Corrente do bem

correnteSilvia Corrêa, na Folha de S.Paulo

Basta uma rápida busca na internet que os muitos casos tomam a tela.

A gata Themis, de três meses, que teve os olhos arrancados com uma caneta por um menino de 11 anos em Valparaíso de Goiás, em Goiás. Os quatro cães que morreram amarrados a trilhos de trem em Lorena, São Paulo. O filhotinho Tender, agredido a facadas por chorar à noite, em São José do Rio Preto. As cenas que mostram uma mulher e seu filho pequeno agredindo, a pontapés, o poodle da família em um apartamento em Porto Alegre.

Na origem de sucessivos casos de maus-tratos, não há dúvida, está a impunidade. A condenação é rara. E, quando vem, não passa de um ano de prisão, pena trocada com facilidade por meia dúzia de cestas básicas.

Chicão foi mais uma dessas vítimas. Apareceu numa rua do parque do Carmo, num sábado à tarde, com uma facada nas costas. Tinha dor. Não deixava ninguém chegar perto. Vira-lata, ensanguentado, sujo e agressivo: tinha tudo para ficar na rua. Mas foi aí que uma inacreditável rede de solidariedade se formou em torno do rabugento Chicão.

Lora, uma moradora da rua, ligou para a irmã, Maria, manicure em um salão em um bairro vizinho. Maria fazia as unhas de Bete, uma administradora de empresas. Bete ligou para uma amiga veterinária, um amigo tosador, a polícia, o CCZ, o Corpo de Bombeiros.

O soldado esclareceu que eles não têm estrutura para socorrer animais. Bete insistiu. O soldado falou com a chefe, uma apaixonada por bichos. Sugeriu que uma equipe fosse ao local, afinal o animal estava bravo e poderia morder alguém. Ela autorizou!

Foi assim que Lora, Maria, seis bombeiros e vários moradores da rua colocaram Chicão no carro de Bete, há pouco mais de 20 dias.

Chicão foi internado e passa bem. De bravo não tem nada. Tinha era medo. Agora, procura uma família onde possa curar suas outras cicatrizes. Aquelas que a gente não vê.

Não há dúvida: uma pessoa agrediu Chicão. Mas prefiro lembrar das outras dezenas que se mobilizaram para salvá-lo. Afinal, é preciso acreditar que elas são maioria.

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