A incrível história da professora brasileira do MIT que largou tudo para dançar tango

Publicado no Gluck Project

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Toda a arte deste post foi feita pela designer e ilustradora gaúcha Laura Salaberry

A paulistana Daniela Pucci chegou cedo ao topo da carreira. Sempre foi uma excelente aluna – das que ficam em primeiro lugar da turma – e se formou em engenharia de computação na Unicamp com uma das melhores notas da história da universidade. Seu doutorado na prestigiada Standford University foi o melhor do ano, no seu departamento, e ganhou um prêmio internacional como o melhor de sua área, em 2002. Em 2003, aos 28 anos, Daniela foi aceita como professora do departamento de engenharia mecânica do MIT – considerado a melhor universidade do mundo pelo QS World University Rankings. Nessa época, Daniela ficou conhecida no Brasil e deu entrevistas contando sua trajetória de sucesso para grandes veículos de comunicação como a Folha de S. Paulo e a Veja. Mesmo com tudo isso, estava mergulhada em sofrimento e crise. Seu prazer era o tango que praticava cinco vezes por semana. Uma viagem à Buenos Aires lhe apresentou Luis Bianchi, dançarino profissional, e grande amor de sua vida. Depois de muita reflexão e planejamento, Daniela largou tudo para viver de dança ao lado do companheiro.

Conheça a incrível história da professora do MIT que virou dançarina de tango, na entrevista exclusiva abaixo.
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Vamos começar pela sua formação acadêmica. Você se formou na Unicamp como a melhor aluna da sala, né?
Sim, me formei em engenharia de computação em 1997 como a melhor aluna da turma. Na verdade, em 2007, fui homenageada como um dos dois melhores alunos na história da engenharia elétrica. Meu doutorado foi na Stanford University, na Califórnia. Recebi dois prêmios no final do curso. Um foi dado pelo meu departamento (Management Science and Engineering) por ter tido o melhor rendimento acadêmico entre os alunos que se formavam naquele ano. O outro foi dado pelo INFORMS (Institute for Operations Research and Management Sciences) para a “melhor dissertação de doutorado do ano de 2002 em qualquer área de pesquisa operacional e ciências de gerenciamento que é inovadora e relevante para a prática”.

Depois do doutorado você virou professora do MIT, certo?
No último ano do doutorado, entrei no mercado para professores universitários. Os formandos se inscrevem para posições em todas as universidades onde haja vagas relevantes. Depois, alguns são chamados para entrevistas. Fiz entrevistas em varias universidades, entre elas o MIT – no departamento de engenharia elétrica e ciência de computação.Quando dei minha palestra, estava na audiência o chefe do comitê de busca para uma posição no departamento de engenharia mecânica. Quando terminei, ele veio falar comigo e incentivar-me para me inscrever para essa posição. Não pensei muito nisso porque nunca tive relação com a engenharia mecânica. Mas passado um mês, ele me mandou um email pedindo para eu me inscrever se tivesse algum interesse, pois já estava acabando o ano acadêmico e eles tinham que finalizar sua busca. Num ímpeto, mandei meus materiais, depois de poucos dias fui fazer a entrevista e, logo depois, veio a oferta! Recebi ofertas de Columbia, Cornell, Georgia Tech e MIT – além do laboratório de pesquisa IBM Almaden, em San Jose.

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Nessa época você deu entrevistas para vários sites, revistas e jornais no Brasil, né? Você estava se sentindo realizada?
Na verdade, os três anos que passei como professora acadêmica foram um período de muito sofrimento e crise. Entre 2001 e 2003, minha vida pessoal e profissional entraram em um choque profundo, pareciam completamente divergentes. Comecei a dançar tango em 1999, mas foi a partir de 2001 que passei a dançar mais, foi uma atividade salva-vidas com a qual me identificava completamente. Passei o verão de 2001 em Nova Iorque, fazendo um estágio no laboratório de pesquisas da IBM T.J. Watson, e aí comecei a dançar tango cada vez mais. Encontrei um outro mundo e me apaixonei, tanto pela cidade, quanto pelo tango. Então chegou 2002 e, ao final, havia duas ofertas de trabalho que estava considerando mais seriamente: MIT, a universidade de maior prestigio, com os alunos (potencialmente) mais talentosos; e Columbia, uma universidade excelente na minha área, em Nova Iorque. Uma escolha representava aposta total na minha vida profissional, a outra um certo equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Passei semanas sem poder decidir até que me deram uma data final para responder. Acordei esse dia sem saber o que fazer e decidi jogar uma moeda. Saiu Columbia. Passei o dia inteiro jogando essa moeda. Ao final escolhi MIT, ou seja, minha carreira, e nunca pude realmente me perdoar por isso.

