Evento com filósofo mostra a PMs cariocas alternativa ao ‘pé na porta’

PMs assistem palestra do filósofo francês Frédéric Gros, na Academia Dom João VI, na zona oeste do Rio de Janeiro (foto: Rony Maltz/Folhapress)

PMs assistem palestra do filósofo francês Frédéric Gros, na Academia Dom João VI, na zona oeste do Rio de Janeiro (foto: Rony Maltz/Folhapress)

Publicado na Folha de S.Paulo

Discutir a “violência interior” em um evento organizado junto com o jornalista e filósofo Adauto Novaes e a FLUPP (Festa Literária das UPPs) foi a forma encontrada pelo coronel Íbis Pereira para levar aos futuros policiais uma alternativa de pensamento contrário à cultura do “pé na porta” ainda amplamente vigente no país.

“É muito difícil mudar essa cultura. A nossa PM não é muito atrativa, ainda é formada por jovens de classe média baixa. Precisamos ter gente que não se deixa contaminar pela violência”, diz.

A Folha assistiu a duas das 12 aulas ministradas aos soldados e futuros oficiais. Numa, o filósofo francês Frédéric Gros reconheceu, a uma plateia de 450 jovens: “É sempre assustador estar diante de jovens com uma função tão difícil. Falar em violência policial é sempre insuportável”, afirma.

Gros lembrou em 1 h 30 de conversa que as raízes internas da violência passam pela desconfiança, pelo medo, pela paixão e pela glória.

Na plateia, os jovens querem saber como agir, por exemplo, diante das manifestações. Íbis entra no debate. Diz que a grande dificuldade, nesse caso, é que ela é praticada por dois lados -policiais e mascarados.

“Se fosse só a violência policial era fácil de resolver: acabava-se com a polícia. Mas é muito mais complexo que isso. Precisamos buscar estratégias, não apenas o Batalhão de Choque”, afirma.

A iniciativa de juntar policiais e filósofos em um mesmo ambiente não foi fácil, mas acabou elogiada.

“A aceitação é difícil, ainda mais com uma garotada que sonha em ser o capitão Nascimento”, diz o filósofo e jornalista Adauto Novaes.

“Tomara que a prática se repita e assim criarmos uma cultura na corporação”, diz o historiador Julio Ludemir.

O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, é um dos entusiastas da linha do coronel Pereira. “O coronel Pereira e o Antônio Carlos Carballo são excelentes cabeças. São vários como eles numa corporação de 50 mil pessoas. Esse é o problema: uma coisa combinada no gabinete, às vezes, não chega às ruas”, reconhece.

Hoje diretor de ensino da PM, o coronel Íbis chegou a coordenar a Escola de Formação de PMs. Em 22 meses, fez da biblioteca da escola uma referência na zona oeste do Rio. “Ninguém entende mais do lado sombrio da alma humana que Dostoievski. O policial precisa saber disso para se entender”, afirma.

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