Maracanã: concessionária exige barba feita e desodorante a funcionários

Plano de execução entregue ao governo enumera regras de etiqueta e descreve até whisky consumido pelo público-alvo em áreas de hospitalidade

Seguranças contratados para trabalhar no Maracanã: código de etiqueta (foto: Andre Durão)

Seguranças contratados para trabalhar no Maracanã: código de etiqueta (foto: Andre Durão)

Marcelo Baltar e Vicente Seda, no Globo Esporte

A reforma do Maracanã promoveu uma mudança de conceito não apenas na gestão do estádio, mas na experiência proporcionada ao torcedor ao assistir uma partida de futebol. Ingressos mais caros, assentos confortáveis, telões de última geração, sistema de som idem, câmeras por todo lado, segurança privada no lugar de policiais militares e serviços bem diferentes dos oferecidos no antigo Gigante do Derby. Dentro da concessionária que venceu a licitação para a gestão do estádio pelos próximos 35 anos, a mesma estratégia é aplicada. O Complexo Maracanã S.A. incluiu, já no seu projeto de execução anexado ao contrato de concessão, obtido pelo GLOBOESPORTE.COM, regras para os funcionários que vão desde exigências por “barba feita“ e uso de desodorante à imposição de não ter tatuagens visíveis para trabalhar na empresa. No mesmo plano de execução, é descrito ainda o público alvo para as áreas mais caras do estádio. Indivíduos com casas de veraneio, cavalos e barcos próprios, que dirigem carros importados e consomem whisky de alto padrão.

No item 4.2.3.5 do plano de execução proposto pela concessionária, a empresa enumera regras de etiqueta para os seus funcionários, incluindo temporários. O documento cita que o funcionário tem “apenas uma única oportunidade para causar uma boa impressão ao torcedor ou visitante do Novo Complexo. Assim sendo, a aparência se torna parte essencial para uma experiência inesquecível“.

O texto segue dizendo que as normas de etiqueta devem ser seguidas sem exceções e ressalta que “a etiqueta profissional não se restringe ao cabelo, barba e unhas, mas sim na apresentação como um todo do funcionário. Antes de apontar a lista de normas, o plano de execução diz ainda que não cumprir as regras de etiqueta implica em ações disciplinares.

A lista começa com a obrigatoriedade de uso do uniforme de forma apropriada, limpo e passado, e sem alterações, com crachá do lado esquerdo do peito. O funcionário tem obrigação de providenciar sapatos antiderrapantes, “seguros, em bom estado e limpos para o trabalho“, com sola de borracha. O documento veta o uso de broches e restringe os cortes de cabelo (bonés também aparecem como vetados, mas atualmente fazem parte do uniforme oficial dos orientadores em dias de jogos).

Para mulheres, “cabelos mais compridos que os ombros serão mantidos presos em coque, trançado ou em rabo de cavalo. Para homens: corte profissional que não estenda cabelos na nuca ou cubra as orelhas. Qualquer corte extremo, desenhos e aplicação de tinturas excêntricas não serão permitidos. A discrição deverá ser mantida no local de trabalho“.

Resolvido o cabelo, a lista segue para a barba. Não é permitido funcionário com barba a fazer. Mas “barba, bigode e costeletas serão aceitos se aparados uniformemente“. Unhas limpas são outra exigência e, para mulheres que resolverem pintá-las, que o façam em tons discretos. A preocupação da concessionária com o odor fica evidente no item seguinte: “O uso de desodorante será essencial“. Perfumes são permitidos, “porém a essência deve ser discreta“. Tatuagens e piercings visíveis são proibidos. Acessórios “pequenos e discretos“. Somente um anel por mão é permitido, mesmo para mulheres, que devem usar ainda “maquiagem discreta e natural“.

Por e-mail, a assessoria da concessionária Maracanã explicou que as medidas são necessárias para evitar “desconforto”, já que o Maracanã recebe visitantes dos mais variados lugares e diferentes culturas.