Todos os prêmios, famas e êxitos acadêmicos significavam pouco. No dia em que saiu a entrevista na Folha de Sao Paulo, acordei e abri meus e-mails: havia mais de 200 emails de fãs do Brasil que me escreviam de tudo; alguns dando parabéns, outros contando suas histórias, outros pedindo conselhos, alguns mandando fotos de seus gatos – já que saiu na matéria que eu os amava… E eu lia tudo isso e, mesmo sentindo um certo orgulho, isso não alterava minha profunda solidão e alienação, já que nenhuma dessas pessoas me conhecia de verdade, nem eu a eles, e no dia-a-dia eu me sentia num deserto emocional e uma estranha na minha própria vida.

Enfim, além de toda essa crise existencial que levou uns 6, 7 anos para eu superar, não podemos esquecer que meu doutorado foi em “tomada de decisões em regimes de incerteza”. Era muita ironia para mim que eu fosse considerada uma autoridade no assunto, quando na minha própria vida eu me sentia completamente despreparada para tomar decisões. Usando palavras de Ernesto Sabato (escritor e artista plástico argentino), sentia na pele que “a razão não serve para a existência”. E passava a encarar com muito ceticismo a vida científica e a questionar os sacrifícios da minha vida pessoal.

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E como você largou tudo isso para se tornar dançarina de tango?
Nunca pensei em ser bailarina profissional, mas sempre amei a dança, já com 7, 8 anos ficava vendo Margot Fonteyn (bailarina inglesa) na televisão. Um ano antes de sair do Brasil tive contato com as danças de salão e comecei a dançar forró – primeiro uma noite por semana, e em pouco tempo, já eram cinco vezes por semana, uma obsessão! Na dança me sentia livre, completamente feliz e identificada, cheia de prazer. Sinto que viver, e especialmente ser consciente de nossa condição, é incrivelmente difícil, é a carga do ser humano: viver sabendo da arbitrariedade do sofrimento, de nossa impotência diante da tragédia, doença, de todos os males que afetam os seres que amamos, viver lembrando de nossa própria mortalidade. A religião de alguma forma tenta resolver isso, oferece uma teoria, mas na minha mente (que até hoje funciona mais pela lógica), eu consigo ao máximo ser agnóstica, admitindo que não posso saber se tudo tem um motivo ou é completamente aleatório. Não é uma posição muito confortante ou satisfatória. Como alternativa, alguns de nos buscamos aliviar ou resolver essas questões pela ciência, que também está limitada em suas respostas. E o tango, ao final, não pode me dar nenhuma resposta, mas me dá outra coisa: faz com que todas essas questões se tornem “irrelevantes”. O tango tem esse poder de me ancorar no presente, no prazer físico do movimento, no prazer emocional do encontro com a música e com outra pessoa. Minha crise existencial se dissolve diante disso.

Então, nos 3 anos no MIT, vivi com um pé de cada lado: meus dias de semana de professora, em Boston, fazendo pesquisa, e os fins de semana em Nova Iorque, dançando tango. Nem me passava pela cabeça mudar de carreira, para mim o tango era atividade social e puro prazer. Em junho de 2005 fiz minha primeira viagem a Buenos Aires e no segundo dia conheci Luis Bianchi, meu parceiro na dança e na vida. Ele já era dançarino profissional. Tivemos uma linda historia “de verão” – se bem que era inverno – (risos ), mas eu não tinha nenhuma expectativa. Só que nos demos muito bem e decidimos manter o contato, pela internet. Com o passar dos meses, começamos a falar de trabalhar juntos.

Em um certo final-de-semana, vários meses depois, eu decidi ficar completamente quieta e não trabalhar. Eu vinha em um estado de bastante confusão há mais de dois anos nesse momento, indo à terapia uma ou duas vezes por semana e sem poder ter nenhuma clareza. Nesse fim-de-semana fiz uma coisa um pouco estranha: perguntei ao meu coração o que ele queria. E no silêncio encontrei a resposta: queria dançar.

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Muitas pessoas dizem que querem mudar de vida, mas tem medo. O que você acha que leva as pessoas a ficarem tantos anos vivendo uma vida que não lhes traz felicidade?
A incerteza dá muito medo. Deixar de lado um caminho que não é muito feliz, mas não chega a ser terrível para apostar em algo sem garantia de resultado não é fácil. A mudança é incômoda. Recomeçar do zero é árduo e acho que se no momento da decisão eu tivesse uma família, não sei se teria bancado a incerteza econômica. Se bem que eu acho que mesmo com as responsabilidades, valeria a pena.

Também tive um momento de epifania durante todo o meu processo de transformação. Foi em fevereiro de 2006, quando eu já tinha tomado a decisão de mudar de carreira. Fui passar uma semana no laboratório de pesquisa de IBM Almaden, onde tinha feito um post-doc de 9 meses. Sempre visitava esse laboratório para trabalhar com meu colaborador Nimrod Megiddo, uma pessoa muito destacada na área de pesquisa operacional. Durante meu post-doc, Nimrod havia se tornado não só um mentor mas também um amigo. Durante essa semana, comentei com ele pela primeira vez sobre meus planos de mudar de vida. Então, no último dia, quando nos despedimos, ele me deu um abraço, pedindo que eu me cuidasse. Nesse momento percebi meu espanto: sem saber, eu esperava perder seu afeto e amizade ao admitir que queria deixar a ciência para dançar. No entanto, sua amizade continuava, e isso era uma surpresa!

