“A gente trabalha de graça?”, questiona servidora do Senado com salário de R$ 58 mil

Dona de contracheque de R$ 58 mil brutos, Sarah Abrahão critica demora do TCU e Senado em cortar supersalários. Após decidir se aposentar, afirma que devolução põe funcionários em situação de “trabalho escravo”

Ex-secretária-geral da Mesa decidiu se aposentar após salário cair à metade

Ex-secretária-geral da Mesa decidiu se aposentar após salário cair à metade

Eduardo Militão, no Congresso em Foco

Ela tem 87 anos, sendo 53 no Senado. Foi a ex-secretária-geral da Mesa Sarah Abrahão quem cedeu a caneta para o então vice-presidente da República José Sarney, em 1985, assinar o termo de posse como presidente no lugar de Tancredo Neves, que convalescia no hospital. Em 2010, ela e outro colega foram homenageados por seus 50 anos dedicados ao serviço público. Recebeu a homenagem das mãos do próprio peemedebista.

Dona de um rendimento bruto de R$ 58 mil, a servidora viu o salário cair à metade com a política do Senado de cortar os supersalários por determinação do Tribunal de Contas da União (TCU). Com rendimento menor, ela revela ao Congresso em Foco que vai se aposentar após voltar de suas férias, provavelmente no início do ano que vem.

“Não vou aguentar mais”, afirmou Sarah na noite de quinta-feira (7). De acordo com auditoria do TCU, em 2009, ela tinha o terceiro maior salário do Senado. Entre julho de 2010 e junho de 2011, obteve R$ 765 mil brutos, como revelou a Revista Congresso em Foco. O segundo maior contracheque era do ex-diretor-geral Manoel Vilela, aposentado em 2010.

Ela se aposentou pelo Senado anos atrás. Depois, voltou com um cargo comissionado. Até então, acumulava os dois salários. Desde o mês passado, por ordem do tribunal, Sarah passou a receber somente a remuneração original, que não ultrapassa os R$ 28 mil brutos permitidos por lei. “Desde a Constituição de 1988, tem esse princípio do teto. O TCU recebe relatório do Senado todo ano. Por que esperaram 30 anos? Para dizer: agora não pode vai ter que devolver dinheiro. Por que a diretoria do Senado não verificou que estava fazendo a mais? Todo mundo ficou calado? Por que só agora vão fazer isso?”, criticou.

A servidora é contra a determinação do tribunal que ainda mandou tomar de volta tudo o que foi pago ilegalmente nos últimos cinco anos. “Como é que vai devolver dinheiro? Aí, se a gente trabalhou, é trabalho escravo?”, protesta. “Trabalhamos 30 anos pra devolver cinco anos que a gente recebeu como trabalho escravo?”

Sarah diz que, do jeito que está, não é possível ficar. Ela vai ganhar o mesmo do que se estivesse aposentada, sem direito ao cargo comissionado que recebia, para não exceder ao teto de R$ 28 mil brutos. “Tira dinheiro que a gente estava recebendo porque estava trabalhando. Quer dizer: então, a gente trabalha de graça? A troco de quê?”, critica.

Desencanto

Chateada com a imprensa e com o Senado, Sarah pede desculpas pelo “desabafo”. “Estou desencantada. Eu trabalhei muito no Senado. Assessorei o [senador] Pedro Aleixo e nunca recebi um salário a mais”, diz. Ela admite que tinha um bom salário, mas afirma que sempre trabalhou muito, até de madrugada, de maneira compatível com seus rendimentos.

Sarah diz que a forma como as notícias são publicadas pela imprensa constrange servidores como ela. Ela reclama que os jornalistas não revelam que seu salário líquido é menor que o bruto. O site e a revista Congresso em Foco mostraram seus rendimentos totais e líquidos. “Fica parecendo que a gente está fazendo coisa errada. Não é isso não. Vocês jornalistas… todo mundo só quer ver é coisa errada. Não quero nem ver o que você vai escrever amanhã.”

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