– O Maracanã recebe pessoas de diferentes países, com manifestações culturais e religiões variadas. O que pode não ser ofensivo para um grupo cultural, pode desagradar a outro. A preocupação da concessionária é justamente não provocar nenhum desconforto em públicos mais sensíveis.

Contrato cita características do mercado-alvo da concessionária do Maracanã (foto: Reprodução )

Contrato cita características do mercado-alvo da concessionária do Maracanã (foto: Reprodução )

Análise de mercado

Também no plano de execução, consta a estratégia de comercialização das áreas nobres do estádio pela concessionária. Divide o mercado-alvo em quatro partes, diferenciando empresas de pequeno, médio e grande porte. Entre as companhias de grande porte, a concessionária destaca a indústria naval, turismo, ferro e aço, têxtil, refinaria de petróleo e automotiva. Depois, a concessionária descreve outra parte do público-alvo, “indivíduos com alto poder aquisitivo“. O texto diz que “haverá uma forte demanda de hospitalidade corporativa por indivíduos que seguem o futebol e o Flamengo\Fluminense. Este grupo-alvo é susceptível a representar o maior percentual de compradores de assento premium“. A regra aplicada para o preço desses assentos, segundo o documento, é que o custo de dois lugares premium não ultrapasse 5% da renda anual do comprador. O item fala ainda da “família do futebol“, termo empregado com frequência pela Fifa, que se refere a pessoas diretamente ligadas ao esporte no estado (dirigentes, patrocinadores e outros).

A descrição do público alvo vai dos carros dirigidos pelos possíveis clientes ao whisky de preferência dos abastados. O item descreve “torcedores de clubes que normalmente não frequentariam partidas de futebol, por se preocuparem com questões de segurança e conforto“. Segundo o plano, esse público alvo dirige “BMWs, 4x4s, Land Rovers, Mitsubishi“, não costuma fazer poupança com grande parte da renda disponível, tem residências próprias para veraneio, barcos e cavalos próprios, gostam de roupas luxuosas de grife, bebem Gold ou Blue Label da marca escocesa Johnnie Walker e moram no Leblon, Ipanema, Gávea, Jardim Botânico, Barra da Tijuca e “etc.“. Os preços estimados de ingressos descritos no plano de negócios da concessionária vão de R$ 50 (fã tickets atrás do gol) a R$ 500 (por pessoa no camarote corporativo, no centro do estádio).

Camarote do Maracanã é uma das áreas mais caras do estádio em dias de jogos (foto: Erica Ramalho)

Camarote do Maracanã é uma das áreas mais caras do estádio em dias de jogos (foto: Erica Ramalho)

Concessionária explica análise de mercado

Questionada sobre o perfil do público alvo da análise de mercado, a concessionária afirmou que há serviço para todo perfil de público identificado no contrato. A empresa disse ainda que busca um novo local para construção do edifício-garagem, parte importante do plano de conforto para os usuários das áreas nobres do Maracanã.

– Há serviços e produtos para todo perfil de público identificado na análise de mercado. O estádio é um espaço para todos e deve ter atendimento diversificado. Sobre o edifício-garagem, a concessionária busca um novo local para a construção – afirmou, por e-mail, a assessoria da concessionária.

Indagada a respeito de quais outros perfis estavam indicados na análise de mercado, a empresa respondeu que o estudo só foi feito para exploração dos setores premium.

– O estudo foi feito para traçar o perfil do potencial público das áreas premium. Não foi feito estudo para os demais públicos por já se tratar do público tradicional do estádio. O que observamos é que devido ao conforto das cadeiras e segurança no estádio, o público de famílias, mulheres e crianças aumentou.

O contrato de parceria público privada número 27/2013 foi assinado no dia 4 de junho pelo governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, o secretário de Esporte e Lazer, André Lazaroni, o presidente do Complexo Maracanã Entretenimento S.A, João Borba, e seu vice, Bruno Barbosa Wegmann da Silva. O GLOBOESPORTE.COM obteve a íntegra do documento, de centenas de páginas, através de pedido feito pela reportagem através da lei de acesso à informação. A cópia do contrato foi liberada em cerca de 20 dias.

 

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