Nesse momento percebi que além do medo natural e as incertezas, há uma barreira muito importante para a mudança: as crenças que criamos sobre nossa identidade. Eu fui uma criança que ia muito bem na escola, que me destacava nas ciências exatas – que por algum motivo eram muito intuitivas para mim – e acreditava que aí estava meu valor.Foi só no momento em que meu amigo demonstrou sua preocupação comigo que comecei a ver que eu era muito mais que isso. Então, acredito que para a mudança, deve-se estar atento às “hipótese implícitas” que se formam sobre nossa identidade e valor. Até hoje sigo nesse labirinto de identidade já que ao romper essas crenças, passei por um período de desprezo pelo meu lado matemático. Ainda não entendo completamente minha dualidade e não sei como integrar os dois lados em um todo harmonioso, mas continuo tentando!

Muitos leitores do Glück perguntam como uma pessoa deve se preparar pra largar tudo. Que dicas você daria?
Ok, tenho convicção de que se deve combinar a emoção e a razão para fazer a mudança com sucesso. A emoção para mim é muito sábia, consegue avaliar todos os fatores para apontar a direção que devemos seguir. Acho que esse fatores são complexos demais para serem abordados de forma racional; a emoção e a intuição são nossas melhores ferramentas.

Porém, escolhendo a direção, acredito que a razão e a análise podem nos ajudar muitíssimo a ter sucesso a largo prazo no novo caminho. Não dá para ignorar completamente o aspecto financeiro, por exemplo, já que temos necessidades básicas que tem que ser atendidas. Talvez seja necessário planejar uma mudança gradual, quem sabe até mesmo parcial, e reavaliar o estilo de vida para poder adaptar-se a um poder aquisitivo e/ou estabilidade reduzidas. Por exemplo, quando decidi mudar de carreira, tomei uma licença no MIT e uma posição de professora visitante na New York University, para poder ter certa estabilidade econômica que me permitisse desenvolver aos poucos minha carreira com o Luis; depois de um ano, completei a transição. Isso nos permitiu ter mais tranquilidade para começar nosso trabalho sem a pressão de saber como iríamos pagar o aluguel, etc. E por conta da instabilidade financeira desta carreira comparada com o salário constante da universidade, vivo uma vida mais modesta independente de quanto ganho em cada mês.

Também acho que é melhor ter uma mentalidade que não seja preto-e-branco, podemos encontrar um equilíbrio. Por exemplo, o tango por ser razoavelmente comercial, permite-me viver 100% dele, mas se minha paixão fosse a dança moderna ou escrever, por exemplo, ainda poderia ser feliz trabalhando em tempo parcial em algo relacionado a minha formação acadêmica, mas dedicando uma boa parte do tempo a essas atividades. O principal para mim foi buscar um estilo de vida mais frugal, que me permite a liberdade de fazer o que quero.

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Então vale a “pena largar tudo”?
Mesmo não existindo “… e viveram felizes para sempre”, estou realizada e feliz. Esta nova vida tem seus desafios, não é um mar de rosas, no entanto tenho paixão pelo que faço, liberdade para escolher como vivo cada dia, e um melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Quando era criança, meu pai me contou de um fotógrafo cujo hobby era fotografia; ele o considerava realmente afortunado. Eu tive a imensa sorte de conseguir o mesmo: quando não estou trabalhando, quero dançar! Que mais poderia pedir da vida?
Daniela Pucci dançando tango.

Daniela Pucci dançando tango com Luis Bianchi

– Saiba mais sobre o trabalho de Daniela Pucci e Luis Bianchi
Ilustrações: Laura Salaberry

dica da Rina Noronha

Comentários

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3 Comentários

  1. Guillermo Creus disse:

    Dançar tango e ter um esposo argentino é quase o melhor dos mundos.
    Parabéns!

    • Nossa! Que história espetacular!
      Admiro a coragem de Daniela. Sempre vale a pena tentar e se jogar para o novo, ainda que as incertezas queiram nos amedrontar.
      Ser feliz é o que importa! Parabéns.

      Agora não sei se “dançar tango e ter um esposo argentino é quase o melhor dos mundos.” Mas creio que deva ser, sim! 😉

      Engraçado chegar a esse texto, que me encantou profundamente pela coragem dela, e ver esse comentário… E esse nome… Guillermo. Coincidência.

  2. Parabens! Irei divulgar o mais possível na UNICAMP, onde ministro aulas de física mas converso com meus alunos sobre a vida. Faço tango amador há dez anos, sei o que é.

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