Tribo de paulistanos quarentões com alma adolescente resiste às críticas

O produtor Rick Levy, 40, em casa norturna no centro de São Paulo; ele frequenta a noite paulistana desde os 17 anos de idade

O produtor Rick Levy, 40, em casa norturna no centro de São Paulo; ele frequenta a noite paulistana desde os 17 anos de idade

Regiane Teixeira, na Folha de S.Paulo

Completar 40 anos não mudou em nada o guarda-roupa do produtor Rick Levy. Há duas décadas, ele é figura comum em shows e casas noturnas da cidade. Sempre usando tênis, jeans e uma camiseta de banda (as preferidas: Sonic Youth, Pulp, Happy Mondays e Stone Roses).

Rick viu o tempo passar nas baladas: o rock alternativo virou “indie rock”, o público das baladas se renovou, e os amigos antigos deixaram a boemia para casar.

“Tinha 17 anos na primeira vez que sai à noite, na rua Augusta, e encontrei meu mundo”, conta. “E esse ainda é meu mundo.” Hoje, ele circula à noite ao menos duas vezes por semana, acompanhado por amigos na faixa dos 20 anos.

O produtor integra uma fatia da população que leva a vida sem responsabilidades como filhos, financiamento imobiliário e ter de trabalhar de terno e gravata.

Gente que mantém os mesmos hábitos de quando mais jovem é tachada pela sociedade de “Peter Pan”, o menino que não queria crescer jamais, ou “adultescente”.

Mas, para alguns especialistas, isso não significa imaturidade. “É fazer juízo de valor, não dá para dizer se é certo ou errado”, afirma o psicólogo Antônio Carlos Amador Pereira, da PUC-SP.

A chamada “síndrome de Peter Pan” não existe clinicamente. É um termo que se popularizou a partir de 1983, com o livro “The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up” (a síndrome de Peter Pan: homens que nunca cresceram), do americano Dan Kiley.

A teoria da obra: os que se recusam a amadurecer seriam incapazes de estabelecer uma identidade, uma carreira e um relacionamento amoroso duradouro e estável.

A discussão é balzaquiana, mas está cada dia mais atual. Em setembro, psicólogos britânicos foram orientados a considerar o período da adolescência até os 25 anos, e não mais até os 18.

A tendência de adiar escolhas também é notada em dados sobre a população brasileira -nosso Estatuto da Juventude, aliás, considera jovem quem tem entre 15 e 29 anos.

O Censo 2010 mostrou que as pessoas estão casando mais velhas: homens, em média, com 28 anos, mulheres, com 26. Ambos três anos a mais do que na pesquisa de 2000.

No mesmo período, o número de mães com idades entre 15 e 19 anos caiu, enquanto a maternidade entre os 30 e 34 anos aumentou. Além disso, um em cada quatro jovens adultos, com idades de 25 e 34, ainda não saiu da casa dos pais.

“Questões como comprar uma casa ou ter filhos começaram a ser adiadas porque vimos que existem outros jeitos de se viver”, afirma a professora do Instituto de Psicologia da USP Adriana Marcondes.

Para ela, as escolas e os pais influenciam a vida de crianças que, no futuro, se “peterpanizarão”, evitando responsabilidades. “Há um sistema que passa a informação de que é possível conseguir as coisas sem muito esforço”, afirma.

Para o professor da faculdade de psicologia da PUC-SP Miguel Perosa, ao procrastinar a vida adulta, a pessoa tenta não pular de um mundo de cooperação para um de competição.

“GUERRA NAS ESTRELAS”

O corretor Luís Rebello, 57, em foto sobreposta com sua prancha de surf e o jardim de sua casa, na Vila Mariana (foto: Davi Ribeirol/Folhapress)

O corretor Luís Rebello, 57, em foto sobreposta com sua prancha de surf e o jardim de sua casa, na Vila Mariana (foto: Davi Ribeirol/Folhapress)

Pierre Mantovani, 38, passou a usar camiseta do filme “Guerra nas Estrelas” e a jogar videogame após os 35 anos. Foi nessa época que vendeu sua agência de publicidade para investir num site de cultura pop. Casado e com uma filha de sete meses, gasta cerca de R$ 1.000 por mês com gibis e miniaturas de personagens.

“Tenho até um abajur do Darth Vader ao lado da cama”, diz. No mês passado, Pierre encomendou uma pesquisa para saber qual o perfil de seus leitores e descobriu que não está só. “Dos 5.000 entrevistados, 25% têm de 29 a 36 anos”, conta ele, que é diretor do site Omelete.

Se ele é um executivo que usa até cintos do caçador Boba Fett de “Guerra nas Estrelas”, há adultos que não chamam atenção por preservar gostos “infantis” -e que mesmo assim têm comportamento “adultescente”.

A advogada Gabriela Machado, 32, se divide entre o orgulho de ter um pai que pratica esportes como surf e a preocupação com suas trapalhadas financeiras.”Ele não tem convênio médico e ignora coisas como fazer declaração de Imposto de Renda.”

Luís Rebello, 57, o pai, mora com uma irmã e o cunhado. Tem um quarto apenas para guardar coisas como barracas e pranchas. Passa horas narrando aventuras por praias brasileiras. Só muda de assunto quando é questionado sobre suas finanças.

Para ele, é preciso “entender o contexto” para decifrar seu estilo de vida. “Passei a infância inteira entre uma casa na praia e uma fazenda.”

O gerente de marketing Paulo (nome fictício) tem 38 anos e sempre é chamado por amigos e pela família de “Peter Pan” porque anda de skate e usa roupas de adolescentes.

O apelido o incomoda menos do que se sentir julgado por seu visual. “Já notei gente me olhando diferente, me achando moleque, no elevador ou no trânsito”, diz ele, que paga o aluguel de um apartamento em Perdizes e tem carro próprio. “Ao mesmo tempo, amigos bem sucedidos dizem que sentem inveja.”

Apesar do alívio de viver como gosta, teme a chacota: um dia após a entrevista, pede para não ter seu nome divulgado na sãopaulo.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Tribo de paulistanos quarentões com alma adolescente resiste às críticas

Deixe o seu comentário