A Câmara de Piracicaba e o “Dia dos Valentes de Josué”

Vereadores passam, agora, a provocar a população com propostas que ridicularizariam qualquer Poder Legislativo. Até quando, Catilina?

Cecílio Elias Netto, no A ProvínciaAnel-caido

Cerca de meio século antes de Cristo, um pouco mais, o grande tribuno romano, Cícero, pronunciou alguns discursos – enfrentando e repudiando o poderoso Catilina – que passou para a história como “Catilinárias”. As novas gerações – a quem foi sonegado um mínimo da cultura clássica – nunca ou pouco ouviu falar das célebres orações. Mas Cícero – indignado com o propósito de Catilina de derrubar e desmoralizar o Senado romano – bradou: “Quousque tandem Catilinina patientia nostra?” Ou simplesmente isso: “Até quando, Catilina, tu abusarás da nossa paciência?”.

Ora, não precisa ser um Cícero – mas qualquer do povo – para se indignar cada vez mais e de forma crescente com o procedimento da Câmara de Vereadores. Agora, não apenas já beira o ridículo mas se transforma em clamoroso acinte, tais os abusos, os privilégios, os toma-lá-dá-cá que vão tornando aquela Casa – que deveria ser o verdadeiro porto seguro do povo – como que em uma modernosa “cosanostra”. Vale tudo, fazem-se quase todas as trocas, parece ter-se perdido o verdadeiro significado do que seja o Poder Legislativo, sua responsabilidade, suas atribuições, sua finalidade constitucional e democrática. E, mais do que ameaça, parece já se tornar realidade Piracicaba ver sua Câmara de Vereadores ir-se transformando em simples apêndice de sociedades e pastores evangélicos.

Pois, agora, a Câmara de Vereadores de Piracicaba votou e aprovou um projeto de um dos evangélicos da Casa – criando nada mais, nada menos do que o “Dia dos Valentes de Josué”, promoção da Assembléia de Deus da qual o líder é o já muito falado Pastor Dilmo dos Santos. Essa criação do eclético pastor – religioso, político, empresário – visa angariar fundos para os missionários da igreja. E, no dia agora oficial dos “Valentes de Josué”, aguarda-se a chegada de milhares de fiéis que devem trazer contribuições, colchões, para a grande festa de arrecadação de fundos. Como foi possível a Câmara Municipal tornar oficial uma verdadeira festa de arrecadação de fundos para supostas causas missionárias? Será que o Cerimonial da Câmara fará toda a cobertura, com despesas e mais despesas como tem ocorrido nos últimos tempos?

Aqueles que se preocupam com o estado laico – muitos deles, na verdade, pouco sabendo do que se trata – haveriam de, rapidamente, protestar contra esse envolvimento de política e religião. Mas não é tão simples. O laicismo é muito mais complexo e não separa, com tal simplicidade, igreja e estado. Há a liberdade humana da escolha da própria religião e o direito de manifestá-la. No entanto – em resumo bem simples – o estado religioso não pode pretender o controle do estado, que é laico. Trata-se do respeito à autonomia de instituições e indivíduos. Na Câmara de Piracicaba, tudo está levando a crer que vereadores evangélicos impõem as suas crenças e interesses no exercício de um poder laico. Como é que dona Kátia – a verdadeira chefa do Legislativo nos últimos tempos – não advertiu os seus subordinados a respeito disso?

Um “Dia dos Valentes de Josué”? Passemos a dar razão ainda maior aos legítimos protestos do “Reaja Piracicaba”, à sua indignação que tanta falta está fazendo a lideranças políticas e à sociedade civil. A Câmara de Piracicaba se assemelha, como um todo, ao desastrado Catilina. As provocações se tornaram achincalhes. “Quousque tandem, Câmara, abutere patientia nostra?” Ou em português claro e pleno de saturação: “Até quando, Câmara, abusarás da paciência nossa?” Estão provocando o quê? A queda da Bastilha? Bom dia.

dica do Sidnei Carvalho de Souza

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