologia, ferramenta para unir pessoas, elevar sua estima, ensiná-las a poupar o dinheiro.

– É uma guerra, e nós temos o arsenal – justifica Gerson Pacheco – tenho 75 indicadores sociais sendo monitorados, tenho uma equipe grande, trabalho em parceria com a Fundação Dom Cabral, o IBGE, a OIT. Preciso ser auditado, ter um padrão alto, senão o brasileiro não acredita naquilo que faço, acha que é “pilantropia”. Assim, a Child Funds é, sim, quase uma corporação. Digamos que a Fiat faz carro e eu cuido de vida, mas a infraestrutura é a mesma, o padrão é igual.

Nos bastidores dessa guerra estão pessoas. Que dormem e acordam no dia a dia criando soluções. Às vezes, a solução é deixar o menino pequeno sendo cuidado pelo menino maior. Lembro-me, com uma nitidez impressionante, de uma reportagem que fiz em 1993 para o jornal “O Globo” mostrando que, diferentemente do que se acreditava ainda na época, a fome não estava só no Nordeste, mas aqui bem próximo de nós. Fui à Favela do Chatuba, na Baixada Fluminense, onde a equipe da Pastoral da Criança fazia um excelente trabalho distribuindo multimistura e, caminhando entre os barracos, um deles me chamou a atenção.

Lá dentro havia uma televisão de, no máximo, 17 polegadas em cima de um móvel, que estava ligada mas com a imagem totalmente desfocada; um fogão imundo com panelas onde se via apenas restos de comida estragada; uma cama com um colchão sujo onde estava deitado um bebê. Olhando fixamente para a televisão e com uma das mãos sobre a barriguinha da criança estava um menino de 6 anos. Era ele quem tomava conta da irmã enquanto a mãe trabalhava catando lixo no lixão de Gramacho.

A cena apenas ilustra com dose de realidade e endossa a dificuldade de se mexer nessa realidade – mãe que trabalha e precisa de alguém para cuidar do filho menor – sem mexer em todo um sistema de miséria, de falta de acesso à saúde para as mulheres saberem que é possível evitar filhos etc, etc. Tanto o menino que ajuda o pai na roça “candeando” boi quanto o outro, que na vida urbana ajuda a mãe cuidando da casa, são brasileiros que poderiam estar se ferramentando melhor, com mais chances, do que viver na infância a vida já sofrida de adultos.

Mas, para mostrar que a vida também pode apresentar régua e compasso num momento em que tudo leva a desacreditar, vejam o que aconteceu com o menino que encontrei na favela. A história dele foi para o jornal e mexeu com o coração de um casal de brasileiros que morava fora do país (não consigo agora me lembrar exatamente em que país). Eles resolveram “adotá-lo”, oferecendo ajuda financeira para cursar até a faculdade e tirar a mãe daquela vida, além de possibilitá-lo conhecer o país onde viviam.

Desculpem-me, mas fico devendo a continuação. Não sei quais os caminhos que ele trilhou depois disso…

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