Brasil: A educação musical infantil é ridícula!

aquarela-toquinho-animacao-3Diego Schaun, no Terra Magazine

E depois do trabalho, você chega em casa e acha que o mundo é melhor, só por poder tomar um banho quente, comer um pão com queijo e depois assistir à rodada do brasileirão de quarta-feira. Vida boa não é? Só os asnos reclamam. Porque os asnos têm muita coisa pra fazer. Carregar cestos pesados, zurrar, galopar em semicolcheias, rir sem rir, feder e uma série de outras coisas infinitas no infinitivo.

Sim a vida é boa. Os pormenores que acontecem todos os dias são pormenores. Enquanto o percevejo não furar o nosso pé ele sempre será inofensivo. Sempre será percevejo. Porque as desgraças do mundo só são desgraças lá no mundo. Aqui em casa não acontecem desgraças. Se um dia surgirem por aqui aí sim serão desgraças. Assim como os percevejos.

Outubro poderia ser o mês das crianças. E já não é? Nossa Senhora Aparecida, Dia das Crianças, Dia das Bruxas, lançamentos da Rockstar Games, a união de Marina e Eduardo, a lua que está prestes a minguar e o Vasco, que mesmo ganhando perde. Diria que este é um mês infantil. Um mês importante, já que todos já foram infantes.

Comecei a estudar piano aos 8 anos de idade. Ouvi boa música quando era pequeno, mas não dei tanta importância a isso. Os Mamonas Assassinas marcaram a minha infância. Chico Buarque? Jamais. Ouvia e tocava música brega. De Sandro Lúcio à Waldick Soriano. Imitei Netinho, KLB e o que surgia na época. Mas parece que cresci. Agora tenho bigodes, um par de argolas nas orelhas e milhares de músicas chatas no celular. Músicas chatas.

Tudo que eu ouvi quando pequeno ficou guardado na cachimônia. 18 anos depois veio à tona. Demora mas chega. Eis o grande problema. Só se pode receber alguma “coisa” quando essa “coisa” já partiu de algum lugar. E quando nada parte de lugar algum? Nada chega? Chega nada?

Essas crianças que nasceram no ano 2000 correm o risco de não receberem encomendas. Ninguém posta nada pra elas.  Daqui a 18 anos nada virá à tona e a maratona estará fadada. Incrível como isso é clássico e verdadeiro. Boa parte da população, principalmente a mais carente, não tem acesso à boa música. Sim, também não tem boa água, casa, luz, comida, atenção… Mas a problemática aqui é música. As mazelas do mundo são mais conhecidas que Jesus de Nazaré.

A inclusão de música nas escolas virou lei federal há quase 6 anos. Faça uma breve pesquisa na sua cidade e saiba quantas já aderiram à lei, que tinha até 2011 para ser adaptada às escolas. Achou alguma? Pois é, eu também não. Quem sabe daqui a 18 anos venha à tona. Mas a questão não é essa. A criança brasileira que é pobre, marginalizada, excluída de qualquer humanização, não conhece a música chata. As ricas também não conhecem, enfim. Estes mini-homens ouvem, quando podem, o que há de pior na música. Os caras que produzem letras de merda, depreciativas, pornográficas e desgraçadas encontram alvos fáceis em terras virgens, férteis, e sedentas. Porque toda criança é sedenta. E o que estará no auge agora, virá à tona 18 anos depois. E daqui a 18 anos eu estarei na casa dos quarenta, observando de longe as encomendas chegando…

Outro dia uma criança me perguntou: Tio, o que é uma caixa oca? Na ocasião, estava dando uma aula de violão e explicava, momentos antes, que o violão é uma caixa de madeira acústica, oca. Tentei exemplificar, mas não consegui, por mais simples que pareça. E ficou aquele vazio na cabeça dela, na minha e no tempo. Minutos depois, comecei a dedilhar a música Aquarela. Outra aluna, naquela mesma aula, começou a chorar. Beliscão do colega? Dor de barriga? Saudades da mãe? Tédio? Não… Ela simplesmente estava, aos 8 anos de idade, emocionada por ter escutado aquela canção. Quem de vocês tem essa sensibilidade? Quem de vocês chora ao ouvir uma música clássica, histórica, densa… ? A menina não fazia a mínima ideia de quem fora Vinícius de Morais. Toquinho, para ela, é um pedaço de toco. O violão é uma caixa oca. Ela mal sabe ler, vive numa realidade inimaginável. Não se alimenta bem. As roupas são trapos. Cabelos assanhados. Cárie nos incisivos. Coração sensível…

Jamais vou me esquecer dessa cena. Na casa dela, possivelmente ninguém conhece nada de música. Na rua dela os refrões são bundinhas que descem até o chão e os monossíbalos, que são semelhantes aos zurros daqueles asnos que só reclamam da vida.

Daqui a 18 anos a encomenda vai chegar. Caixas ocas? Em todo o caso sim. Mas estaremos aqui reunidos como estavam em Jerusalém para esperarmos os frutos podres caírem das árvores que agora plantamos. A música salva. Porém, é besteira investir em educação musical. O pré-sal é mais importante porque gera renda, dinheiro, bufunfa, oncinha, mala, falcatrua, almoço em família no domingo, caríssimo por sinal, automóveis, putas de luxo, estádios, refrões monossilábicos, banhos quentes, pães com queijo, rodadas do brasileirão, facebook, hidratante de pele e a xerox. Para manter o sistema eles precisarão de infinitos asnos no infinitivo a zurrar e sorrir e zurrar e sorrir e zurrar e sorrir e zurrar…

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